{"id":5608,"date":"2014-02-17T08:25:10","date_gmt":"2014-02-17T11:25:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=5608"},"modified":"2014-02-17T08:25:10","modified_gmt":"2014-02-17T11:25:10","slug":"osvaldo-bertolino-a-copa-do-mundo-e-nossa-por-que-nao-seria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=5608","title":{"rendered":"Osvaldo Bertolino: A Copa do Mundo \u00e9 nossa! Por que n\u00e3o seria?"},"content":{"rendered":"<h2>O futebol como arte popular \u00e9 um conceito quase un\u00e2nime no Brasil. Mas a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo de 2014 no pa\u00eds tem suscitado pol\u00eamicas que v\u00e3o al\u00e9m do esporte. Entram pelo mundo da manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da tentativa de afastar o povo das arenas esportivas.<\/p>\n<p>Por Osvaldo Bertolino*<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<address>\u00a0<\/address>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"P\u00fablico da transmiss\u00e3o p\u00fablica da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es no Vale do Anhangaba\u00fa, em S\u00e3o Paulo.\u00a0\" src=\"http:\/\/admin.paginaoficial1.tempsite.ws\/admin\/arquivos\/biblioteca\/foto_9_2821_412655957.jpg\" \/>P\u00fablico da transmiss\u00e3o p\u00fablica da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es no Vale do Anhangaba\u00fa, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<\/div>\n<p>P\u00fablico da transmiss\u00e3o p\u00fablica da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es no Vale do Anhangaba\u00fa, em S\u00e3o Paulo<br \/>\nTrajadas de preto da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, e parecendo sa\u00eddas das pe\u00e7as do imortal Federico Garcia Lorca, velhinhas espanholas costumam murmurar um conhecido ad\u00e1gio: \u201cYo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.\u201d O sussurro fatalista significa que elas renegam a exist\u00eancia de feiticeiras \u2014 n\u00e3o se espantariam, por\u00e9m, diante de silhuetas de mulheres cavalgando vassouras, recortadas contra a luz da lua cheia.<\/p>\n<p>Esse ditado pode ser transposto para ambientes mais coloridos: a confraria dos manifestantes que reivindicaram uma ampla pauta, percorrendo as ruas do pa\u00eds e gritando que sentem orgulho de serem brasileiros. No meio deles h\u00e1 os que atiram palavras de ordem contra o governo, os \u201cpol\u00edticos\u201d, os partidos e mais uma variada gama de assuntos, entre os quais os est\u00e1dios e a Copa do Mundo de 2014.<\/p>\n<p>Pode-se \u2014 claro, claro \u2014 ser contra a Copa (e eventualmente manifestar esse descontentamento nas ruas e nas urnas). S\u00f3 n\u00e3o se pode ser ing\u00eanuo a ponto de acreditar nas graves quest\u00f5es de &#8220;princ\u00edpios&#8221; erguidas por essa grita criminosamente colhida e depois habilmente manipulada pela m\u00eddia. Anjos de candura, os prelados dessa arma\u00e7\u00e3o alegam passar longe de tamanha vilania. Suas pr\u00e1ticas, mais antigas do que andar para frente, contudo, recomendam que a situa\u00e7\u00e3o seja examinada com lupa de precis\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 defuntos frescos que sugerem o contr\u00e1rio do que dizem. S\u00e3o os casos de n\u00fameros sa\u00eddos sabe Deus de onde, divulgados a torto e a direito por jornais, revistas, portais, r\u00e1dios e televis\u00f5es da m\u00eddia, cabalmente desmentidos pela realidade e por uma nota sucinta e precisa do Minist\u00e9rio do Esporte. \u00c9 poss\u00edvel que muitos dos que se manifestam nas ruas com esses dados manipulados na ponta da l\u00edngua n\u00e3o tenham consci\u00eancia dos n\u00fameros reais que est\u00e3o nos alicerces das obras da Copa.