{"id":41423,"date":"2017-02-03T07:32:46","date_gmt":"2017-02-03T10:32:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=41423"},"modified":"2017-02-03T07:32:46","modified_gmt":"2017-02-03T10:32:46","slug":"marisa-e-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=41423","title":{"rendered":"Marisa e Lula"},"content":{"rendered":"<h2 id=\"link_lead\" style=\"text-align: justify;\">Aos 25 anos, Marisa abriu a porta de sua casa a uma visitante ilustre, para nunca mais fech\u00e1-la: a luta por um Brasil mais justo.<\/p>\n<p>Por Saul Leblon, da Carta Maior<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"imagem-box imagem-box-2\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>\u00a0<\/address>\n<p><img decoding=\"async\" title=\"\u00a0\" src=\"http:\/\/imagem.vermelho.org.br\/biblioteca\/1984105790.jpg\" alt=\"\u00a0\" \/><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegar\u00e1 o dia em que o enredo pronto que existe dentro da legenda \u2018Marisa e Lula\u2019 merecer\u00e1 o olhar de um cineasta brasileiro.<\/p>\n<p>Um diretor atento a um Brasil contra o qual a m\u00eddia sempre manteve, e intensificou, uma rela\u00e7\u00e3o depreciativa, mais belicosa e obsessiva que a dispensada agora aos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o por Trump, enxergar\u00e1 neles a personifica\u00e7\u00e3o de um dos per\u00edodos mais generosos e vitais da vida nacional.<\/p>\n<p>O improv\u00e1vel revestir\u00e1 os passos iniciais na trajet\u00f3ria deste casal de trabalhadores no maior polo industrial do Brasil.<\/p>\n<p>Um homem e uma mulher de origem simples, jovens mas vi\u00favos, apetrechados no m\u00e1ximo de um cristianismo ing\u00eanuo a revestir a luta pela sobreviv\u00eancia, um dia abriram a porta de sua casa a uma visitante ilustre, para nunca mais fech\u00e1-la.<\/p>\n<p>Era a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E ela os arrebatou.<\/p>\n<p>Surpreendentemente, por\u00e9m, e nisso reside o magnetismo da trama a l\u00e9guas de ser uma f\u00e1bula de seres perfeitos, tamb\u00e9m foi arrebatada por eles, com todos os riscos inerentes a uma coisa e outra num dos per\u00edodos mais turbulento da vida nacional.<\/p>\n<p>Estamos no Brasil de 1974, em plena ditadura militar.<\/p>\n<p>Nesse enredo de carne e osso as cenas se desenrolam quase prontas aos olhos de quem quiser enxerg\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia e luta, de coragem e medo, curtida em derrotas e supera\u00e7\u00e3o, temperada de doses de grandezas e fraquezas, cuja soma conflituosa afronta a prateleira do previs\u00edvel e do edulcorado para arrombar a fronteira que dividia o passo seguinte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Contra todas as probabilidades eles n\u00e3o foram derrotados pela avalanche que recobriria seu destino pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Marisa e Lula afrontaram a hierarquia inoxid\u00e1vel do mundo burgu\u00eas, patronal e conservador e tamb\u00e9m do universo pequeno burgu\u00eas no qual poderiam ter se acomodado na ampla sala de estar reservada aos mansos.<\/p>\n<p>Para a surpresa de uns \u2013 deles mesmos, talvez\u00a0\u2013 e horror de outros, lograram tomar as r\u00e9deas do cavalo xucro da hist\u00f3ria que passou na sua frente, mudando a dire\u00e7\u00e3o dele e o enredo de suas vidas.<\/p>\n<p>Est\u00e3o juntos h\u00e1 43 anos assim. Sem parar o trote agalopado.<\/p>\n<p>Um ano depois de se casarem, em 1975, Lula seria eleito presidente do mais estrat\u00e9gico sindicato de trabalhadores do pa\u00eds, inserido no maior polo automobil\u00edstico da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Lula assumiu o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo quando o general Geisel era o ditador do Brasil.<\/p>\n<p>O pa\u00eds ingressava num ciclo vertiginoso de luta por democracia e de levantes oper\u00e1rios contra o arrocho econ\u00f4mico e sindical.<\/p>\n<p>O ABC era o cora\u00e7\u00e3o da impaci\u00eancia oper\u00e1ria. Mas a opress\u00e3o patronal assegurada pelos militares empurrava velozmente a reivindica\u00e7\u00e3o salarial para a confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o que eles preconcebiam. Longe disso. Mas era o que se impunha como um efeito domin\u00f3 a cada passo do embate.<\/p>\n<p>Pois bem, Marisa e Lula n\u00e3o se deixaram encurralar pelos repetidos chamados do toque de recolher que dispara na vida de um casal nas situa\u00e7\u00f5es de perigo que amea\u00e7am o teto e a prole.<\/p>\n<p>Logo, muito logo, nas m\u00e3os de Lula, o sindicato dos metal\u00fargicos ficaria nacionalmente conhecido como uma das principais fortalezas da frente ampla de luta por liberdades democr\u00e1ticas que se esparramava pelo pa\u00eds, irradiando a audi\u00eancia da voz rouca do mar ao sert\u00e3o.<\/p>\n<p>As ruas eram uma extens\u00e3o dessa consci\u00eancia que se adensava contra o que n\u00e3o era mais toler\u00e1vel, a censura, a tortura, a repress\u00e3o, o arrocho, enfim, a interdi\u00e7\u00e3o do futuro na vida de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O lar de Marisa, 25 anos, e Lula, 30 anos, foi arrebatado por esse turbilh\u00e3o da hist\u00f3ria que entrou pela sala, logo estava na cozinha tomando sopa de madrugada, esparramou colchonetes e fez dali um acampamento de prontid\u00e3o permanente por democracia e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Era assim a casa de Marisa rec\u00e9m-casada.