{"id":2899,"date":"2013-11-12T07:29:11","date_gmt":"2013-11-12T10:29:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=2899"},"modified":"2013-11-12T07:29:11","modified_gmt":"2013-11-12T10:29:11","slug":"exumacao-repara-injusticas-historicas-contra-jango","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=2899","title":{"rendered":"EXUMA\u00c7\u00c3O REPARA INJUSTI\u00c7AS HIST\u00d3RICAS CONTRA JANGO"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/jango.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2900\" alt=\"jango\" src=\"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/jango-300x107.png\" width=\"300\" height=\"107\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cEssa hist\u00f3ria n\u00e3o se resume \u00e0 exuma\u00e7\u00e3o\u201d, ressalva Christopher Goulart. Advogado, suplente de vereador pelo PDT e secret\u00e1rio-adjunto de Assist\u00eancia de Social de Porto Alegre, Christopher est\u00e1 animado: faltam apenas dois dias para que os restos mortais de seu av\u00f4, Jo\u00e3o Goulart, sejam retirados da sepultura \u2013 e do esquecimento \u2013 em que se encontram, na pequena S\u00e3o Borja, cidade a oeste do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Por determina\u00e7\u00e3o da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o t\u00famulo de m\u00e1rmore preto dos Goulart ser\u00e1 aberto na quarta-feira (13). Embora com anos de atraso, os pedidos da fam\u00edlia finalmente se concretizaram: os despojos de Jango ser\u00e3o analisados por peritos em antropologia forense da Pol\u00edcia Federal, com aux\u00edlio de especialistas argentinos, uruguaios e cubanos. O objetivo \u00e9 acabar com as incertezas em torno da morte do ex-presidente, derrubado pelo golpe de 1964.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, garantias de que os exames dar\u00e3o algum resultado. Quase 37 anos ap\u00f3s seu falecimento, no interior da Argentina, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber se o ataque card\u00edaco que acometeu Jango teve causas naturais \u2013 ou se foi provocado por uma esp\u00e9cie de envenenamento. O tempo decorrido entre seu sepultamento e as an\u00e1lises que se iniciam no pr\u00f3ximo dia 15, no Instituto Nacional de Criminal\u00edstica, em Bras\u00edlia, n\u00e3o assegura o sucesso das pesquisas.<\/p>\n<p>De acordo com a Pol\u00edcia Federal, tudo vai depender das condi\u00e7\u00f5es em que o corpo de Jango foi enterrado. E tamb\u00e9m da subst\u00e2ncia t\u00f3xica que ser\u00e1 procurada em seus ossos. Mesmo que Jo\u00e3o Goulart tenha sido envenenado, \u00e9 muito prov\u00e1vel que n\u00e3o se encontre nada no que restou de seu cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u201cDependendo das t\u00e9cnicas, ainda mais num caso antigo, voc\u00ea tem a possibilidade de n\u00e3o encontrar resultados, mesmo tendo havido intoxica\u00e7\u00e3o\u201d, explica a advogada Rosa Cardoso, membro da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) que acompanhar\u00e1 as per\u00edcias. \u201cSe a exuma\u00e7\u00e3o evidenciar envenenamento, teremos uma prova concludente. Se n\u00e3o, pode-se admitir que a passagem do tempo impediu que se encontrassem provas.\u201d<\/p>\n<p>Intensamente monitorada por agentes da repress\u00e3o brasileira, argentina e uruguaia durante os anos em que regimes militares vigoravam no Cone Sul, e se articulavam pelos canais clandestinos da Opera\u00e7\u00e3o Condor, a fam\u00edlia Goulart cultiva poucas d\u00favidas sobre a\u00a0<em>causa mortis<\/em>\u00a0de seu filho mais ilustre. Por isso, n\u00e3o est\u00e1 preocupada apenas em colocar um ponto final nos questionamentos sobre as origens do mal s\u00fabito que acometeu o ex-presidente.