{"id":54460,"date":"2018-03-16T06:35:54","date_gmt":"2018-03-16T09:35:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=54460"},"modified":"2018-03-16T06:35:54","modified_gmt":"2018-03-16T09:35:54","slug":"marielle-e-vitima-da-barbarie-que-dedicou-a-vida-a-combater","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=54460","title":{"rendered":"&#8220;Marielle \u00e9 v\u00edtima da barb\u00e1rie que dedicou a vida a combater&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"imagem-box imagem-box-3\"><img decoding=\"async\" title=\"\u00a0\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/cano119693.jpg\" alt=\"\u00a0\" \/><\/div>\n<h2 id=\"link_lead\" style=\"text-align: justify;\">\u201cMarielle \u00e9 v\u00edtima da barb\u00e1rie que dedicou a vida a combater\u201d, lamenta Ignacio Cano, doutor em sociologia e pesquisador do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Colega de milit\u00e2ncia da vereadora carioca, assassinada na noite desta quarta-feira (14), ele defende que \u00e9 preciso o esclarecimento r\u00e1pido do crime para que possa haver \u201calguma f\u00e9 no sistema de justi\u00e7a criminal e no Estado democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Por Joana Rozowykwiat<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u201cTodas as mortes t\u00eam o mesmo valor \u2013 a da Marielle a do Anderson e todas as outras que acontecem no pa\u00eds a cada ano. Mas, se a morte de uma pessoa com essa visibilidade ficar impune, o que poderemos esperar de tantas milhares de mortes de an\u00f4nimos que acontecem no Estado do Rio a cada ano? Se essa morte n\u00e3o for esclarecida, a degrada\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a no Estado ser\u00e1 ainda maior\u201d, alerta, em entrevista ao\u00a0<b>Portal Vermelho<\/b>.<\/p>\n<p>Mulher negra, cria da Mar\u00e9, defensora dos Diretos Humanos, soci\u00f3loga e vereadora pelo PSOL. Assim Marielle Franco se descrevia em seu perfil no Twitter. Nomeada no fim do m\u00eas passado como relatora da Comiss\u00e3o da C\u00e2mara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar a atua\u00e7\u00e3o das tropas na interven\u00e7\u00e3o federal, ela foi morta a tiros dentro de um carro, na regi\u00e3o central do Rio. O motorista do ve\u00edculo, Anderson Pedro Gomes, tamb\u00e9m foi baleado e morreu.<\/p>\n<p>Segundo a pol\u00edcia, um outro carro emparelhou com o ve\u00edculo em que Marielle estava e efetuou ao menos nove disparos em sua dire\u00e7\u00e3o. Ela encontrava-se no banco de tr\u00e1s, foi atingida por quatro proj\u00e9teis e faleceu na hora. Uma assessora da vereadora, que tamb\u00e9m estava no autom\u00f3vel, teve ferimentos leves. Os criminosos fugiram sem levar nada. O quadro faz com que a pol\u00edcia trabalhe com a ideia de que se tratou de uma execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Representante dos que n\u00e3o t\u00eam voz<\/b><\/p>\n<p>\u201cPara n\u00f3s, \u00e9 um momento muito doloroso, ela era uma companheira de longa data, de muita milit\u00e2ncia juntos, ent\u00e3o esse \u00e9 um dia devastador\u201d, diz Ignacio Cano. Para ele, contudo, a morte prematura da vereadora \u00e9 um golpe, especialmente, para uma parcela da popula\u00e7\u00e3o particularmente oprimida, que se via representada por Marielle.<\/p>\n<p>\u201cEla era negra, favelada, mulher \u2013 um grupo que n\u00e3o tem voz p\u00fablica. E ela deu voz a esse grupo, que agora ficar\u00e1 privado dessa voz da maneira pior poss\u00edvel. Ent\u00e3o \u00e9 um dia de muita tristeza, para o Rio de Janeiro, para os Direitos Humanos e para qualquer um que acredite na democracia e na justi\u00e7a e que pretenda lutar contra a barb\u00e1rie\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo \u00e9 cauteloso ao ser questionado sobre ind\u00edcios de que se tratou de um crime pol\u00edtico. \u201c\u00c9 uma hip\u00f3tese, n\u00e3o tenho d\u00favida. Mas temos que aguardar e cobrar as investiga\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso que as investiga\u00e7\u00f5es andem r\u00e1pido\u201d, defende. \u201c\u00c9 um contexto an\u00f4malo e a responsabilidade agora \u00e9 federal, ent\u00e3o o governo federal tem que apresentar uma resposta logo sobre esse crime\u201d, completou.