{"id":471,"date":"2013-09-05T08:21:36","date_gmt":"2013-09-05T11:21:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=471"},"modified":"2013-09-05T08:21:36","modified_gmt":"2013-09-05T11:21:36","slug":"siria-ja-nao-temos-medo-da-morte-mas-de-como-vao-nos-matar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=471","title":{"rendered":"S\u00edria: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o temos medo da morte, mas de como v\u00e3o nos matar\u201d"},"content":{"rendered":"<h2>&#8220;N\u00f3s vivemos em constante medo e tememos que a situa\u00e7\u00e3o em Latakia piore. Na minha cidade h\u00e1 muitas pessoas vindas de outras cidades e regi\u00f5es da S\u00edria que fugiram da guerra. Mas para onde fugiremos n\u00f3s, habitantes de Latakia, se a guerra chegar aqui?\u201d, indaga jovem Chirin.<\/h2>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos dois anos e meio a m\u00eddia internacional transmite continuamente not\u00edcias sobre a S\u00edria: quais territ\u00f3rios foram ocupados pelas tropas governamentais e quais est\u00e3o sob o dom\u00ednio das for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o, quantas pessoas foram mortas ou feridas etc. Relatos que refletem o sofrimento di\u00e1rio dos s\u00edrios comuns e como suas vidas mudaram drasticamente ainda impressionam.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 o de Chirin (que n\u00e3o quis revelar o sobrenome), jovem de cerca de 25 anos que vive em Latakia. Psic\u00f3loga escolar que cursa mestrado na Universidade de Damasco, ela foi obrigada a suspender seus estudos por causa da guerra.<\/p>\n<p>&#8220;Eu costumava passar o dia em Damasco e regressar para Latakia no \u00f4nibus noturno. Mas nas condi\u00e7\u00f5es atuais isso deixou de ser real: h\u00e1 muitos postos de controle militar na estrada e, al\u00e9m disso, caem bombas perto da universidade&#8221;, conta ela.<\/p>\n<p>Apesar disso, Chirin tenta terminar sozinha a sua tese cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&#8220;Vou continuar o meu trabalho e esperar que a situa\u00e7\u00e3o melhore. Isso me d\u00e1 est\u00edmulo para viver. Mas n\u00e3o vou sofrer demais se n\u00e3o conseguir defender a minha tese. O principal para mim agora \u00e9 que a vida na S\u00edria regresse \u00e0 normalidade.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo em Latakia, onde n\u00e3o h\u00e1 combates, a vida cotidiana mudou muito. A cidade foi dividida em distritos com in\u00fameros postos de controle do Ex\u00e9rcito, nos quais \u00e9 preciso esperar em longas fila para a inspe\u00e7\u00e3o. Mas isso parece n\u00e3o incomodar Shirin, uma vez que s\u00e3o esses mesmos postos que previnem o transporte de armas e explosivos.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s vivemos em constante medo e tememos que a situa\u00e7\u00e3o em Latakia piore. Na minha cidade h\u00e1 muitas pessoas vindas de outras cidades e regi\u00f5es da S\u00edria que fugiram da guerra. Mas para onde fugiremos n\u00f3s, habitantes de Latakia, se a guerra chegar aqui? Ouvimos todos os dias sobre massacres brutais, da profana\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres. J\u00e1 n\u00e3o temos medo da morte, mas de como v\u00e3o nos matar&#8221;.<\/p>\n<p>Chirin ficou muito preocupada quando soube do massacre nos povoados perto de Latakia.<\/p>\n<p>&#8220;Quando soube que fam\u00edlias inteiras foram mortas, recordei da minha amiga que vive na \u00e1rea com os seus dois filhos pequenos. Tentei telefonar, mas n\u00e3o consegui contato. N\u00e3o consegui dormir durante dois dias pensando que ela e os filhos poderiam ser brutalmente assassinados. Mas descobri o n\u00famero de telefone do irm\u00e3o dela, que me contou que ela conseguiu fugir a tempo com os filhos, mas que outros parentes haviam sido mortos. Ouvi dizer que algumas das mo\u00e7as se suicidaram com medo de serem feitas prisioneiras e estupradas.&#8221;<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias de raptos assustam a popula\u00e7\u00e3o civil s\u00edria. Corre entre as pessoas muitas hist\u00f3rias sobre tortura e estupro de meninas e meninos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu conhe\u00e7o garotas da cidade de Homs que levam o tempo todo em suas bolsas granadas para se matarem caso sejam raptadas. Eu espero sinceramente n\u00e3o ter que andar com uma granada ou pistola na minha bolsa, embora pense que tudo aponte para isso.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, apesar de todas as conversas sobre desaparecimento de pessoas, assassinatos e raptos que Chirin ouve falar, ela tenta levar uma vida normal.<\/p>\n<p>&#8220;Continuo saindo e passeando pela minha cidade. Quando me encontro com meus amigos, tentamos n\u00e3o falar sobre a guerra nem sobre a situa\u00e7\u00e3o tensa em que vivemos. Mas muitas vezes \u00e9 imposs\u00edvel e ent\u00e3o tentamos olhar com outros olhos para a situa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de tudo o que aconteceu at\u00e9 agora, Chirin acredita na possibilidade de restaurar a paz e a harmonia na sociedade s\u00edria. Ela n\u00e3o consegue aceitar a ideia de que os horrores da guerra n\u00e3o ter\u00e3o fim.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca consegui entender qual a ess\u00eancia da guerra. Quando li \u2018A Imortalidade\u2019, de Milan Kundera, ri da teoria que ele desenvolve logo no in\u00edcio do livro. Ele tenta provar que a humanidade necessita periodicamente de guerra e que um per\u00edodo de viol\u00eancia se alterna com um de paz. Naquela altura, eu acreditava que a humanidade estava seguindo no caminho do progresso cont\u00ednuo em dire\u00e7\u00e3o a um mundo mais humano e melhor. Hoje, quando me lembro de Kundera, j\u00e1 acredito nas palavras dele, mas espero que chegue rapidamente o per\u00edodo de amor e paz ao meu pa\u00eds e que este pesadelo termine rapidamente.&#8221;<\/p>\n<p>Fonte: Gazeta Russa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00f3s vivemos em constante medo e tememos que a situa\u00e7\u00e3o em Latakia piore. 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