<\/p>\n<p>\u201cEstamos cientes de que a exuma\u00e7\u00e3o \u00e9 o que mais chama a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, mas n\u00e3o d\u00e1 para esquecer que, al\u00e9m de ter sido assassinado fisicamente, meu av\u00f4 foi assassinado politicamente\u201d, continua Christopher, quem assumiu as vezes de porta-voz dos herdeiros de Jango. \u201cForam 21 anos de ditadura. Durante esse tempo, atacaram a imagem e a obra pol\u00edtica do meu av\u00f4, que era extremamente contempor\u00e2nea e que faz muita falta para o Brasil de hoje.\u201d<\/p>\n<p><strong>Import\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSe as reformas estruturais ou reformas de base propostas pelo presidente Jo\u00e3o Goulart tivessem sido implementadas ainda na d\u00e9cada de 1960, como ele defendia, nosso pa\u00eds seria outro\u201d, atesta o historiador Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminese (UFF), em Niter\u00f3i, e autor do livro\u00a0<em>Jo\u00e3o Goulart: uma biografia\u00a0<\/em>(Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 713 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>\u201cTer\u00edamos uma na\u00e7\u00e3o muito melhor, principalmente no que se refere \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de renda. A ditadura foi extremamente concentradora das riquezas produzidas no Brasil. Com as reformas, ter\u00edamos um pa\u00eds mais justo.\u201d<\/p>\n<p>Ferreira explica que Jango foi o maior herdeiro do trabalhismo at\u00e9 ent\u00e3o liderado pelo ex-presidente Get\u00falio Vargas, e que foi respons\u00e1vel, entre outras conquistas, pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis Trabalhistas (CLT). Ambos nasceram em S\u00e3o Borja. E foi l\u00e1 que Goulart come\u00e7ou sua carreira pol\u00edtica, elegendo-se deputado estadual pelo PTB em 1946. Em 1950, assumiria as fun\u00e7\u00f5es de deputado federal. Um ano mais tarde, seria nomeado para o Minist\u00e9rio do Trabalho. \u201cEnt\u00e3o, se transforma numa figura conhecida nacionalmente\u201d, explica o professor da UFF.<\/p>\n<p>A penetra\u00e7\u00e3o de Jango nas camadas populares do pa\u00eds come\u00e7ou a revelar-se nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1955, quando o ga\u00facho foi eleito vice de Juscelino Kubitschek. Na \u00e9poca, a escolha do presidente e do vice eram feitas separadamente. E Jango teve 500 mil votos a mais do que o pr\u00f3prio JK, que recebeu a aprova\u00e7\u00e3o de 3 milh\u00f5es de brasileiros. \u201cTornou-se rapidamente um nome muito popular, com muito tr\u00e2nsito nos sindicatos e com canal aberto entre os comunistas.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com Ferreira, Jo\u00e3o Goulart possu\u00eda uma personalidade negociadora. \u201cEra um homem do di\u00e1logo\u201d, comenta, \u201ce acreditava que o pa\u00eds tinha que passar por reformas estruturais se quisesse sair do subdesenvolvimento.\u201d Contudo, essa predisposi\u00e7\u00e3o para costurar acordos pol\u00edticos n\u00e3o foi suficiente para que Jango pudesse conciliar os \u00e2nimos radicalizados quando assumiu a Presid\u00eancia, em 1961, ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, de quem tamb\u00e9m havia sido eleito vice.<\/p>\n<p>\u201cHouve a revolu\u00e7\u00e3o cubana. As esquerdas cresceram em todo continente, ganharam musculatura. No Brasil, havia Leonel Brizola, Miguel Arraes e Francisco Juli\u00e3o. Mas tamb\u00e9m havia for\u00e7as poderosas \u00e0 direita\u201d, contextualiza Ferreira. \u201cAs esquerdas queriam a reforma agr\u00e1ria em seu programa m\u00e1ximo: divis\u00e3o de terras produtivas e improdutivas, sem indeniza\u00e7\u00e3o. Os setores conservadores, com maioria no Congresso, estavam dispostos a negociar. Aceitavam reforma somente em terras improdutivas com indeniza\u00e7\u00e3o ao propriet\u00e1rio, ainda que fosse simb\u00f3lica. As partes n\u00e3o chegavam a acordo algum.