<\/p>\n<p>A nota do Minist\u00e9rio do Esporte esclarece que h\u00e1 uma linha de empr\u00e9stimos, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), com juros e exig\u00eancia de todas as garantias banc\u00e1rias, como qualquer outra modalidade de cr\u00e9dito do banco. O teto do valor do empr\u00e9stimo, para cada arena, \u00e9 de R$ 400 milh\u00f5es, estabelecido em 2009, valor que permanece o mesmo.<\/p>\n<p>O BNDES tem taxas de juros espec\u00edficas para diversas modalidades de obras e projetos. O financiamento das arenas faz parte de uma dessas modalidades. &#8220;Est\u00e3o fazendo um paralelo entre os recursos para a Copa e em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom destacar que, somente este ano, o or\u00e7amento das duas \u00e1reas \u00e9 de R$ 177 bilh\u00f5es. O or\u00e7amento do Minist\u00e9rio do Esporte \u00e9 aproximadamente 1% desse total. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 desvio de recursos de outras \u00e1reas para a constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios&#8221;, explicou Aldo Rebelo.<\/p>\n<p>O ministro disse tamb\u00e9m que melhorias no transporte de pessoas \u00e9 o maior destino dos investimentos feitos para a competi\u00e7\u00e3o. Segundo ele, os recursos, em sua quase totalidade, est\u00e3o previstos no Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). &#8220;\u00c9 um legado importante que seria constru\u00eddo nas cidades, independentemente de ter Copa do Mundo ou n\u00e3o&#8221;, refor\u00e7ou. Al\u00e9m do mais, os que pregam pela cartilha da m\u00eddia desconsideram os n\u00fameros do estudo \u201cBrasil Sustent\u00e1vel \u2014 impactos s\u00f3cio-econ\u00f4micos da Copa do Mundo de 2014\u201d, realizado pela consultoria Ernst &amp; Young em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Mais do que um campeonato internacional, a Copa ir\u00e1 mudar a cara do Brasil, segundo o estudo. E n\u00e3o apenas nas 12 cidades-sede. O mundial deve injetar R$ 142 bilh\u00f5es na economia brasileira de 2010 a 2014. A avalanche de recursos ir\u00e1 criar 3,63 milh\u00f5es de empregos, al\u00e9m de adicionar R$ 63,48 bilh\u00f5es \u00e0 renda da popula\u00e7\u00e3o. Diz o estudo que a Copa 2014 trar\u00e1 R$ 142 bilh\u00f5es ao Brasil. Al\u00e9m dos investimentos diretos na Copa, outros R$ 112,8 bilh\u00f5es ser\u00e3o injetados na economia com o crescimento de setores como constru\u00e7\u00e3o civil, turismo e com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>No per\u00edodo 2010-2014, o n\u00famero de turistas internacionais deve crescer em 2,98 milh\u00f5es, alcan\u00e7ando 7,4 milh\u00f5es no ano da Copa. Nos quatro anos, dever\u00e3o ser geradas receitas adicionais de R$ 5,94 bilh\u00f5es. Para o ano do campeonato, ser\u00e3o nada menos do que US$ 8,73 bilh\u00f5es trazidos ao pa\u00eds com gastos de turistas. As cidades-sede \u2014 Belo Horizonte, Bras\u00edlia, Cuiab\u00e1, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e S\u00e3o Paulo \u2014 ir\u00e3o receber cerca de R$ 14,54 bilh\u00f5es de investimento em infraestrutura. O montante investido deve adicionar \u00e0s receitas municipais R$ 7,18 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A outra face dessa moeda brasileira \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do