<\/p>\n<p>Ou melhor, a casa da senhora hoje com 66 anos e uma hemorragia cerebral\u00a0\u2013 que respira por aparelhos na UTI de um hospital, em cuja entrada o \u00f3dio escarnece de seu drama e ergue cartazes em que pede a pris\u00e3o de seu marido.<\/p>\n<p>Sua casa tornou-se uma arriscada trincheira da luta por democracia e justi\u00e7a social, num tempo em erguer cartazes por democracia e justi\u00e7a social dava cadeia, n\u00e3o raro, pancada e tortura.<\/p>\n<p>O lar dessa senhora em coma induzido era um gigantesco cartaz de aud\u00e1cia oper\u00e1ria na noite do Brasil.<\/p>\n<p>O filme \u00e0 espera de um diretor abriria com a leitura vagarosa dos estandartes de \u00f3dio, solit\u00e1rios, mas exclamativos de um sentimento incontido das elites e do seu entorno contra tudo o que se refira \u00e0quela casa, \u00e0 mulher e ao homem que a partir dela os desafiou e venceu.<\/p>\n<p>No ambiente frio da UTI desta S\u00e3o Paulo cinzenta de janeiro de 2017, o sil\u00eancio s\u00f3 \u00e9 entrecortado pelos equipamentos que monitoram o metabolismo fragilizado pelo aneurisma rompido.<\/p>\n<p>O boletim m\u00e9dico informa que o quadro da paciente Marisa Let\u00edcia \u00e9 est\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que se luta para preservar ali, por\u00e9m, \u00e9 justamente algo que se mexe como a hist\u00f3ria e que por se mexer op\u00f5e-se ao cerco que pretende afog\u00e1-lo numa grande hemorragia de demoniza\u00e7\u00e3o e esquecimento.<\/p>\n<p>O alvo \u00e9 certeiro.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 um peda\u00e7o do futuro.<\/p>\n<p>A daquele per\u00edodo, sobretudo preciosa para o presente.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas para entender o Brasil atual, a partir dos protagonistas ora capturados pela m\u00e1quina avassaladora de picar e reconstruir reputa\u00e7\u00f5es e legados deformando-os.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 para repor o que est\u00e1 sendo lixiviado, sangrado diariamente na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Mas ela, a mem\u00f3ria, tamb\u00e9m \u00e9 crucial para repor o orgulho, a credibilidade, a confian\u00e7a e, sobretudo, a fa\u00edsca capaz de religar a esperan\u00e7a que respirava naquela casa onde brotariam as sementes do pa\u00eds que trinta anos depois vicejaria.<\/p>\n<p>Esse que est\u00e1 sendo ceifado agora com rancor inaudito, um Brasil que ainda n\u00e3o somos, mas que poderemos ser no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>A metamorfose do improv\u00e1vel nas ruas do pa\u00eds naqueles prim\u00f3rdios contradiz o imposs\u00edvel hoje elevado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de permanente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 hagiografia filmada.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria real, de gente de carne e osso.<\/p>\n<p>Que se entregou sem se perguntar onde era a porta de sa\u00edda de volta \u00e0 rotina, e o fez de peito aberto, pondo na mesa empregos, filhos, o presente e o futuro, numa aposta contra o estabelecido, com os riscos e a viol\u00eancia sabidos.<\/p>\n<p>Gente comum se agiganta em circunstancias incomuns, ao n\u00e3o recuar diante delas.<\/p>\n<p>Esse resgate feito de carne e osso \u00e9 indispens\u00e1vel para repor a grandeza e as fraquezas da carne e do osso humano na fric\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira hoje sufocada pela mentira e o \u00f3dio.<\/p>\n<p>Carta Maior recuperou uma das raras entrevistas em que a personagem que hoje luta pela vida em uma UTI, assim como lutou pela sua e a de milh\u00f5es nesses 43 anos, rememora o seu olhar sobre os acontecimentos desse in\u00edcio, cujo ep\u00edlogo persiste em disputa.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia ao esquecimento \u00e9 um peda\u00e7o dessa disputa.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de 2002, feita durante a campanha que levaria o PT pela primeira vez ao governo.<\/p>\n<p>\u00c9 atual porque devolve a Marisa o direito de se proteger daquilo que os ind\u00edgenas mais temem diante de uma c\u00e2mera: o roubo de alma.<\/p>\n<p>Da alma da mulher que ia visitar o marido preso pela pol\u00edcia pol\u00edtica da ditadura sem fraquejar nem lhe pedir que fraquejasse; da esposa e m\u00e3e, sozinha, que, ao contr\u00e1rio de todos os progn\u00f3sticos, quando o sensato era recuar e sumir, abriu a casa para ser o sindicato quando os tr\u00eas sindicatos de metal\u00fargicos do ABC sofreram interven\u00e7\u00e3o na grande greve de 1979, coroada pelas lend\u00e1rias assembleias de 60 mil pessoas no est\u00e1dio da Vila Euclides; a alma da mulher que organizou com outras m\u00e3es e esposas uma audaciosa passeata de mulheres e filhos em uma S\u00e3o Bernardo tomada por tropas da repress\u00e3o, em defesa dos maridos, dos oper\u00e1rios e sindicalistas presos; a alma da Marisa que costurou a primeira bandeira do PT; e que se politizou assim, como protagonista de uma hist\u00f3ria feita com as pr\u00f3prias m\u00e3os, sobre a qual nem ela, nem ele, Lula, jamais seriam convidados a opinar se ficassem esperando o convite dos que agora tomaram se assalto a engrenagem e a reescrevem com fel, ferro e fogo.