\u201d<\/p>\n<p>Longe de ser \u201ccoisa de comunista\u201d, como sugeria a propaganda da Guerra Fria, a divis\u00e3o das propriedades rurais era um passo necess\u00e1rio para a moderniza\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro. \u201cPa\u00edses como M\u00e9xico, Estados Unidos e Coreia do Sul j\u00e1 haviam passado por processos semelhantes\u201d, recorda o pesquisador. \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o era faz\u00ea-la ou n\u00e3o faz\u00ea-la, mas como faz\u00ea-la. Ainda assim, n\u00e3o foi poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Jango tentou ainda conduzir reformas nas universidades e no setor banc\u00e1rio. Quis estender as leis trabalhistas ao campo brasileiro. Pretendeu legalizar o Partido Comunista e instituir direito ao voto aos analfabetos \u2013 medidas que s\u00f3 seriam garantidas pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>\u201cDepois do golpe, come\u00e7a processo de dilapida\u00e7\u00e3o de sua reputa\u00e7\u00e3o, por um lado, e de esquecimento de sua figura, por outro\u201d, acusa o bi\u00f3grafo de Jango. \u201cAs direitas civil e militar, que o derrubaram, passaram a criar imagens negativas do ex-presidente: corrupto, subversivo, incompetente, alco\u00f3latra. As esquerdas tamb\u00e9m atacaram, acusando como l\u00edder burgu\u00eas de massa e manipulador dos oper\u00e1rios. Essa ideia de que Jango foi covarde e fugiu da ditadura, isso quem criou foi a esquerda.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o discurso acad\u00eamico de Ferreira se encontra com as aspira\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia Goulart. \u201cJango \u00e9 uma personalidade pol\u00edtica que precisa ser resgatada na hist\u00f3ria, assim como aconteceu com Juscelino Kubitschek\u201d, afirma. \u201cJK sofreu mesmo processo de dilapida\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 houve um resgate. Agora, temos que repensar a import\u00e2ncia de Goulart.\u201d Neto do ex-presidente, Christopher, que nasceu no ex\u00edlio ingl\u00eas, concorda. \u201cSou fruto dessa campanha difamat\u00f3ria\u201d, dep\u00f5e. \u201cToda essa hist\u00f3ria se refletiu na minha vida.\u201d<\/p>\n<p><strong>Suspeitas<\/strong><\/p>\n<p>A fam\u00edlia Goulart percorreu um longo caminho institucional, decorado por inqu\u00e9ritos arquivados, antes de que o governo federal resolvesse marcar a data da exuma\u00e7\u00e3o de Jango. Christopher lembra que logo ap\u00f3s a morte de seu av\u00f4, doze anos ap\u00f3s o in\u00edcio do regime militar, n\u00e3o havia qualquer possibilidade pol\u00edtica de investigar as circunst\u00e2ncias de seu falecimento. \u201cEnquanto viveu, ele foi o perseguido pol\u00edtico n\u00famero 1\u201d, anota. \u201cMas ainda na d\u00e9cada de 1980, alguns pesquisadores j\u00e1 come\u00e7aram a ventilar a tese de que havia sido assassinado.\u201d<\/p>\n<p>Christopher cita o exemplo do empres\u00e1rio uruguaio Enrique Foch D\u00edaz, autor do livro\u00a0<em>Jo\u00e3o Goulart: El cr\u00edmen perfecto<\/em>, um dos primeiros a levantar a hip\u00f3tese do assassinato. \u201cMais recentemente, apareceu um uruguaio, Mario Neida Barreiro, atualmente preso no Brasil por crimes comuns. Ele d\u00e1 testemunho de todo o monitoramento que \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o brasileira, argentina e uruguaia exerceram sobre meu av\u00f4\u201d, continua o neto, lembrando a entrevista concedida pelo ex-repressor ao jornal\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0em 2008. \u201cTudo indica que foi uma persegui\u00e7\u00e3o t\u00edpica da Opera\u00e7\u00e3o Condor.\u201d<\/p>\n<p>Presidente do Movimento Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH), ong sediada em Porto Alegre, o ativista Jair Krischke lembra de outros elementos que refor\u00e7am a vers\u00e3o de que o ex-presidente foi assassinado. \u201cO ataque card\u00edaco de Jango acontece num contexto em que as mortes de lideran\u00e7as pol\u00edticas do Brasil e do Cone Sul se deram de uma forma altamente suspeita, em alguns casos, e, em outros, escrachadamente provocadas por agentes da repress\u00e3o\u201d, afirma. \u201cNada \u00e9 gratuito.