{"id":54541,"date":"2018-03-19T06:35:59","date_gmt":"2018-03-19T09:35:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=54541"},"modified":"2018-03-19T06:35:59","modified_gmt":"2018-03-19T09:35:59","slug":"a-vida-e-a-luta-de-marielle-franco-nao-foi-em-vao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=54541","title":{"rendered":"A vida e a luta de Marielle Franco: n\u00e3o foi em v\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"imagem-box imagem-box-3\">\n<address>M\u00eddia Ninja<\/address>\n<p><img decoding=\"async\" title=\"Marielle Franco\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/mariellemidia119759.jpg\" alt=\"Marielle Franco\" \/>Marielle Franco<\/div>\n<h2 id=\"link_lead\">A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro fazia uma pol\u00edtica nova, diferente, feminina e feminista. Com afeto. Tecia um novo .tecido social carioca, mais bonito, mais colorido.<\/p>\n<p>Por Manoela Miklos*<\/h2>\n<p>Quando entrei na Sala Inglesa da C\u00e2mara dos Vereadores do Rio de Janeiro na quinta-feira (15) de manh\u00e3, onde dev\u00edamos ficar \u00e0 espera dos corpos de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes, encontrei uma sala cheia de mulheres negras. Muitas choravam. Outras lembravam de como estavam ali por Mari. Porque Mari as levou. Mulheres que trabalhavam para o mandato da vereadora Mari. Ativistas que acompanhavam a vereadora Mari desde a campanha em 2016 e participavam do mandato de muito perto.<\/p>\n<p>Cheguei ali de m\u00e3os dadas com Julita Lemgruber, a maior especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica deste pa\u00eds. No caminho, minutos antes dessa entrada e entre l\u00e1grimas, ela me dizia: foi tudo em v\u00e3o. \u201cQuarenta anos dedicados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e aos direitos humanos para hoje enterrar Marielle assim.\u201d<\/p>\n<p>Ao entrar na sala, eu entendi. Nada foi em v\u00e3o, Julita. Marielle encheu aquele espa\u00e7o de poder de mulheres negras perif\u00e9ricas. E trabalhava diariamente, com retid\u00e3o \u00edmpar e sorriso no rosto certo, para que outras como ela, para que todas como ela tamb\u00e9m ocupassem espa\u00e7os assim. Marielle era tudo o que desejamos juntas na Cinel\u00e2ndia em 2015, onde as primeiras passeatas do que se chamou Primavera das Mulheres aconteceram e onde a candidatura de Mari deixou de ser sonho e virou adesivo nos nossos peitos. Ela fazia uma pol\u00edtica nova, diferente, feminina e feminista. Com afeto. Tecia um novo tecido social carioca, mais bonito, mais colorido.<\/p>\n<p>Quem visitava Mari na C\u00e2mara nunca deixava de notar como sua presen\u00e7a, para al\u00e9m de suas palavras, causava estranhamento aos habituados \u00e0 pol\u00edtica de homens brancos, feita por eles e para eles. Ela era, no meio de infinitos ternos, aquele cabelo, aquele turbante, aquele vestido estampado de cores vibrantes, aquele batom que dava moldura ao sorriso. J\u00e1 falei do sorriso? Ningu\u00e9m que conheceu Marielle vai se esquecer do seu sorriso. Ent\u00e3o desculpe se insisto no sorriso. Marielle era a representa\u00e7\u00e3o de tudo o que sempre esteve ausente na pol\u00edtica brasileira: a mulher, a mulher negra, a mulher negra favelada, a mulher negra favelada homossexual, a mulher negra favelada homossexual m\u00e3e na adolesc\u00eancia defensora de direitos humanos. E encarava a toxicidade da pol\u00edtica do Rio de Janeiro sem jamais se esquecer do que era inegoci\u00e1vel, sem parar de apontar os que sim o negociavam, sorrindo, sorrindo, sorrindo. E, principalmente, tomando aqueles corredores, aquelas salas e sal\u00f5es e os enchendo de mulheres como ela. Ou diferentes dela. De mulheres em toda a diversidade do que podemos ser.