<\/p>\n<p>Repita-se, n\u00e3o \u00e9 uma elegia \u00e0 pureza dos oprimidos.<\/p>\n<p>\u00c9 um enredo de luta entre opressores e oprimidos.<\/p>\n<p>Nessa fric\u00e7\u00e3o, virtudes e defeitos se misturaram na implac\u00e1vel m\u00e1quina de mastiga\u00e7\u00e3o que \u00e9 a experi\u00eancia da pol\u00edtica e do poder no capitalismo que eles encararam sem se despir da \u00fanica armadura que sempre os acompanhou: a consci\u00eancia de que viver \u00e9 lutar.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria da senhora de 66 anos que hoje trava a batalha pela vida n\u00e3o vale pelo saldo de pureza que ela at\u00e9 possa externar.<\/p>\n<p>Vale pelo legado desse percurso inconcluso.<\/p>\n<p>Feito de institui\u00e7\u00f5es e direitos que ajudou a demarcar.<\/p>\n<p>E de possibilidades que contribuiu para esbo\u00e7ar na vida brasileira.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse legado que repousa a possibilidade deste pa\u00eds de presos degolados se tornar um dia uma sociedade virtuosa.<\/p>\n<p>Pautada em pedra e cal por direitos entre iguais e por democracia entre diferentes, que s\u00f3 pode ser democracia se for levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias na reparti\u00e7\u00e3o do bem comum.<\/p>\n<p>Inclusive para garantir a express\u00e3o de quem hoje se posta diante do hospital onde Marisa e Lula travam a batalha de vida e morte para persistirem nessa busca.<\/p>\n<p>E ali destilar a repres\u00e1lia dos que rugem contra o enredo de filme \u00e0 procura de um diretor que se desata aos nossos olhos \u00e0 simples men\u00e7\u00e3o da legenda indivisa: \u2018Marisa e Lula\u2019.<\/p>\n<p>Abaixo,a entrevista de Marisa Let\u00edcia ao site da campanha do PT de 2002.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Para Marisa Let\u00edcia Lula da Silva, 52 anos, esposa de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, 57, o candidato a presidente pela Coliga\u00e7\u00e3o PT-PL-PCdoB-PC-PMN, a casa nunca foi apenas o ref\u00fagio familiar, mas tamb\u00e9m um ponto de intersec\u00e7\u00e3o de alguns dos fatos pol\u00edticos mais importantes que mudariam a face do Brasil nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>As greves do ABC, a repress\u00e3o do regime militar, a luta pelas Diretas, a funda\u00e7\u00e3o do PT e as campanhas presidenciais do marido ganharam as ruas e viraram hist\u00f3ria, mas antes atravessaram a soleira da porta e transitaram pela sala e a cozinha de Marisa. Em 1975, com um ano de casamento, Lula chegou \u00e0 presid\u00eancia do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo (SP). Tr\u00eas anos depois, come\u00e7aria o ciclo hist\u00f3rico de greves no ABC paulista.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica incorporou-se assim a sua vida como algo natural, quase uma extens\u00e3o da rotina dom\u00e9stica frequentemente adaptada para abrir novos espa\u00e7os \u00e0 mesa do almo\u00e7o, ou receber visitantes que desde os anos 70 passaram a ter na casa do l\u00edder metal\u00fargico um ponto de refer\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>L\u00e1 estiveram senadores, deputados, vereadores, personalidades de todos os matizes. Alguns se incorporaram \u00e0 fam\u00edlia definitivamente. Frei Betto, por exemplo, cansou de dormir no ch\u00e3o da sala durante as greves metal\u00fargicas dos anos 78\/80, designado especialmente pelo ent\u00e3o Bispo de Santo Andr\u00e9, Dom Cl\u00e1udio Hummes, hoje arcebispo de S\u00e3o Paulo, para ajudar na seguran\u00e7a de Lula.<\/p>\n<p>Tornar-se a primeira-dama, a partir de 1 de janeiro, portanto, \u00e9 uma hip\u00f3tese que n\u00e3o chega a sobressaltar essa neta de italianos, m\u00e3e de quatro filhos, av\u00f3 de dois netos, que come\u00e7ou a ganhar a vida muito cedo.<\/p>\n<p>Aos nove anos Marisa j\u00e1 trabalhava como pajem; aos 13, ainda sem carteira regular de trabalho, empregou-se na f\u00e1brica de chocolates Dulcora, em S\u00e3o Bernardo, onde ficou at\u00e9 os 21 anos.<\/p>\n<p>Casada, tornou-se funcion\u00e1ria da rede municipal de ensino, que deixou para cuidar dos filhos.<\/p>\n<p>Nem sempre, por\u00e9m, o tr\u00e2nsito do pa\u00eds para dentro da casa foi tranquilo. Na greve de abril de 1980, Marisa e Lula acordaram sobressaltados pelos gritos dos agentes do Dops\u00a0\u2013 Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social.<\/p>\n<p>Eram cinco e meia da manh\u00e3, ainda estava escuro. A resid\u00eancia cercada por homens de metralhadoras em punho foi despertada por berros no port\u00e3o: Cad\u00ea o Lula? Viemos buscar o Lula, viemos buscar o Lula.<\/p>\n<p>\u201cFoi terr\u00edvel, mas mantivemos a tranq\u00fcilidade. Lembro-me que ele ainda disse \u2013 calma, vou tomar um caf\u00e9 antes de sair, enquanto eu arrumava a mala.\u201d Lula ficou preso 31 dias, saiu duas vezes nesse intervalo. Uma para visitar a m\u00e3e agonizante; outra, para o funeral de dona Lindu.