futebol para o povo \u2014 conforme esta Princ\u00edpios tem mostrado. Na edi\u00e7\u00e3o de junho de 2010, por exemplo, Aldo Rebelo \u2014 \u00e0 \u00e9poca deputado federal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) por S\u00e3o Paulo \u2014 comentou em entrevista exclusiva que a habilidade dos jogadores negros e mesti\u00e7os se imp\u00f4s contra o preconceito que havia nos clubes. Com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que abriu as portas para \u201cos de baixo\u201d e representou um marco importante na forma\u00e7\u00e3o do Brasil e da nacionalidade, o futebol se popularizou ainda mais.<\/p>\n<p>Segundo Aldo Rebelo, Get\u00falio Vargas tinha a percep\u00e7\u00e3o de que o futebol poderia ter um papel importante na unidade e na consolida\u00e7\u00e3o de uma identidade do pa\u00eds. \u201cO futebol era praticamente amador, ou artesanal. O jogador praticava sua arte n\u00e3o para o mercado, mas para o grupo de admiradores ou de adeptos, como um artes\u00e3o. Ent\u00e3o, creio que a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e Get\u00falio compreenderam esse papel do futebol\u201d, explicou. Para Aldo Rebelo, a conquista da Copa de 1958 representou a consolida\u00e7\u00e3o do futebol como identidade nacional. \u201cAs pessoas podiam at\u00e9 n\u00e3o saber quem tinham sido Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Tiradentes \u2014 o que \u00e9 lament\u00e1vel \u2014, mas sabiam quem eram Didi, Pel\u00e9, Garrincha, Vav\u00e1 etc.\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Ainda assim, o futebol brasileiro chegou ao seu auge enfrentando preconceitos. Em uma cr\u00f4nica de 1965, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu: \u201cH\u00e1 tr\u00eas dias aconteceu no Maracan\u00e3 a batalha entre o Brasil e a B\u00e9lgica. Todos os brasileiros mortos e vivos estavam l\u00e1. Defuntos de algod\u00e3o nas narinas atravessavam as borboletas. Tinham pulado os muros do al\u00e9m para torcer. S\u00f3 um brasileiro faltou: o soci\u00f3logo. Entre cento e tantos mil patr\u00edcios, n\u00e3o vi uma \u00fanica e escassa flor da sociologia.\u201d Para Aldo Rebelo, a dist\u00e2ncia hist\u00f3ria da intelectualidade em rela\u00e7\u00e3o ao futebol tamb\u00e9m se explica por uma l\u00f3gica invertida.<\/p>\n<p>Segundo o ministro, havia uma desconfian\u00e7a dos intelectuais mais cr\u00edticos, como Lima Barreto e Graciliano Ramos, por ser o futebol um esporte organizado a partir dos clubes de elite. \u201cTalvez n\u00e3o tenham convivido com os modernistas em S\u00e3o Paulo, pois assim teriam compreendido a antropofagia e quem sabe percebessem que, embora trazido ao Brasil por estudantes da elite, por estudantes da aristocracia, era facilmente percebido pelo povo como uma coisa dele\u201d, comentou. Gilberto Freyre teve outra compreens\u00e3o \u2014 ele escreveu ensaios que tratam do futebol de depois da Semana de Arte Moderna e da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930. O intelectual marxista Ant\u00f4nio Gramsci tamb\u00e9m: ele teria dito que \u201co futebol \u00e9 o reino da liberdade humana, exercida ao ar livre&#8221;.