\u201d<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, explica Krischke, se desenrolava a campanha presidencial nos Estados Unidos e o candidato democrata, Jimmy Carter, que mais tarde venceria o Pr\u00eamio Nobel da Paz, aparecia como favorito para ocupar a Casa Branca. Em janeiro de 1977, o pol\u00edtico da Georgia efetivamente passaria a comandar a na\u00e7\u00e3o. \u201cEle pregava o absoluto respeito aos direitos humanos e o fim do apoio norte-americano \u00e0s ditadura na Am\u00e9rica do Sul\u201d, analisa. \u201cFalava inclusive em redemocratiza\u00e7\u00e3o. Isso assustou nossas ditaduras.\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que as mortes come\u00e7aram a acontecer. \u201cEm 1976, dois l\u00edderes da esquerda uruguaia, Zelmar Michelini e H\u00e9ctor Guti\u00e9rrez Ruiz, foram assassinados em Buenos Aires, onde estavam exilados. No mesmo ano, Juan Jos\u00e9 Torres, que havia sido presidente da Bol\u00edvia, tamb\u00e9m foi morto na capital argentina\u201d, enumera o presidente do MJDH ga\u00facho. \u201cOrlando Letelier, membro do governo de Salvador Allende, no Chile, perde a vida num atentado a bomba em Washington, nos Estados Unidos, tamb\u00e9m em 1976.\u201d<\/p>\n<p>Entre as v\u00edtimas brasileiras dessa onda de mortes coincidentes, Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o foi a \u00fanica. Em agosto de 1976, quatro meses antes de o cora\u00e7\u00e3o de Jango falhar no interior da Argentina, o ex-presidente Juscelino Kubitschek perdia a vida num acidente de carro em Resende, no Rio de Janeiro. Em maio de 1977, o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, faleceu num hospital ap\u00f3s ser internado com virose. \u201cPor tudo isso, \u00e9 necess\u00e1rio investigar rigorosamente a morte n\u00e3o apenas de Jango, mas tamb\u00e9m JK e Lacerda\u201d, defende Krischke. \u201cNem que seja para termos certeza de que foram mortes naturais. N\u00e3o podemos ficar com a d\u00favida.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, tamb\u00e9m h\u00e1 fortes ind\u00edcios que apontam para a vers\u00e3o de que Jo\u00e3o Goulart foi v\u00edtima de um ataque card\u00edaco corriqueiro. O professor Jorge Ferreira ressalta que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma prova sobre a\u00a0<em>causa mortis<\/em>\u00a0de Jango \u2013 \u201co que temos s\u00e3o apenas ind\u00edcios, de ambos os lados\u201d \u2013 e recorda o problem\u00e1tico hist\u00f3rico m\u00e9dico do ex-presidente.<\/p>\n<p>\u201cSofreu seu primeiro problema no cora\u00e7\u00e3o em 1961 e enfartou em 1969. Tomava tr\u00eas rem\u00e9dios para press\u00e3o alta, e um deles inibia a produ\u00e7\u00e3o de serotonina, o que lhe causou depress\u00e3o. Fumava dois ma\u00e7os de cigarro por dia, comia carne gordurosa, tomava u\u00edsque toda noite e n\u00e3o fazia exerc\u00edcios f\u00edsicos.\u201d<\/p>\n<p>Nascido e criado em S\u00e3o Borja, o advogado Iber\u00ea Teixeira, que militava no movimento estudantil ga\u00facho quando os militares tomaram o poder no pa\u00eds, enumera as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de Jo\u00e3o Goulart para defender a tese de que o ex-presidente n\u00e3o foi assassinado. \u201cEstou escrevendo um livro em que re\u00fano ind\u00edcios para sustentar que Jango, na verdade, morreu de saudades\u201d, explica, sem no entanto eximir a culpa da ditadura, respons\u00e1vel por colocar Jango nessa situa\u00e7\u00e3o. Teixeira afirma que visitou seu conterr\u00e2neo na Argentina seis meses antes de sua morte. \u201cEstava triste, fumando e comendo carne gorda. Faleceu olhando na dire\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Borja.