<\/p>\n<p>Diante da crescente exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica do marido, Marisa preferiu a discri\u00e7\u00e3o aos holofotes. Mas por tr\u00e1s deles ajudou a organizar passeatas de m\u00e3es e filhos de metal\u00fargicos, em 1980, quando os l\u00edderes estavam presos e o sindicato sob interven\u00e7\u00e3o. Foi ela tamb\u00e9m que de forma pioneira inaugurou o h\u00e1bito da participa\u00e7\u00e3o feminina na vida sindical do ABC. Foi Marisa, ainda, quem cortou e costurou a primeira bandeira do PT \u2013 feita em sua casa, claro \u2013, quando da funda\u00e7\u00e3o do partido, em fevereiro de 1980.<\/p>\n<p>Hoje, ela tenta preservar um pouco mais a fronteira familiar, pelo menos nos raros fins de semana em que o marido est\u00e1 no apartamento onde residem, em S\u00e3o Bernardo. \u201cPro\u00edbo conversa pol\u00edtica e filtro as liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas. Not\u00edcia ruim, \u00e0 noite, fica para o dia seguinte\u201d, sentencia com a voz firme mas serena. Mais que simplicidade, seu jeito reflete a maturidade de quem aprendeu na pr\u00e1tica que tudo tem um tempo e nada vinga sem esfor\u00e7o. \u201cAs coisas foram acontecendo aos poucos na nossa vida, ao longo de anos de luta. A proje\u00e7\u00e3o do Lula foi a evolu\u00e7\u00e3o natural de uma pessoa de muita persist\u00eancia. Quando quer algo, ele consegue\u201d, diz com conhecimento de causa.<\/p>\n<p>Em 1973, vi\u00fava, m\u00e3e de um filho do primeiro casamento, ela conheceu de perto a tenacidade do galante diretor do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo.<\/p>\n<p>Foi um namoro r\u00e1pido. Um cerco telef\u00f4nico e uma manobra ousada de ocupa\u00e7\u00e3o do terreno do rival definiram as n\u00fapcias, sete meses depois do primeiro encontro.<\/p>\n<p>\u201cLula chegou em casa um dia e avisou meu namorado que precisava tratar um assunto muito s\u00e9rio comigo. Mandou o sujeito embora \u2013 pode?\u201d, balan\u00e7a a cabe\u00e7a ainda perplexa com a lembran\u00e7a. Perseveran\u00e7a equivalente ela identifica na sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica. \u201cEm 1980, quando fui a Bras\u00edlia pela primeira vez, disse a Lula: eles n\u00e3o v\u00e3o abandonar o poder nunca. Hoje tenho certeza de que ele vai chegar l\u00e1. E espero que fa\u00e7a algo pela juventude \u2013 tenho certeza que o far\u00e1. A viol\u00eancia me assusta. Quando leio os jornais j\u00e1 nem presto aten\u00e7\u00e3o nos nomes, fixo apenas a idade das v\u00edtimas. \u00c9 terr\u00edvel o que est\u00e1 acontecendo com os jovens no Brasil\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Aqui os principais trechos da sua entrevista<\/p>\n<p><b>Qual a origem da sua fam\u00edlia? <\/b><\/p>\n<p>Meus pais s\u00e3o descendentes de italianos. O sobrenome do meu pai \u00e9 Casa; o da minha m\u00e3e, Rocco. Meus av\u00f3s, tanto do lado paterno, como os do lado materno, conheceram-se no navio vindo da It\u00e1lia. Conheceram-se no mar, casaram-se em S\u00e3o Bernardo e tiveram v\u00e1rios filhos. Foram posseiros e para n\u00e3o dividir as terras faziam casamentos entre eles, algo que naquele tempo era normal. Tenho v\u00e1rias primas-irm\u00e3s: os irm\u00e3os de meu pai casavam-se com as irm\u00e3s de minha m\u00e3e e vice-versa.<\/p>\n<p><b>Em que bairro eles moravam? <\/b><\/p>\n<p>Atualmente chama-se bairro dos Casa, em S\u00e3o Bernardo do Campo, antigo s\u00edtio dos Casa, onde meu av\u00f4 fez a capela de Santo Ant\u00f4nio, que est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje. A maioria dos irm\u00e3os do meu pai chama-se Ant\u00f4nio; os de minha m\u00e3e tamb\u00e9m; o meu av\u00f4, idem.<\/p>\n<p><b>Eles plantavam o qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>De tudo um pouco. Batata doce, batatinha, milho. Tinha gado, tinha galinha, pato. Sa\u00ed do s\u00edtio com cinco anos de idade.<\/p>\n<p><b>Voc\u00eas s\u00e3o em quantos irm\u00e3os?<\/b><\/p>\n<p>Minha m\u00e3e teve quinze filhos. Tr\u00eas morreram ao nascer. Vivos, hoje, somos em nove. Mam\u00e3e trabalhava na lavoura, os maiores ajudavam e os menores ficavam num chiqueirinho cavado na terra. Minha m\u00e3e deixava a gente ali dentro, para n\u00e3o fugir. Eu tinha uns dois ou tr\u00eas anos. Sou a pen\u00faltima dos irm\u00e3os. Tenho irm\u00e3 que poderia ser minha m\u00e3e, pela diferen\u00e7a de idade.<\/p>\n<p><b>Qual \u00e9 o nome dos seus pais?<\/b><\/p>\n<p>Regina Rocco Casa e Antonio Jo\u00e3o Casa.<\/p>\n<p><b>Foi uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, em casa tinha fartura. Como minha m\u00e3e plantava e colhia e tamb\u00e9m tinha cria\u00e7\u00e3o, nunca ningu\u00e9m passou fome. Ela fazia aquela galinhada, galinha com polenta para o jantar ou a minnestra, um caldo de feij\u00e3o com muito legume, arroz, carne&#8230;<\/p>\n<p><b>Voc\u00eas frequentavam a cidade?<\/b><\/p>\n<p>A gente s\u00f3 sa\u00eda para ir a capela. A cidade era longe. S\u00f3 por volta de 1955, quando minhas irm\u00e3s mais velhas come\u00e7aram a trabalhar nas tecelagens a gente saiu do s\u00edtio, a\u00ed em definitivo. Meus irm\u00e3os tamb\u00e9m estavam buscando emprego nas f\u00e1bricas de m\u00f3veis. Mudamos para o bairro Assun\u00e7\u00e3o. Meu pai comprou uma casa muito grande, com quintal onde ele continuou criando seu porquinho, galinha, horta. Ficou sempre nessa vida. Mas ainda n\u00e3o t\u00ednhamos luz, a \u00e1gua era de po\u00e7o. Minha m\u00e3e cozinhava no fog\u00e3o \u00e0 lenha. Foi nessa \u00e9poca que comecei a estudar, numa escolinha de madeira. S\u00f3 na terceira s\u00e9rie \u00e9 que fui para um col\u00e9gio no centro, o Grupo Escolar Maria Iracema Munhoz.