{"id":2390,"date":"2013-10-28T07:28:04","date_gmt":"2013-10-28T10:28:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=2390"},"modified":"2013-10-28T07:28:04","modified_gmt":"2013-10-28T10:28:04","slug":"a-mulher-no-seculo-21-a-sombra-do-patriarcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=2390","title":{"rendered":"A mulher no s\u00e9culo 21 \u00e0 sombra do patriarcado"},"content":{"rendered":"<h2>Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o casal mais influente do s\u00e9culo 20, protagonizou uma hist\u00f3ria de amor e consolida\u00e7\u00e3o de valores sociais que por muito tempo servir\u00e1 para muitas gera\u00e7\u00f5es. Jamais casaram ou tiveram filhos apesar da devo\u00e7\u00e3o m\u00fatua um ao outro com total liberdade. Foram os precursores de estilo de vida \u00e0 frente do tempo que viveram.<\/p>\n<p>Por Angelina Anjos*, especial para o Vermelho<\/h2>\n<p>Mesmo que as coisas de menino e de menina, de homem e de mulher, possam variar temporal e historicamente, de cultura em cultura, conforme conven\u00e7\u00f5es elaboradas socialmente, em pleno s\u00e9culo 21 as mulheres ainda convivem com o estigma que devem ser protegidas pela figura masculina e reproduzem conceitos que violam a capacidade de decis\u00e3o quando utilizam entre mulheres termos pejorativos, como forma de julgar comportamentos.<\/p>\n<p>Desde as Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas \u00e0 Lei de 1962, que modificou o C\u00f3digo Civil de 1917, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira sempre foi marcada pelo conservadorismo. O C\u00f3digo Civil Brasileiro de 1917 colocava a mulher no mesmo n\u00edvel do menor e essa proposi\u00e7\u00e3o absurda resistiu a todas as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na sociedade brasileira durante quase 50 anos, s\u00f3 sendo revogada em 1962.<\/p>\n<p>Em 1962 a Lei 4.121 modificou o C\u00f3digo de 1917, entretanto, conservou muito de sua ideologia patriarcal, conferia ao marido a chefia da sociedade conjugal, por uma necessidade de haver quem lhe assumisse a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como o C\u00f3digo havia conservado muito da ideologia patriarcal das Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas, do final do s\u00e9culo 16, que regeram direito civil brasileiro durante todo o per\u00edodo colonial, se prolongaram pelo Imp\u00e9rio e alcan\u00e7aram as primeiras d\u00e9cadas da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1970 foi marcada por mulheres em todo o mundo, que reivindicavam por maiores direitos na sociedade, um per\u00edodo de grandes tens\u00f5es pol\u00edticas. Mulheres brilhantes realizaram a chamada revolu\u00e7\u00e3o dos suti\u00e3s. Elas literalmente rasgaram e queimaram o suti\u00e3 como forma de protesto. Reivindicavam por liberdade sexual contra o machismo predominante na sociedade.<\/p>\n<p>Em 1984, corria no Congresso Nacional, j\u00e1 tendo sido aprovado na C\u00e2mara dos Deputados, um novo projeto de C\u00f3digo Civil. Durante a tramita\u00e7\u00e3o foram incorporadas, as disposi\u00e7\u00f5es do \u201cEsbo\u00e7o de Novo Estatuto Civil da Mulher\u201d, de autoria das advogadas S\u00edlvia Pimentel e Florisa Veruci.<\/p>\n<p>Na tentativa de ampliar direitos, o projeto foi objeto de um amplo processo de discuss\u00e3o no interior do movimento feminista e chegou \u00e0 C\u00e2mara subscrito por 49 entidades de mulheres.<\/p>\n<p>O projeto suprimia a atribui\u00e7\u00e3o da chefia da \u201csociedade conjugal\u201d ao marido. A reda\u00e7\u00e3o final foi \u00e0 seguinte: \u201cA dire\u00e7\u00e3o da sociedade conjugal ser\u00e1 exercida, em colabora\u00e7\u00e3o, pelo marido e pela mulher, sempre no interesse do casal e dos filhos.\u201d O par\u00e1grafo \u00fanico ressaltava que havendo diverg\u00eancia, qualquer dos c\u00f4njuges poder\u00e1 recorrer ao juiz, desde que as quest\u00f5es sejam essenciais e n\u00e3o se trate de materna personal\u00edssima.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 verdadeiro afirmar que por longo per\u00edodo a mulher esteve subjugada, como \u00e9 inconteste que muitas outras resolveram abrir alas para um novo momento de supera\u00e7\u00e3o de uma sorte t\u00e3o desvalida.