{"id":45897,"date":"2017-06-13T08:18:29","date_gmt":"2017-06-13T11:18:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=45897"},"modified":"2017-06-13T08:18:29","modified_gmt":"2017-06-13T11:18:29","slug":"economia-o-rebaixamento-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=45897","title":{"rendered":"Economia: o rebaixamento do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"imagem-box imagem-box-3\"><img decoding=\"async\" title=\"\" src=\"http:\/\/imagem.vermelho.org.br\/biblioteca\/brasileconomia110186.jpeg\" alt=\"\u00a0\" \/><\/div>\n<h2 id=\"link_lead\" style=\"text-align: justify;\">Vargas, JK, os militares e Lula queriam uma economia poderosa. FHC e Temer se esfor\u00e7aram para apequen\u00e1-la.<\/p>\n<p>Por Carlos Drummond<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNo contexto atual de dilapida\u00e7\u00e3o acelerada da economia, custa acreditar que o Pa\u00eds chegou a ter, no in\u00edcio dos anos 1970, praticamente o mesmo perfil estrutural da ind\u00fastria dos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>A proeza fez parte do chamado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, per\u00edodo de crescimento significativo durante o regime militar instalado em 1964. O avan\u00e7o s\u00f3 foi poss\u00edvel porque contava com a base industrial e as principais institui\u00e7\u00f5es do capitalismo brasileiro criadas por Get\u00falio Vargas, entre os anos 1940 e 1950, e desenvolvidas por Juscelino Kubitschek, entre a \u00faltima d\u00e9cada mencionada e o in\u00edcio dos anos 1960.<\/p>\n<p>O a\u00e7o da Companhia Sider\u00fargica Nacional, o combust\u00edvel da Petrobras, o financiamento de longo prazo do BNDE e a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho, entre outros requisitos providos no per\u00edodo varguista, colocaram a economia no rumo da modernidade.<\/p>\n<p>Kubitschek levou adiante a tarefa, ao impulsionar a ind\u00fastria automobil\u00edstica e grandes obras p\u00fablicas multiplicadoras de investimentos e postos de trabalho.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo surgiram algumas das grandes construtoras nacionais, que seriam beneficiadas com recursos p\u00fablicos nos anos 1970, realizadoras de empreendimentos de porte no Pa\u00eds e no resto do mundo.<\/p>\n<p>O \u00eaxito econ\u00f4mico do regime militar n\u00e3o o isenta, \u00e9 \u00f3bvio, da responsabilidade pelo aumento da corrup\u00e7\u00e3o praticada pelas construtoras, e que prosseguiu nos governos civis. Assim como o sucesso na promo\u00e7\u00e3o do crescimento n\u00e3o o exime da destina\u00e7\u00e3o de dinheiro p\u00fablico a obras question\u00e1veis, como a rodovia Transamaz\u00f4nica e o \u201cMinhoc\u00e3o\u201d paulistano.<\/p>\n<p>Nada justifica tamb\u00e9m a viol\u00eancia do per\u00edodo e o mesmo crit\u00e9rio deve ser usado para discernir entre a barb\u00e1rie do Estado Novo e todos os efeitos positivos da edifica\u00e7\u00e3o do capitalismo nativo sob Vargas.<\/p>\n<p>Tampouco os \u00eaxitos do governo de Kubitschek apagam os efeitos negativos do hiperdimensionamento do transporte individual \u00e0 custa da atrofia do transporte de massa crucial ao Pa\u00eds, entre outros equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel, entretanto, a exist\u00eancia de uma clara continuidade entre os tr\u00eas per\u00edodos mencionados na busca de um aumento do poder econ\u00f4mico do Brasil. Seguiram o mesmo rumo, no governo Lula, o crescimento dos investimentos na prospec\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e a descoberta do pr\u00e9-sal, o impulso \u00e0 ind\u00fastria local da cadeia produtiva de \u00f3leo e g\u00e1s e a amplia\u00e7\u00e3o do mercado interno com a melhora da distribui\u00e7\u00e3o de renda, entre outros feitos.<\/p>\n<p>Na dire\u00e7\u00e3o oposta, a regress\u00e3o radical da economia une de modo indissol\u00favel a d\u00e9cada de 1990, do governo FHC, ao per\u00edodo decorrido desde a gest\u00e3o do ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, sob o governo Dilma Rousseff, at\u00e9 este pouco mais de um ano da desastrosa administra\u00e7\u00e3o Michel Temer.<\/p>\n<p>O rumo do retrocesso FHC-Temer \u00e9 claro: privatiza\u00e7\u00e3o, desnacionaliza\u00e7\u00e3o, desindustrializa\u00e7\u00e3o e reprimariza\u00e7\u00e3o sem limites, com redu\u00e7\u00e3o alarmante da autonomia e do poder do Pa\u00eds no contexto global.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do avan\u00e7o econ\u00f4mico sob o regime militar, o estudo O Milagre Econ\u00f4mico (1968-1973) e a Estrutura Industrial Brasileira, elaborado pela Facamp Faculdades de Campinas, \u00e9 esclarecedor.