<\/p>\n<p><b>Qual era teu sonho de vida?<\/b><\/p>\n<p>Eu queria dar aula, gostava muito de crian\u00e7a. Meu pai achava que mulher tinha que aprender a lavar, cozinhar e costurar. Educa\u00e7\u00e3o r\u00edgida, \u00e0 antiga. Aos nove anos as meninas come\u00e7avam a ajudar dentro de casa. Eu n\u00e3o gostava muito dessas coisas, mas fiz cursinhos de corte e costura, culin\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea come\u00e7ou a trabalhar com que idade?<\/b><\/p>\n<p>Aos nove anos. Fui ser pajem dos filhos do sobrinho do C\u00e2ndido Portinari, um dentista muito famoso em S\u00e3o Bernardo, o Jaime Portinari. Ele tinha tr\u00eas filhas. Eu tomava conta dessas meninas porque a m\u00e3e dava aula. Ela trabalhava \u00e0 tarde e eu estudava de manh\u00e3, as duas no mesmo col\u00e9gio. Depois nasceu mais uma menina e eu com nove anos tomava conta de uma rec\u00e9m-nascida. Morava nesse emprego, dormia l\u00e1.<\/p>\n<p><b>Ficou muito tempo?<\/b><\/p>\n<p>Sa\u00ed mocinha para trabalhar em f\u00e1brica, na F\u00e1brica de Chocolates Dulcora. Tinha 13 anos. Foi necess\u00e1rio tirar uma carteira especial de menor, com autoriza\u00e7\u00e3o do pai. Tenho essa carteira at\u00e9 hoje. Depois, com 14 anos, voc\u00ea j\u00e1 tirava a carteira normalmente. Eu comecei como embaladora de bombom alpino.<\/p>\n<p><b>Como era para voc\u00ea trabalhar assim t\u00e3o crian\u00e7a? <\/b><\/p>\n<p>Sempre gostei de ser \u00fatil, adorava isso. Era um sonho trabalhar fora, ter o pr\u00f3prio dinheirinho. Fazia com prazer, mas hoje tenho consci\u00eancia de que lugar de crian\u00e7a \u00e9 mesmo na escola, com tempo para brincar e aprender. Trabalhei na Dulcora oito anos. Sa\u00ed para casar.<\/p>\n<p><b>Seus pais eram bravos?<\/b><\/p>\n<p>Meu pai era muito en\u00e9rgico, minha m\u00e3e contornava as coisas. Mas namorar n\u00e3o podia, imagine! Minha m\u00e3e inventava historinhas para a gente poder sair, mas era dif\u00edcil. Das irm\u00e3s eu era a mais rebelde. Gostava de participar de tudo, reuni\u00f5es, centro c\u00edvico, festinhas de igreja, meu pai n\u00e3o deixava&#8230;<\/p>\n<p><b>E para namorar?<\/b><\/p>\n<p>Namorar naquela \u00e9poca era bate-papo, dava a m\u00e3o, ele levava voc\u00ea at\u00e9 a esquina de casa e ponto.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea tem alguma lembran\u00e7a pol\u00edtica dessa \u00e9poca? <\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, nenhuma. A gente n\u00e3o tinha televis\u00e3o e meu pai proibia falar de pol\u00edtica dentro de casa. Ele n\u00e3o gostava. Nunca comentou o porqu\u00ea. A gente sabia \u00e9 que os av\u00f3s tinham passado momentos dif\u00edceis na It\u00e1lia, vieram fugidos por causa de pol\u00edtica e proibiam de falar no assunto. Meu pai seguiu a regra. Televis\u00e3o em casa s\u00f3 entrou quando eu j\u00e1 era bem mocinha. Mas n\u00f3s ainda rez\u00e1vamos toda tarde, \u00e0s seis horas. Paquera ent\u00e3o, s\u00f3 longe de casa, na Marechal Deodoro (rua central de S\u00e3o Bernardo), logo ap\u00f3s o cinema, \u00e0 tarde. Comprava-se pipoca e depois era sobe e desce a Deodoro&#8230;<\/p>\n<p><b>Com que idade voc\u00ea teve o seu primeiro casamento?<\/b><\/p>\n<p>Casei com o primeiro namorado, o Marcos, aos 19 anos. Casei e continuei trabalhando. S\u00f3 sa\u00ed da Dulcora quando engravidei. Marcos era motorista de caminh\u00e3o, transportava areia. Como a gente queria comprar casa pr\u00f3pria, ele pegava o t\u00e1xi do pai, que s\u00f3 trabalhava \u00e0 noite, para fazer bicos \u00e0 tarde e nos fim de semana. Ficamos casados apenas seis meses. Marcos foi assassinado quando eu estava gr\u00e1vida de quatro meses. Trabalhava com o t\u00e1xi num domingo \u00e0 tarde quando foi assaltado e morto. Meus sogros queriam demais essa crian\u00e7a, a\u00ed praticamente me adotaram. Fiquei morando com eles at\u00e9 o Marcos completar um aninho. Ent\u00e3o fui trabalhar num col\u00e9gio de Estado, como inspetora e substituta, mas contratada pela prefeitura. A\u00ed voltei para a casa de minha m\u00e3e, porque ela tinha mais tempo para tomar conta do nen\u00ea, enquanto eu estivesse no servi\u00e7o.<\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea conheceu o Lula?<\/b><\/p>\n<p>Eu recebia uma pens\u00e3o de vi\u00fava. Naquela \u00e9poca voc\u00ea tinha que passar em qualquer sindicato para recolher um carimbo e depois receber no INPS. Costumava ir ao sindicato dos marceneiros. Mas houve umas mudan\u00e7as de local e a sede dos metal\u00fargicos passou a ficar mais perto para mim. Foi assim que conheci o Lula, que trabalhava no Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Social do sindicato.<\/p>\n<p><b>O Lula j\u00e1 conhecia seu sogro? <\/b><\/p>\n<p>\u00c9 o que ele conta. Diz que eles se conheciam porque tomava o t\u00e1xi do seu C\u00e2ndido \u00e0s vezes. Os dois conversavam sobre a nora vi\u00fava, etc., mas ele n\u00e3o me conhecia, nem houve nenhum arranjo para esse encontro entre n\u00f3s. Foi pura coincid\u00eancia a ida ao sindicato.