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Florestan Fernandes foi outro que detectou a ess\u00eancia da populariza\u00e7\u00e3o do futebol no Brasil em artigo no jornal Folha de S. Paulo de 13 de junho de 1994, quando escreveu que essa modalidade esportiva irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a cultura das elites. Atestando sua popular caracter\u00edstica criativa, o historiador Eric Hobsbawm faz refer\u00eancia a um maestro, diretor de uma orquestra francesa, que n\u00e3o perdia um jogo da sele\u00e7\u00e3o brasileira porque achava que n\u00e3o existia nada mais pr\u00f3ximo da arte. E o pr\u00f3prio Hobsbawm, em sua obra Breve hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, p\u00f4s o futebol no cap\u00edtulo da cultura. \u201cQuem, tendo visto a sele\u00e7\u00e3o brasileira em seus dias de gl\u00f3ria, negar\u00e1 sua pretens\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de arte?\u201d, escreveu o historiador.<\/p>\n<p>O mundo do futebol \u00e9 apaixonante, mas \u00e9 preciso perceber as suas idiossincrasias. Parafraseando Spinoza (Baruch, o fil\u00f3sofo holand\u00eas, n\u00e3o Valdir, o ex-jogador e hoje t\u00e9cnico), &#8220;nem rir, nem chorar; apenas entender&#8221;. A preocupa\u00e7\u00e3o do ministro do Esporte com a elitiza\u00e7\u00e3o do futebol chama a aten\u00e7\u00e3o e faz pensar. Pode-se dizer que o caminho escolhido pela sele\u00e7\u00e3o brasileira e os principais clubes do pa\u00eds leva-os de volta aos tempos em que o futebol era privil\u00e9gio cultural das elites a que se referiu Florestan Fernandes. A m\u00eddia assumiu isso de frente e, de costas, nos ro\u00e7a com sua arte bruta, informe, redutora.<\/p>\n<p>Um t\u00edtulo futebol\u00edstico tem papel t\u00e3o derivativo quanto mudan\u00e7as na cota\u00e7\u00e3o do real em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar no futuro ou a taxa de juros embutida numa a\u00e7\u00e3o da Petrobras. O prest\u00edgio esportivo da sele\u00e7\u00e3o brasileira, por exemplo, ajudou a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF) a transformar o time em uma m\u00e1quina de fazer dinheiro. Muito mais significativo do que as cifras envolvidas \u00e9 o movimento por tr\u00e1s delas. Mais da metade da receita anual da sele\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 garantida por tr\u00eas grandes contratos de patroc\u00ednio \u2014 com a Nike, com a Ambev e com a Vivo.<\/p>\n<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, o time era sustentado por verbas do Estado, segundo o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Aos poucos, as estatais foram sendo substitu\u00eddas por empresas privadas. Os valores dos contratos de patroc\u00ednio alcan\u00e7aram novo patamar quando a Nike se tornou parceira da sele\u00e7\u00e3o, em 1996. At\u00e9 hoje a multinacional norte-americana contribui com parte substancial do faturamento da equipe: s\u00e3o US$ 12 milh\u00f5es por ano. Outra fatia importante vem das cotas pagas ao time pelos amistosos disputados no exterior.<\/p>\n<p>Nesse caso, vem sendo tamb\u00e9m registrado aumento substancial de valores ao longo dos \u00faltimos anos. Os direitos de transmiss\u00e3o de cada uma das partidas disputadas pela sele\u00e7\u00e3o s\u00e3o vendidos pela CBF \u00e0 Rede Globo, que tem contrato de exclusividade. A emissora paga US$ 600 mil por evento \u00e0 entidade. At\u00e9 mesmo os per\u00edodos de treinos e concentra\u00e7\u00f5es s\u00e3o usados para aumentar os lucros da CBF. Nas semanas que antecederam a estreia na Copa da Alemanha, em 2006, por exemplo, a sele\u00e7\u00e3o recebeu US$ 1,2 milh\u00e3o para se hospedar no luxuoso Park Hotel Weggis, na regi\u00e3o de Lucena, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Os neg\u00f3cios da CBF foram alvo de duas