<\/p>\n<p>Em 1973, por exemplo, o peso do valor adicionado pela manufatura ao PIB foi de 29,8%, superior ao da Fran\u00e7a, de 22,1%, e ao dos Estados Unidos, de 21,9%. A ind\u00fastria brasileira contribuiu com 39% do PIB e a francesa, com 32,4%.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, equipamentos e produtos metal\u00fargicos no Pa\u00eds era superior a 30%, inferior \u00e0 dos Estados Unidos, de 49,5%, mas quase igual \u00e0 da Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Atingiu-se esse patamar no fim do \u201cmilagre\u201d e da pol\u00edtica econ\u00f4mica conduzida pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto \u2013 colunista e integrante do conselho editorial desta revista \u2013, de abril de 1967 a dezembro de 1973.<\/p>\n<p>O estudo destaca a \u201cmodernidade do sistema de planejamento e sua capacidade de impulsionar o desenvolvimento\u201d, e mostra o grande potencial da estrutura econ\u00f4mica dom\u00e9stica. As decis\u00f5es implementadas no fim da d\u00e9cada de 1960 n\u00e3o demoraram a ter efeito.<\/p>\n<p>A taxa de crescimento passou de 4,2% para 9,5% anuais, em 1968, impulsionada pelas medidas tomadas no ano anterior. \u201cAs delibera\u00e7\u00f5es mais importantes foram a cria\u00e7\u00e3o da letra de c\u00e2mbio e de uma holding do setor, a Finasa, que possibilitaram a estrutura\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do cr\u00e9dito ao consumidor ao longo de 1967\u201d, ressalta o trabalho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, reduziu-se o aperto dos financiamentos ao setor privado e o d\u00e9ficit p\u00fablico foi ampliado.<\/p>\n<p>O crescimento come\u00e7ou com a reativa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de bens de consumo dur\u00e1veis, em especial a automobil\u00edstica. Com a economia se expandindo entre 9% e 10% ano ap\u00f3s ano, as receitas de tributos e das estatais aumentaram e permitiram a eleva\u00e7\u00e3o do gasto p\u00fablico da Uni\u00e3o, dos estados e dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>A retomada da economia dinamizou tamb\u00e9m as estatais, principalmente nas \u00e1reas de siderurgia e eletricidade. O investimento cresceu 20% ao ano, entre 1968 e 1973, nas empresas p\u00fablicas e ampliou-se tamb\u00e9m na \u00e1rea de infraestrutura social \u2013 constru\u00e7\u00e3o de hospitais, postos de sa\u00fade, escolas \u2013, movimentando a constru\u00e7\u00e3o civil e outros setores.<\/p>\n<p>O setor expandiu-se \u00e0 taxa de 15% ao ano. O investimento privado, sabe-se, colhe as oportunidades proporcionadas pelo crescimento e essa caracter\u00edstica se comprovou no per\u00edodo, mostra a pesquisa: \u201cAs empresas multinacionais ampliaram seus parques produtivos com a entrada de investimento direto por meio da Lei n\u00ba 4.131.<\/p>\n<p>As nacionais n\u00e3o encontraram obst\u00e1culos \u00e0 sua expans\u00e3o, na medida em que o BNDE estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e os bancos nacionais reemprestavam os recursos captados no euromercado atrav\u00e9s da Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 63.<\/p>\n<p>Para a maior parte das companhias nacionais, entretanto, a continuidade do aumento do cr\u00e9dito corrente e a reten\u00e7\u00e3o de lucros permitiam arcar com boa parte dos investimentos\u201d.<\/p>\n<p>As empresas nacionais de bens de consumo corrente foram beneficiadas pelos efeitos da expans\u00e3o da economia sobre o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>A forte amplia\u00e7\u00e3o do emprego, da ordem de 4,3%, foi ainda mais intensa no setor industrial, que cresceu 8,4% ao ano, entre 1970 e 1974. A pol\u00edtica econ\u00f4mica contemplou tamb\u00e9m a expans\u00e3o do setor agr\u00edcola, com garantia de pre\u00e7os m\u00ednimos mais elevados e cr\u00e9dito rural abundante e subsidiado, fornecido principalmente pelo Banco do Brasil.<\/p>\n<p>O objetivo era a moderniza\u00e7\u00e3o produtiva da agricultura, que garantiu o aumento da oferta interna e o crescimento das vendas externas. A participa\u00e7\u00e3o da soja na pauta de exporta\u00e7\u00e3o passou de menos de 2%, entre 1967 e 1968, para 14,8% em 1973.<\/p>\n<p>O setor de servi\u00e7os avan\u00e7ou com a ind\u00fastria, provendo atividades especializadas de log\u00edstica e de engenharia, entre outros. A urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada foi outro vetor: os servi\u00e7os e os pequenos neg\u00f3cios se multiplicavam nas cidades em expans\u00e3o, no com\u00e9rcio, na seguran\u00e7a, no lazer e na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em resumo, havia um circuito de crescimento acelerado. Em seis anos, a economia tornou-se 88,5% maior. O estudo buscou responder \u00e0 seguinte quest\u00e3o: como foi poss\u00edvel atingir taxas elevadas sem estrangulamento financeiro externo?