<\/p>\n<p>Os resultados dessa campanha arrebatadora que a levou para a C\u00e2mara como a quinta vereadora mais votada da cidade e de um mandato transformador eram evidentes. Projetos de lei aprovados e escanteados, iniciativas encampadas ou travadas, sempre tendo a igualdade no centro da agenda. Era igualmente evidente o compromisso de Mari com ser o que somos. Ser todas n\u00f3s. E levar todas n\u00f3s com ela. Algo in\u00e9dito, descomunal. Marielle estava fazendo o bem bem demais e o balc\u00e3o de neg\u00f3cios da politicagem da cidade n\u00e3o estava feliz.<\/p>\n<p>A essa altura, claro que demandamos resultados das institui\u00e7\u00f5es e queremos esclarecimentos. Mas, feminista que sou, interseccional e nada punitivista como Mari, sei o que preciso saber.<\/p>\n<p>Sei que nos arrancaram Marielle com uma brutalidade inacredit\u00e1vel porque ela estava fazendo o que notei na Sala Inglesa: ocupando o poder com mulheres como ela e resistindo aos velhos e tortos modo de fazer pol\u00edtica. Propondo modos novos. Modos nossos. Mas n\u00e3o tenho d\u00favidas: as ra\u00edzes dessa flor s\u00e3o profundas em cada uma de n\u00f3s e de nossos grandes aliados. Ceifaram Marielle. Mas brotar\u00e3o Marielles em todo peito no mundo todo. E a tentativa de silenciar essa voz vai servir para o oposto. Ela ser\u00e1 internacionalmente reconhecida, seremos todas Marielles. E Marielle estar\u00e1 sempre presente. Foi um crime pol\u00edtico. Responderemos politicamente. Seguindo na trilha que era dela, na picada que ela abriu. Sei tamb\u00e9m que temos que recha\u00e7ar a narrativa de que a execu\u00e7\u00e3o de Marielle justifica avan\u00e7os na militariza\u00e7\u00e3o do enfrentamento do crime organizado e na interven\u00e7\u00e3o federal em solo carioca. Nada disso funciona, sabemos. No mundo inteiro isso foi tentado. Jamais nada com esse car\u00e1ter teve sucesso e qualquer um que seja honesto e bom com n\u00fameros h\u00e1 de concordar. Nem no Rio em in\u00fameras oportunidades anteriores, nem em nenhum outro contexto. Ao contr\u00e1rio, o assassinato de Mari \u00e9 o resultado de um processo perverso de escolha pelo que n\u00e3o funciona no \u00e2mbito das pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablicas. Processo esse cuja interven\u00e7\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo tr\u00e1gico e o fim da vida de Mari, outro.<\/p>\n<p>Enfim, sei que nos despedimos de Mari e Anderson na mesma Cinel\u00e2ndia em que comemoramos sua vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es. Cantamos \u201ccompanheira me ajude que eu n\u00e3o posso andar s\u00f3\u201d com um n\u00f3 no peito que nem sei. Palavras n\u00e3o d\u00e3o conta. A escadaria da C\u00e2mara era uma cachoeira de l\u00e1grimas. Mas sei que nada termina ali. Sei que n\u00e3o foi em v\u00e3o, Julita. Lembra do sorriso de Mari, Julita? N\u00e3o vamos esquecer dele e nem deixar que ningu\u00e9m o esque\u00e7a. E quem achou que nos venceria est\u00e1 errado. Tem que estar. \u00c9 meu desejo. E Mari empossada me ensinou que desejos viram, sim, realidade.<\/p>\n<p>Seguimos. Marielle presente. Hoje e sempre.<\/p>\n<p>*Manoela Miklos \u00e9 doutora em rela\u00e7\u00f5es internacionais, assessora do Programa para a Am\u00e9rca Latina da Open Society Foundations, ativista feminista e idealizadora do movimento #Agora\u00c9QueS\u00e3oElas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nexo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00eddia Ninja Marielle Franco A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro fazia uma pol\u00edtica nova, diferente, feminina e<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-54541","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=54541"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54541\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54549,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/54541\/revisions\/54549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=54541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=54541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=54541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}