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia \u00e9 ao fato de que o homic\u00eddio ocorreu num momento em que o Estado do Rio passa por uma interven\u00e7\u00e3o militar federal. Ao comentar a morte da vereadora, o ministro da Justi\u00e7a, Torquato Jardim, disse que ela n\u00e3o ter\u00e1 impacto na interven\u00e7\u00e3o. \u201cFoi uma trag\u00e9dia, mais uma trag\u00e9dia di\u00e1ria no Rio de Janeiro. Lament\u00e1vel\u201d, declarou.<\/p>\n<p>\u201cPara eles, \u00e9 mais uma trag\u00e9dia, para n\u00f3s, que conviv\u00edamos com ela, n\u00e3o \u00e9 mais uma trag\u00e9dia. De qualquer forma, o Estado tem a obriga\u00e7\u00e3o de esclarecer todos os homic\u00eddios. A gente quer passar de uma taxa de esclarecimento que hoje \u00e9 inferior a 8% dos casos, para uma taxa civilizada, em que voc\u00ea consiga esclarecer pelo menos mais da metade dos crimes de homic\u00eddios. H\u00e1 pa\u00edses que conseguem isso. A nossa realidade \u00e9 complexa, mas \u00e9 uma cobran\u00e7a leg\u00edtima e necess\u00e1ria exigir que o Estado consiga identificar e processar a maioria dos assassinos. Sem isso, a esperan\u00e7a de acabar com a barb\u00e1rie ser\u00e1 remota\u201d, diz Cano.<\/p>\n<p><b>Os vulner\u00e1veis de sempre<\/b><\/p>\n<p>A morte de Marielle refor\u00e7a o que dizem os n\u00fameros da viol\u00eancia no Brasil. De acordo com o Atlas da Viol\u00eancia 2017, por exemplo, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 s\u00e3o negras. E, segundo a Anistia Internacional, o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses com o maior registro de mortes de ativistas dos direitos humanos. \u201c\u00c9 um retrato muito perturbador\u201d, avalia o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>No caso de Marielle, nem sua posi\u00e7\u00e3o de destaque lhe afastou das estat\u00edsticas: \u201cEra uma mulher, negra, favelada, que a princ\u00edpio tinha muitas dificuldades para atingir um lugar de visibilidade, uma express\u00e3o p\u00fablica. Mas, quando ela consegue chegar l\u00e1, n\u00f3s esper\u00e1vamos que ela estivesse protegida, justamente pelo cargo que exercia. Mas descobrimos que n\u00e3o era bem assim, que ela continuava com a vulnerabilidade de sempre. Isso \u00e9 uma trag\u00e9dia e temos que nos mobilizar para que isso n\u00e3o continue assim. Para que pessoas que tenham essa origem n\u00e3o continuem tendo uma probabilidade de morte superior \u00e0 das pessoas que t\u00eam origem social mais favorecida\u201d, afirma.<br \/>\n<b><br \/>\nInterven\u00e7\u00e3o, uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-eleitoral<\/b><\/p>\n<p>Segundo o professor da Uerj, que \u00e9 cr\u00edtico da presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito nas ruas do Rio, a morte da vereadora do PSOL mostra que o Estado precisa de investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de tanques. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cclaramente uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA gente chama de autointerven\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 o PMDB do Rio, com o PMDB de Bras\u00edlia, tentando arrumar uma bandeira eleitoral para esse ano. Ent\u00e3o, num momento em que tinham dificuldades para abra\u00e7ar a bandeira da Reforma da Previd\u00eancia, optaram por i\u00e7ar a bandeira da seguran\u00e7a como uma bandeira pol\u00edtica\u201d, opina.