Comiss\u00f5es Parlamentares de Inqu\u00e9rito (CPIs), uma na C\u00e2mara dos Deputados e outra no Senado. O relat\u00f3rio final das investiga\u00e7\u00f5es apontou ind\u00edcios de 17 crimes envolvendo os principais dirigentes do futebol brasileiro, como evas\u00e3o de divisas, sonega\u00e7\u00e3o fiscal e lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p>A F\u00e9d\u00e9ration Internationale de Football Association (Fifa) tamb\u00e9m est\u00e1 toda contaminada por esta l\u00f3gica. Em um artigo publicado na revista cient\u00edfica Lancet, alguns m\u00e9dicos questionaram a inclus\u00e3o de companhias como a cervejaria Budweiser, a ind\u00fastria de refrigerantes Coca-Cola e a cadeia de fast-food McDonald&#8217;s como parceiros oficiais da Fifa. Segundo os autores do artigo, a entidade tem a obriga\u00e7\u00e3o de evitar relacionamentos com patrocinadores que n\u00e3o sejam adequados. Ap\u00f3s a Copa de 2002, a Fifa recebeu uma premia\u00e7\u00e3o pelo combate ao fumo por ter feito o torneio com severas restri\u00e7\u00f5es a fumantes e rejeitando anunciantes ligados a empresas de tabaco.<\/p>\n<p>Na Copa da Fran\u00e7a, em 1998, os an\u00fancios de bebidas alco\u00f3licas ficaram fora dos est\u00e1dios. E nem por isso os franceses deixaram de mandar a campo um time impressionante. O lema da Copa, C est beau, un monde qui joue (\u00c9 bonito, um mundo que joga), completava aquela combina\u00e7\u00e3o de esporte e lazer. Mas era um esfor\u00e7o isolado. Ali perto, na Inglaterra, a Federa\u00e7\u00e3o Inglesa de Futebol j\u00e1 era patrocinada pelo McDonald&#8217;s. O futebol do pa\u00eds est\u00e1 tomado por grupos econ\u00f4micos \u2014 alguns deles operando com dinheiro de duvidosa proced\u00eancia.<\/p>\n<p>O renascimento do futebol no Reino Unido aconteceu a partir de 1992, quando o magnata da m\u00eddia Rupert Murdoch e a British Sky Broadcasting investiram milh\u00f5es de libras esterlinas, pagando pelos direitos de transmiss\u00e3o ao vivo das partidas (at\u00e9 aquele momento, n\u00e3o havia cobertura ao vivo dos jogos das equipes inglesas) \u2014 um modelo copiado em v\u00e1rios lugares, inclusive no Brasil.<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1, evidentemente, motivos para protestos, como ressaltou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Segundo ele, o governo federal est\u00e1 preocupado com o encarecimento dos ingressos nos novos est\u00e1dios. &#8220;N\u00e3o queremos que a popula\u00e7\u00e3o mais pobre do pa\u00eds, que est\u00e1 mais ligada ao futebol, seja afastada dos est\u00e1dios. \u00c9 preciso compatibilizar o acesso entre eles e o torcedor de poder aquisitivo mais alto&#8221;, disse o ministro.<\/p>\n<p>Aldo Rebelo considera a possibilidade de alguma interven\u00e7\u00e3o do governo para garantir ingressos mais baratos, a exemplo do que aconteceu na Copa das Confedera\u00e7\u00f5es e na Copa do Mundo, com a cria\u00e7\u00e3o de quatro categorias e a doa\u00e7\u00e3o de 50 mil ingressos para benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia e ind\u00edgenas. Segundo o secret\u00e1rio-geral da Fifa, J\u00e9r\u00f4me Valcke, na Copa os ingressos ser\u00e3o os mais baratos da hist\u00f3ria da competi\u00e7\u00e3o. A entidade m\u00e1xima do futebol informou que tudo ser\u00e1 divulgado no pr\u00f3ximo dia 19 de julho. (Em 2010, na \u00c1frica do Sul, o bilhete com custo menor foi de US$ 20 \u2014 cerca de R$ 44.)