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo 21 inaugura um C\u00f3digo Civil proveniente das lutas enfrentadas pelos movimentos de mulheres. Garante direitos e possibilita o an\u00fancio de um di\u00e1logo entre os valores do mundo dom\u00e9stico e os valores do mundo p\u00fablico.<\/p>\n<p>A Lei 11.340 \u2013 \u201cLei Maria da Penha\u201d \u00e9 indubitavelmente um marco civilizat\u00f3rio para o movimento feminista, anterior a ela n\u00e3o existia legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para tratar de viol\u00eancia dom\u00e9stica e contra a mulher, era enquadrada no art. 129 do CP e na Lei 9.099\/95, que conforme art. 61, os juizados especiais s\u00e3o as inst\u00e2ncias competentes para processar e julgar as infra\u00e7\u00f5es penais de menor poder ofensivo. Assim o agressor obtinha diversas formas de se beneficiar, seja pela convers\u00e3o da pena privativa de liberdade em pena pecuni\u00e1ria atrav\u00e9s da transa\u00e7\u00e3o penal, que depois de algum tempo adotou-se a pr\u00e1tica de pagamento de cestas b\u00e1sicas ou pela possibilidade da suspens\u00e3o do processo.<\/p>\n<p>A Lei Maria da Penha tipificou e definiu a viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher como crime. Al\u00e9m de proibir as penas pecuni\u00e1rias (pagamento de multas ou cestas b\u00e1sicas) e estabelecer as formas da viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher como f\u00edsica, psicol\u00f3gica, sexual, patrimonial e moral, independentemente da sua orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Entretanto o hist\u00f3rico de desigualdade e injusti\u00e7a social tr\u00e1s consigo em pleno s\u00e9culo 21 a heran\u00e7a patriarcal, autorit\u00e1ria, competitiva e agressiva reproduzida por algumas dezenas de mulheres que assumem a vida p\u00fablica e as que acatam como imperativo a vida privada.<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o protagonistas dessa aventura humana que \u00e9 nos liberar da sombra do patriarcado, ainda t\u00e3o forte dentro de nossos lares. A ruptura com o modelo machista de existir deve ser exerc\u00edcio di\u00e1rio e passado para as futuras gera\u00e7\u00f5es de homens e mulheres.<\/p>\n<p>A contemporaneidade exige de n\u00f3s mulheres o instinto de uma fera, a defesa intransigente de nossos espa\u00e7os, sem que para isso tenhamos que perder a feminilidade, pelo contr\u00e1rio, chegou o tempo de admitirmos para n\u00f3s o quanto \u00e9 importante exercermos o papel de mulher, que busca sempre mais um pouco \u00e0 frente de seu tempo. Somos as preservadoras da vida e o meio ou fio condutor que abre passagem em nosso cotidiano ao potencial criativo da alma feminina.<\/p>\n<p>Que tenhamos a coragem de viver com todas as mulheres que habitam em n\u00f3s, que possamos exaltar e ratificar todas aquelas que estiveram no movimento para nossas liberdades individuais e de g\u00eanero. Que possamos ser a express\u00e3o e a marca do terceiro mil\u00eanio, reconciliadas com nossa alma feminina poderemos quantitativa e qualitativamente transformar esse estado predat\u00f3rio em um processo criativo coletivo. A nossa sustentabilidade existencial e relacional depende do resgate da nossa humanidade.<\/p>\n<p>*Angelina Anjos \u00e9 assistente social, militante da luta pelos direitos humanos, membro do Comit\u00ea Paraense pela Verdade, Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a e filiada ao Partido Comunista do Brasil no Par\u00e1<\/p>\n<p>Portal Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o casal mais influente do s\u00e9culo 20, protagonizou uma hist\u00f3ria de amor e consolida\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2390","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2390"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2390\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2391,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2390\/revisions\/2391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}