<\/p>\n<p>O primeiro aspecto a considerar \u00e9 que a economia mundial ainda crescia vigorosamente, o cr\u00e9dito externo era abundante no euromercado e as rela\u00e7\u00f5es de troca \u2013 entre os pre\u00e7os de exporta\u00e7\u00e3o e de importa\u00e7\u00e3o \u2013 melhoraram sensivelmente, em cerca de 15% no per\u00edodo. \u201cFoi o \u00faltimo suspiro dos 30 Anos Gloriosos\u201d, de desenvolvimento mundial cont\u00ednuo e relativamente equilibrado.<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es resultou, entretanto, da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo. Os itens mais importantes foram os subs\u00eddios, por meio do regime aduaneiro drawback (suspens\u00e3o ou elimina\u00e7\u00e3o de tributos incidentes sobre insumos importados para utiliza\u00e7\u00e3o em produto exportado), cr\u00e9dito-pr\u00eamio para o IPI e o ICM e as linhas de financiamento subsidiadas como o Befiex e o Finex, entre outros instrumentos.<\/p>\n<p>Durante o \u201cmilagre\u201d, as exporta\u00e7\u00f5es cresceram 46% em d\u00f3lar, com diversifica\u00e7\u00e3o da pauta e de parceiros comerciais e participa\u00e7\u00e3o crescente dos manufaturados, que chegou a 31,3% do total em 1973. O financiamento do d\u00e9ficit de transa\u00e7\u00f5es correntes foi realizado sem grandes dificuldades. A d\u00edvida externa aumentou 8,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e as reservas internacionais cresceram 6,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O estudo responde tamb\u00e9m a essa outra indaga\u00e7\u00e3o: por que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o subiu numa economia oligopolizada que crescia com velocidade? O Conselho Interministerial de Pre\u00e7os, institu\u00eddo em 1968, definia os reajustes de pre\u00e7os dos setores mais concentrados.<\/p>\n<p>\u201cTolerou-se, entretanto, uma infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 19% ao ano, ainda que a de 1973 tenha sido falsificada. Cabe lembrar que o mecanismo de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria permitia uma conviv\u00eancia pac\u00edfica com a infla\u00e7\u00e3o e era inevit\u00e1vel numa economia sem moeda convers\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>O Pa\u00eds crescia com rapidez, puxado no in\u00edcio pela ocupa\u00e7\u00e3o da capacidade ociosa da ind\u00fastria de bens dur\u00e1veis e, depois, pelos investimentos p\u00fablicos. O balan\u00e7o de pagamentos e a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Em 1973, o peso da estrutura industrial brasileira no PIB era consider\u00e1vel numa economia que se tornava uma das maiores do mundo. A renda ainda permanecia muito abaixo daquela dos pa\u00edses desenvolvidos, tanto a absoluta quanto a per capita.<\/p>\n<p>Tratava-se, entretanto, de uma estrutura diversificada, integrada e que contava com os setores t\u00edpicos do capitalismo desenvolvido.<\/p>\n<p>\u201cA grande falha estrutural dizia respeito ao desenvolvimento prec\u00e1rio do setor do petr\u00f3leo \u2013 ainda n\u00e3o havia o pr\u00e9-sal \u2013 e \u00e0 aus\u00eancia da ind\u00fastria petroqu\u00edmica, montada mais adiante, de 1974 a 1980.\u201d<\/p>\n<p>Outro aspecto da estrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Pa\u00eds, segundo o trabalho, foi a pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o do sistema financeiro privado, \u201ccom grandes repercuss\u00f5es at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<p>A quantidade de bancos comerciais privados nacionais passou de 188, em 1968, para 72, em 1974. Com a cria\u00e7\u00e3o dos bancos m\u00faltiplos, os maiores bancos comerciais passaram a abarcar quase 70% das emiss\u00f5es totais de letras de cr\u00e9dito ao consumidor e 85% dos bancos de investimento se associaram aos comerciais.<\/p>\n<p>O estudo chama aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da estrutura de planejamento fundada em um sistema p\u00fablico de financiamento, no gasto p\u00fablico e nas empresas estatais.<\/p>\n<p>Proviam o financiamento p\u00fablico o Banco do Brasil, a Caixa Econ\u00f4mica Federal, o BNDE, o BNH, bancos estaduais e institui\u00e7\u00f5es financeiras regionais, como o Banco do Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vargas, JK, os militares e Lula queriam uma economia poderosa. FHC e Temer se esfor\u00e7aram para apequen\u00e1-la. 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