<\/p>\n<p><b>Ele atendeu voc\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, foi um menino, um mocinho chamado Luisinho. Expliquei que precisava do carimbo para receber a pens\u00e3o. Diz o Lula que j\u00e1 havia avisado a esse rapaz: assim que chegasse uma viuvinha nova, era para cham\u00e1-lo porque ele tamb\u00e9m era vi\u00favo (a primeira esposa de Lula, Maria de Lurdes, oper\u00e1ria tecel\u00e3, faleceu gr\u00e1vida e o filho tamb\u00e9m morreu).<\/p>\n<p><b>O tal Luisinho chamou mesmo o Lula?<\/b><\/p>\n<p>Exato. Inventou que o carimbo estava com um probleminha, foi l\u00e1 dentro e quem voltou foi o Lula. Chegou e j\u00e1 senti que havia algo diferente. Percebi logo, porque nunca precisou tanta cerim\u00f4nia para receber uma pens\u00e3o que eu j\u00e1 tinha h\u00e1 tr\u00eas anos. O Lula disse que havia mudado a lei, eu teria que deixar o carn\u00ea para renovar etc&#8230; E pediu meu telefone. Ca\u00ed que nem uma bobinha. Trabalhava na secretaria de uma escola na \u00e9poca. Desse dia em diante o telefone n\u00e3o parou mais de tocar.<\/p>\n<p><b>E voc\u00ea n\u00e3o atendia?<\/b><\/p>\n<p>Um dia atendi. Ele disse que j\u00e1 podia passar para assinar a papelada. Cheguei, come\u00e7ou tudo de novo. Senta um pouquinho; vou te explicar; aquele papo&#8230; Vamos tomar um cafezinho? Foi nessa hora que deixou cair a carteirinha do sindicato e falou: t\u00e1 vendo, eu tamb\u00e9m sou vi\u00favo. Respondi: ah \u00e9?<\/p>\n<p><b>Nenhuma simpatia nesse primeiro contato?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, naquele tempo, o que uma mulher mais queria na vida era casar e ter um filho. Eu j\u00e1 tinha passado por essa experi\u00eancia. Mas ele n\u00e3o desisitiu. Telefonava, insistia, por fim, marcamos um almo\u00e7o no S\u00e3o Judas, no bairro Demarchi (tradicional restaurante do ABC).<br \/>\n<b><br \/>\nO Lula sabia que voc\u00ea era nora do tal chofer de t\u00e1xi?<\/b><\/p>\n<p>Ele diz que ficou desconfiado, porque as hist\u00f3rias batiam. Mas foi tudo coincid\u00eancia. Jamais foi montado um encontro.<br \/>\n<b><br \/>\nE o namoro como come\u00e7ou?<\/b><\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tinha um namorado, vizinho da fam\u00edlia que eu conhecia desde crian\u00e7a. Uma coisa assim descompromissada. Mas o Lula n\u00e3o queria saber. Um dia descobriu a minha rua. Chegou com um TL azul turquesa. Viu uma senhora, pediu informa\u00e7\u00f5es. Era justamente minha m\u00e3e. Eu estava tomando banho para encontrar o namorado. Quando saio, quem est\u00e1 l\u00e1 com a minha m\u00e3e? O Lula. Pedi que fosse embora porque tinha um compromisso, mas ele s\u00f3 deu uma voltinha com o TL e retornou. Chegou e foi logo dizendo para o meu namorado dar licen\u00e7a, que tinha assunto muito s\u00e9rio a tratar comigo. Mandou o cara embora. Pode? A\u00ed j\u00e1 havia conquistado a simpatia de minha m\u00e3e porque era um sujeito mais alegre, mais dado que o outro. Ela ofereceu um aperitivo, o Lula entrou e, bom, tive que acabar o namoro porque ele j\u00e1 n\u00e3o sa\u00eda mais de casa&#8230;<\/p>\n<p><b>Casaram-se r\u00e1pido?<\/b><\/p>\n<p>Depois de sete meses. Mas n\u00e3o casei gr\u00e1vida n\u00e3o (risos). O F\u00e1bio, meu primeiro filho com o Lula, nasceu com nove meses e nove dias depois do casamento. Depois, com um ano de casado, em 1975, ele ganhou a elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia do Sindicato dos Metal\u00fargicos.<\/p>\n<p><b>Como foi essa coisa de ele virar uma figura p\u00fablica?<\/b><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estranhei muito porque, como disse, comecei a acompanh\u00e1-lo. Levava as esposas dos trabalhadores, organizava festas, projetos sociais. Passamos a reivindicar a presen\u00e7a de mulheres nas chapas. Ent\u00e3o foi uma evolu\u00e7\u00e3o junto.<br \/>\n<b><br \/>\nE quando come\u00e7am as greves, veio o medo?<\/b><\/p>\n<p>Medo a gente sempre tem um pouquinho. Mas o dia a dia vai mostrando tanta for\u00e7a que muitas vezes voc\u00ea se pergunta: ser\u00e1 que eu fiz isso mesmo? Por exemplo, n\u00f3s fizemos aquela passeata das mulheres em 1980, quando os dirigentes sindicais estavam todos presos. Hoje, voc\u00ea pensa, parece uma loucura. Encheu de pol\u00edcia. Os homens queriam dar apoio, mas n\u00f3s dissemos, n\u00e3o, e sa\u00edmos. Fizemos s\u00f3 com as mulheres. Botei as crian\u00e7as na rua, meus filhos no meio daquela multid\u00e3o, pol\u00edcia para tudo quanto \u00e9 lado.<br \/>\n<b><br \/>\nComo era para eles ver o pai na televis\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Tive que fazer um trabalho com isso mas acho que ficaram com uma cabe\u00e7a boa. As coisas foram acontecendo aos poucos, fomos nos adaptando. Quando ele aparecia na TV eu brincava com os meninos: querem ver seu pai, olha ele a\u00ed, porque eles j\u00e1 quase n\u00e3o viam mais o pai.<br \/>\n<b><br \/>\nVoc\u00ea virou m\u00e3e e pai?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9, mas foi tranquilo. Tinha reuni\u00e3o de pais na escola, l\u00e1 ia eu. Tinha joguinho dos pais, l\u00e1 ia a m\u00e3e. N\u00e3o tinha problema, eu sabia que era importante.<\/p>\n<p><b>A sua casa tamb\u00e9m virou uma sucursal do sindicato?