<\/p>\n<p>De acordo com ele, se o governo federal realmente tivesse vontade de melhorar a seguran\u00e7a do Rio, havia outras medidas a serem tomadas, que n\u00e3o envolvem o Ex\u00e9rcito. \u201cPodia criar uma for\u00e7a-tarefa de investiga\u00e7\u00e3o, por exemplo. A morte da Marielle mostra, como tantas outras, que o que a gente precisa \u00e9 de investiga\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o precisa de soldados nas ruas, de tanques na frente das comunidades. A gente precisa de investiga\u00e7\u00e3o para identificar os respons\u00e1veis pelos crimes violentos\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Cano prev\u00ea que a a\u00e7\u00e3o militar provavelmente n\u00e3o vai ter nenhum impacto positivo. Ele destaca que opera\u00e7\u00e3o anteriores do Ex\u00e9rcito n\u00e3o surtiram efeito, al\u00e9m de que tiveram custos muito elevados. \u201cMas \u00e9 essa aposta numa recep\u00e7\u00e3o popular favor\u00e1vel do Ex\u00e9rcito como um poder moderador, um bra\u00e7o forte, que faz com que os governantes, vira e mexe, recorram a esse expediente\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo sublinha ainda que o problema da viol\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 localizado no Rio, pelo contr\u00e1rio. \u201cBasta lembrar que o Rio \u00e9 o 11\u00ba estado do Brasil em taxa de homic\u00eddio e mortes violentas. Ou seja, tem dez estados em situa\u00e7\u00e3o mais dram\u00e1tica. Se eles quisessem ajudar, h\u00e1 outros mecanismos que n\u00e3o colocar o Ex\u00e9rcito numa fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 dele\u201d.<\/p>\n<p><b>Uma agenda agressiva de seguran\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Ignacio Cano se diz muito preocupado com falas e sinaliza\u00e7\u00f5es vindas de altas autoridades federais. Ele mencionou como exemplo o fato de o comandante Eduardo Villas B\u00f4as ter defendido mudan\u00e7as nas regras de engajamento do Ex\u00e9rcito, permitindo a um militar matar pessoas que estejam armadas nas ruas do Rio. O soci\u00f3logo tamb\u00e9m se referiu \u00e0 mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o que faz com que crimes de homic\u00eddio cometidos por militares em opera\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica sejam julgados pela justi\u00e7a militar e n\u00e3o mais pela justi\u00e7a comum.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 todo um projeto pol\u00edtico para transferir uma responsabilidade crescente da seguran\u00e7a p\u00fablica para as m\u00e3os do Ex\u00e9rcito e de uma forma cada vez mais violenta. N\u00e3o \u00e0 toa h\u00e1 deputados promovendo o que chamam de Lei do Abate, para poder matar pessoas s\u00f3 porque estejam armadas, mesmo que nesse momento n\u00e3o estejam amea\u00e7ando ningu\u00e9m. Tem tamb\u00e9m a tentativa de conseguir um mandado de busca coletivo, colocando sob suspei\u00e7\u00e3o todas as comunidades\u201d, enumera.<\/p>\n<p>Para Cano, este \u00e9 um projeto \u201cextremamente perturbador\u201d, que lembra a ele, inclusive, o cen\u00e1rio vivido na Venezuela, antes do Caracazo. Na ocasi\u00e3o, um protesto popular contra o pacote neoliberal do governo foi duramente reprimido pelo Ex\u00e9rcito e pela pol\u00edcia, em 27 de fevereiro de 1989, com um saldo de centenas de mortos.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 agora, isso tem ficado na ret\u00f3rica, e esperamos que continue l\u00e1. Mas h\u00e1 um grupo que tem uma agenda extremamente agressiva de seguran\u00e7a e essa agenda seria terr\u00edvel para os moradores do Rio de Janeiro. Vamos torcer e nos mobilizar contra isso\u201d, encerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do\u00a0<b>Portal Vermelho<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMarielle \u00e9 v\u00edtima da barb\u00e1rie que dedicou a vida a combater\u201d, lamenta Ignacio Cano, doutor em sociologia e pesquisador do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-54460","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54460","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=54460"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54460\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54467,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54460\/revisions\/54467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=54460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=54460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=54460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}