\u201d<\/p>\n<p><strong>Receios<\/strong><\/p>\n<p>Perseguido pela ditadura e reconhecido como anistiado pol\u00edtico durante o governo FHC, Teixeira \u00e9 o presidente da comiss\u00e3o especial constitu\u00edda pela prefeitura s\u00e3o-borjense para acompanhar in loco a exuma\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart. O advogado conta que, quando come\u00e7aram a ventilar mais seriamente a hip\u00f3tese de retirar o cad\u00e1ver do ex-presidente do cemit\u00e9rio municipal, no come\u00e7o deste ano, a popula\u00e7\u00e3o da cidade n\u00e3o gostou muito da ideia. \u201cHouve consterna\u00e7\u00e3o e revolta\u201d, conta. Temia-se que Jango nunca mais voltasse \u00e0 sua terra natal. Por isso, no in\u00edcio, a comunidade resistiu \u00e0s inten\u00e7\u00e3o do governo federal.<\/p>\n<p>\u201cDepois, o prefeito da cidade come\u00e7ou a trabalhar junto \u00e0s autoridades e \u00e0 fam\u00edlia Goulart, e conseguimos a garantia de que os despojos iriam retornar a S\u00e3o Borja depois da per\u00edcia\u201d, relata. \u201cAssim, a comunidade desarmou os esp\u00edritos e se tranquilizou.\u201d<\/p>\n<p>Hoje (12), um dia antes da exuma\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 uma audi\u00eancia p\u00fablica na cidade com a ministra Maria do Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para Teixeira, a cidade ga\u00facha n\u00e3o pode perder o jazigo de Jango. \u201cAqui tamb\u00e9m est\u00e3o enterrados Get\u00falio Vargas e Leonel Brizola\u201d, recorda. \u201cS\u00e3o Borja \u00e9 considerada santu\u00e1rio do trabalhismo brasileiro. Por isso, queremos deix\u00e1-los aqui.\u201d<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o divulgada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica atende \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos s\u00e3o-borjenses. Se tudo correr como previsto, os restos mortais de Jo\u00e3o Goulart \u2013 depois de sua primeira passagem por Bras\u00edlia desde foi escorra\u00e7ado do Planalto, em 1964 \u2013 retornar\u00e3o em 6 de dezembro ao jazigo onde se encontra desde 1976. A data n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio, marcar\u00e1 o 37\u00ba anivers\u00e1rio de sua morte. Desta vez, o sepultamento contar\u00e1 com todas as honras de chefe de Estado que Jango n\u00e3o teve quando, ainda sob o regime, foi enterrado pela primeira vez.<\/p>\n<p>\u201cA ditadura tinha muito medo da como\u00e7\u00e3o que sua morte poderia provocar no pa\u00eds\u201d, afirma Christopher, que era apenas um rec\u00e9m-nascido na \u00e9poca. \u201cN\u00e3o houve luto oficial: houve sil\u00eancio oficial.\u201d<\/p>\n<p>O advogado Iber\u00ea Teixeira participou do cortejo f\u00fanebre que levou Jo\u00e3o Goulart at\u00e9 o cemit\u00e9rio de S\u00e3o Borja. E confirma as dificuldades. \u201cTrouxeram o caix\u00e3o da Argentina por terra. Houve muita tens\u00e3o. Os militares vigiaram tudo\u201d, conta. \u201cNa \u00e9poca, Jango estava ensaiando seu retorno ao Brasil. O governo havia determinado que, se ele ingressasse no pa\u00eds, deveria ser imediatamente preso.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Tr\u00e2nsito de S\u00e3o Borja, major \u00c9lcio Carvalho, a comunidade espera com ansiedade a chegada da comitiva federal que far\u00e1 a exuma\u00e7\u00e3o. O policial informa que os poucos hot\u00e9is do munic\u00edpio est\u00e3o quase todos lotados e que os s\u00e3o-borjenses esperam bastante \u201cmovimento\u201d com os trabalhos forenses. Segundo \u00c9lcio, h\u00e1 consenso entre os habitantes da cidade sobre a import\u00e2ncia da exuma\u00e7\u00e3o. Nem mesmo os militares das tr\u00eas instala\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito que existem em S\u00e3o Borja estariam incomodados. \u201cH\u00e1 uma d\u00favida hist\u00f3rica na cidade\u201d, conta. Fora dela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Brasil 247<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEssa hist\u00f3ria n\u00e3o se resume \u00e0 exuma\u00e7\u00e3o\u201d, ressalva Christopher Goulart. 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