<\/b><\/p>\n<p>Virou mesmo. Em 1980, tomaram o sindicato da gente com a interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o t\u00ednhamos para onde ir. Desocupei a sala da frente e disse: pronto, aqui \u00e9 o sindicato. E a secret\u00e1ria era eu. Vinham pol\u00edticos, almo\u00e7avam, alguns dormiam l\u00e1 em casa. Depois, montamos um fundo de greve na Igreja, para arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos. A\u00ed desconcentrou um pouco. Quem ajudou muito nessa \u00e9poca foi Dom Cl\u00e1udio Hummes, que era bispo de Santo Andr\u00e9 e hoje \u00e9 arcebispo de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><b>Voc\u00eas acabaram conhecendo muita gente nesse processo. O Fernando Henrique Cardoso tamb\u00e9m?<\/b><\/p>\n<p>Sim, sim, em 1978 quando ele foi candidato ao Senado, o Lula apoiou, demos o maior apoio a ele. Foi nessa \u00e9poca tamb\u00e9m que conhecemos os deputados do PMDB, Suplicy, Geraldinho Siqueira, S\u00e9rgio dos Santos&#8230; Mas a gente ficava com um pezinho atr\u00e1s, porque n\u00f3s \u00e9ramos sindicalistas e eles, pol\u00edticos.<\/p>\n<p><b>E a pris\u00e3o do Lula, em 1980?<\/b><\/p>\n<p>Nossa casa estava cercada h\u00e1 muito tempo. Policiais na esquina, gente rondando \u00e0 noite. Eu tinha um pouco de medo pelas crian\u00e7as. Mas tinha consci\u00eancia de que est\u00e1vamos mudando alguma coisa importante. Depois, o irm\u00e3o do Lula, o Frei Chico, j\u00e1 havia sido preso. Preso pol\u00edtico. Fomos visit\u00e1-lo, conversamos muito. Aquilo tudo foi deixando um sentimento de revolta em mim. Eu sabia que era preciso mudar. E para mudar algu\u00e9m tinha que enfrentar aquela situa\u00e7\u00e3o porque se ficasse pensando como meu pai, que n\u00e3o queria nada com pol\u00edtica, as coisas n\u00e3o sairiam do lugar nunca.<\/p>\n<p><b>Quando o Lula decolou como lideran\u00e7a, o que voc\u00ea sentiu?<\/b><\/p>\n<p>Achei que era isso mesmo, um momento importante, algo que algu\u00e9m precisava assumir. Tinha orgulho. Mas tamb\u00e9m sentia falta dele, claro, sentia falta de ter algu\u00e9m com quem conversar, discutir&#8230;<\/p>\n<p><b>E a pris\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a casa estava cercada h\u00e1 v\u00e1rias semanas. Frei Betto, Geraldinho Siqueira, o Jac\u00f3 Bittar, o Ol\u00edvio Dutra e v\u00e1rios outros dormiam l\u00e1 para nos dar alguma cobertura.<br \/>\n<b><br \/>\nComo \u00e9 que voc\u00eas conheceram o Frei Betto?<\/b><\/p>\n<p>Olha, foi at\u00e9 gozado. Um dia o Lula avisou: vem um frei almo\u00e7ar aqui. Para mim, tudo bem, almo\u00e7ava tanta gente l\u00e1 que n\u00e3o fazia diferen\u00e7a. Come o que tem. O Lula precisou sair e l\u00e1 pelas tantas me aparece na porta um jovem. Eu estava esperando um frei, com aquela bata, chinelo, um velhinho, enfim, com roupa toda marrom. Ent\u00e3o me aparece um rapazinho e diz: Sou o frei Betto, trouxe uma pasta para o almo\u00e7o. Respondi brincando: Voc\u00ea pensa que nesta casa n\u00e3o tem comida? Somos grandes amigos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><b>E quando a pol\u00edcia chegou?<\/b><\/p>\n<p>Bom, primeiro,ligaram dizendo que o motorista do deputado Geraldinho Siqueira havia sumido. Saiu para buscar jornais e sumiu. Fomos dormir. Cedinho bateram no port\u00e3o. Era umas cinco e meia. Tudo escuro. Frei Betto atendeu: Cad\u00ea o Lula, n\u00f3s vamos levar o Lula, n\u00f3s vamos levar o Lula&#8230;. Um bando de homens armados de metralhadora com uma Veraneio que fechou a sa\u00edda da garagem, onde ficava o nosso Fiat. Meu quarto dava para a rua. Acordei assustada, chamei: Lula, Lula, est\u00e3o a\u00ed atr\u00e1s de voc\u00ea.<\/p>\n<p><b>E ele, apavorou?<\/b><\/p>\n<p>Nada. Falou exatamente assim: Calma, calma, vou tomar meu caf\u00e9, trocar de roupa, manda esperar. Eu queria que o Frei Betto e o Geraldinho acompanhassem a viatura, mas eles j\u00e1 tinham prendido o motorista do deputado justamente por isso. E barraram a sa\u00edda do nosso Fiat. Foi uma cena horrorosa, metralhadoras para tudo quanto \u00e9 lado, mas as crian\u00e7as n\u00e3o acordaram, gra\u00e7as a Deus. Pegaram o Lula, enfiaram dentro do carro e sumiram. N\u00e3o falaram nada, na-da. A gente n\u00e3o sabia para onde o levariam. At\u00e9 o Fiatizinho esquentar, j\u00e1 tinham desaparecido. Ent\u00e3o come\u00e7amos a ligar para Deus e o mundo, e descobrimos que estava no Dops. Ele e v\u00e1rios outros. Foram pegando todo mundo da diretoria do sindicato.<\/p>\n<p><b>Lula tomou o tal caf\u00e9?<\/b><\/p>\n<p>Tomou, trocou de roupa&#8230;<\/p>\n<p><b>E as crian\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o falei sobre a pris\u00e3o num primeiro momento. Dei um tempo em banho-maria, depois expliquei devagarzinho, direitinho para n\u00e3o assustar. Mas eu tive problemas com o mais velho na escola. O Marcos se recusava a ir \u00e0 aula. Quando fui saber, eram colegas que acusavam: Seu pai \u00e9 bandido. Est\u00e1 preso, \u00e9 bandido. O Marcos sentava l\u00e1 na frente, eles jogavam avi\u00e3ozinho dizendo essas coisas. Acabei permitindo que ele se afastasse por um tempo, o que o levou perder o ano letivo. No semestre seguinte fui \u00e0 escola e falei com a diretora. Expliquei o que havia acontecido e disse que elas deveriam esclarecer as crian\u00e7as. Esse tipo de preconceito n\u00e3o podia continuar. S\u00f3 ent\u00e3o o Marcos voltou aos estudos.<br \/>\n<b><br \/>\nO Marcos era filho do seu primeiro casamento?