<\/p>\n<p>O dilema sobre o papel cultural do futebol no Brasil \u00e9 antigo. Em 1921, Lima Barreto escreveu: \u201cQuando n\u00e3o havia futebol, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte. Mas apareceu o futebol dirigido por um \u2018ministreco\u2019 enfatuado e sequioso de celebridade, logo tal esporte bret\u00e3o, de v\u00e1rios modos, cavou uma separa\u00e7\u00e3o idiota entre os brasileiros. \u00c9 a miss\u00e3o dele. De modo que ela, a tal separa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe no Senado, na C\u00e2mara, nos cargos p\u00fablicos, no Ex\u00e9rcito, na magistratura, no minist\u00e9rio; mas existe no transcendente futebol. Benem\u00e9rito futebol. E ainda dizer-se que o governo d\u00e1 gordas subven\u00e7\u00f5es aos perversos de semelhante brutalidade, para eles insultarem e humilharem quase a metade da popula\u00e7\u00e3o do Brasil \u2014 \u00e9 o c\u00famulo! E note-se que o dinheiro que o governo lhes d\u00e1, prov\u00e9m de impostos que todos pagam, brancos, pretos e mulatos. Dinheiro n\u00e3o tem cheiro, afirmava Vespasiano.\u201d<\/p>\n<p>Em 1922, o mesmo Lima Barreto, j\u00e1 balan\u00e7ado pela populariza\u00e7\u00e3o do futebol, relatou: \u201cO futebol flagela tamb\u00e9m aquelas paragens como faz o Rio de Janeiro inteiro. Os clubes pululam e os h\u00e1 em cada terreno baldio de certa extens\u00e3o. Nunca lhes vi uma partida, mas sei que as suas regras de bom tom em nada ficam a dever \u00e0s dos cong\u00eaneres dos bairros elegantes. A \u00fanica novidade que notei, e essa mesmo n\u00e3o me parece ser grave, foi a de festejarem a vit\u00f3ria sobre um rival, cantando os vencedores pelas ruas, com gambitos nus, a sua proeza hom\u00e9rica com letra e m\u00fasica de escola dos cord\u00f5es carnavalescos. Vi isso s\u00f3 uma vez e n\u00e3o garanto que essa hibrida\u00e7\u00e3o do samba, mais ou menos africano com o futebol anglo-sax\u00e3o, se haja generalizado nos sub\u00farbios. Pode ser, mas n\u00e3o tenho documentos para tanto afian\u00e7ar.\u201d<\/p>\n<p>Recentemente, o ministro Aldo Rebelo fez uma tirada que explica bem esse dilema ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de que o Est\u00e1dio Nacional de Bras\u00edlia se transforme em \u201celefante branco\u201d ap\u00f3s a Copa: &#8220;A opini\u00e3o desse pessoal n\u00e3o \u00e9 que o est\u00e1dio \u00e9 um elefante branco. Acham que Bras\u00edlia, a cidade em si, \u00e9 um elefante branco. Acham que, no fundo, o Brasil \u00e9 um elefante branco, que talvez o Brasil n\u00e3o tivesse nem de ter sa\u00eddo do status de col\u00f4nia. Para eles, continuaria sendo col\u00f4nia, e de prefer\u00eancia que n\u00e3o fosse portuguesa, mas francesa ou brit\u00e2nica. Sentem inveja da Guiana e outros pa\u00edses que s\u00e3o col\u00f4nia at\u00e9 hoje.&#8221;<\/p>\n<p>Em seu tempo, Lima Barreto tinha a mesma opini\u00e3o: \u201cN\u00f3s, os brasileiros, somos como Robinsons \u2014 estamos sempre \u00e0 espera do navio que nos venha buscar da ilha a que um n\u00e1ufrago nos atirou.\u201d<\/p>\n<p>*Osvaldo Bertolino \u00e9 jornalista, editor do Portal Grabois e colaborador da Revista Princ\u00edpios.<\/p>\n<p>**Este artigo foi publicado no encarte O Grito das Ruas em Disputa, da revista Princ\u00edpios, edi\u00e7\u00e3o 125, de junho-julho de 2013.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portal Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futebol como arte popular \u00e9 um conceito quase un\u00e2nime no Brasil. 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