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9. Eu o ensinei a chamar o Lula de tio, mas ele preferia pai mesmo. Aos nove anos, disse ao Lula que queria ter o mesmo sobrenome dele. E o Lula assumiu isso legalmente com alegria, com a maior satisfa\u00e7\u00e3o. Hoje ele \u00e9 Marcos Cl\u00e1udio Lula da Silva.<\/p>\n<p><b>Nesse per\u00edodo da pris\u00e3o morreu a m\u00e3e do Lula?<\/b><\/p>\n<p>Ela j\u00e1 estava muito mal, com c\u00e2ncer, queria ver o filho. N\u00f3s conseguimos que o Lula sa\u00edsse uma vez da pris\u00e3o, antes da morte, coisa que pouca gente sabe. Convencemos o Romeu Tuma (diretor do Dops na \u00e1poca) a permitir essa visita. Depois, ele voltou para o vel\u00f3rio. Sa\u00ed do Dops com o Lula. Mas quando chegamos ao enterro os trabalhadores cercaram o carro da pol\u00edcia. Estavam revoltados. Lula pedia calma. Mas os oper\u00e1rios haviam parado as f\u00e1bricas, eram \u00f4nibus e \u00f4nibus que chegavam, uma situa\u00e7\u00e3o tensa, de nervos \u00e0 flor da pele, que exigiu muita habilidade e lideran\u00e7a do Lula.<br \/>\n<b><br \/>\nAs crian\u00e7as foram visitar o pai no Dops?<\/b><\/p>\n<p>Foram. Preparei os meninos. Expliquei como era para eles n\u00e3o terem medo. Disse que tinha pol\u00edcia, mas que o papai estava bem, contei sobre o lugar, enfim, tentei evitar surpresas que assustassem uma crian\u00e7a. Quando chegamos, o Tuma disse: Olha, dona Marisa, \u00e9 melhor a senhora ir para a minha sala com as crian\u00e7as que eu vou buscar o Lula. Quando ele apareceu na porta, o F\u00e1bio pensou que a cela era ali e falou: Papai voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 preso, voc\u00ea t\u00e1 num hotel! Tinha quatro aninhos.<\/p>\n<p><b>Quando voc\u00ea ouviu falar em PT pela primeira vez?<\/b><\/p>\n<p>Nesse tempo a discuss\u00e3o j\u00e1 havia come\u00e7ado, em pequenos grupos, l\u00e1 em casa. No in\u00edcio, muitos pol\u00edticos diziam: Lula, para que criar outro partido, basta entrar num dos que j\u00e1 existem. Mas ele respondia: quero criar um partido diferente de todos, um partido dos trabalhadores. A primeira bandeira do PT eu \u00e9 que fiz.<br \/>\n<b><br \/>\nComo \u00e9 essa hist\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p>Eu tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte guardado h\u00e1 muito tempo. Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo. A gente n\u00e3o tinha n\u00facleo, n\u00e3o tinha nada. Minha casa era o centro. Come\u00e7amos ent\u00e3o a estampar camisetas para arrecadar fundos. Vend\u00edamos uma para comprar duas. Estampava a estrelinha, vendia, comprava mais. Foi assim que come\u00e7ou o PT.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea se lembra da primeira vez em que se falou de Lula na Presid\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>Em 1980, Lula foi julgado no Superior Tribunal Militar, em Bras\u00edlia. Foi a primeira vez que visitei a capital. Fizemos um passeio e o guia foi mostrando as mans\u00f5es, aquela ostenta\u00e7\u00e3o toda. Quando acabou eu disse: Lula, vamos parar com tudo isso: esses caras n\u00e3o v\u00e3o deixar voc\u00ea chegar ao poder nunca. Eles n\u00e3o v\u00e3o largar isso aqui jamais. Fazem qualquer coisa, mas n\u00e3o abandonam essa vida&#8230;<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea mant\u00e9m essa opini\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, hoje n\u00e3o mais. O PT cresceu muito e na verdade j\u00e1 come\u00e7ou a mudar o pa\u00eds. Tem prefeituras, tem governos de estado. A mudan\u00e7a come\u00e7ou. Mas ainda v\u00e3o resistir muito. V\u00e3o lutar muito para deixar a gente chegar ao poder. Mas hoje temos chance. O povo est\u00e1 descontente demais. Al\u00e9m do que, existe uma caracter\u00edstica do Lula que pesa muito. \u00c9 algo que vem de ber\u00e7o: o Lula quando quer uma coisa consegue. E ele vai conseguir melhorar esse pa\u00eds.Ele mudou na \u00e9poca da ditadura militar, n\u00e3o mudou?<\/p>\n<p><b>O que te d\u00e1 mais medo no Brasil hoje?<\/b><\/p>\n<p>A viol\u00eancia. Os nossos jovens s\u00e3o a principal v\u00edtima. Quando leio os jornais j\u00e1 n\u00e3o olho nem nome, nada. Me fixo na idade: uns moleques, viu? S\u00f3 moleques. \u00c9 o que me d\u00e1 mais medo, me d\u00e1 d\u00f3, d\u00e1 pena. Mas eu sei que se essa juventude tiver a chance de uma escola, uma boa educa\u00e7\u00e3o e trabalho, o pa\u00eds muda.<\/p>\n<p>Muda. Tenho certeza que muda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Fonte: Carta Maior<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 25 anos, Marisa abriu a porta de sua casa a uma visitante ilustre, para nunca mais fech\u00e1-la: a luta<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-41423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/41423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=41423"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/41423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41424,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/41423\/revisions\/41424"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=41423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=41423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=41423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}