{"id":65078,"date":"2019-01-31T07:28:09","date_gmt":"2019-01-31T10:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=65078"},"modified":"2019-01-31T07:28:09","modified_gmt":"2019-01-31T10:28:09","slug":"kerison-lopes-brumadinho-mariana-e-os-crimes-da-vale-privatizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=65078","title":{"rendered":"Kerison Lopes: Brumadinho, Mariana e os crimes da Vale privatizada"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"single-subtitle\">\u00a0Tamb\u00e9m aqui impactado com as not\u00edcias que chegam a cada minuto de Brumadinho, minha mem\u00f3ria remeteu-me a 1997. Gra\u00e7as \u00e0 uma imagem da capa de uma edi\u00e7\u00e3o da Folha de S\u00e3o Paulo daquele ano que circula pela internet. Nela, estou com o nariz sangrando trocando porrada (em desvantagem) com policiais militares no Rio de Janeiro, em frente \u00e0 Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.<\/h2>\n<div class=\"box-imagem-topo\">\n<address>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Folha de S\u00e3o Paulo<\/address>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/kerison_folha_de_sp128764.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img decoding=\"async\" title=\"\u00a0\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/kerison_folha_de_sp128764.jpg\" alt=\"\u00a0\" \/><\/a><\/div>\n<div id=\"txt_home\" class=\"htmlchars\" style=\"text-align: justify;\">Eu era presidente da Uni\u00e3o Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e do meu lado aparece o ent\u00e3o deputado federal Lindbergh Farias e outros militantes pol\u00edticos e dos movimentos sociais que enfrentavam os meganhas. Dentro do pr\u00e9dio, ocorria uma tentativa de privatiza\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o chamada Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).<\/p>\n<p>Era tempos de implementa\u00e7\u00e3o do programa neoliberal privatizante comandado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. E a Vale era a cereja do bolo, a maior empresa brasileira j\u00e1 privatizada. Mais do que uma empresa, pois a cr\u00edtica principal que faz\u00edamos na \u00e9poca era que com ela, estavam privatizando nosso subsolo. Quando foi vendida, a Vale tinha 351.723 km\u00b2 de \u00e1reas de pesquisa e lavra de min\u00e9rios. Uma \u00e1rea maior que o conjunto dos estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Fundada por Get\u00falio Vargas, quando privatizada, formava um conjunto de 27 empresas, realizando prospec\u00e7\u00e3o do subsolo, transporte ferrovi\u00e1rio extra\u00e7\u00e3o e processamento de min\u00e9rios e sofisticadas atividades de qu\u00edmica fina. Assim como a Petrobr\u00e1s \u00e9 uma empresa de ponta na prospec\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em \u00e1guas profundas, a Vale na \u00e9poca era destaque no mundo em tecnologia e na pesquisa e explora\u00e7\u00e3o do subsolo. E o mais importante: nos 55 anos em que foi estatal (1942-1997) nunca cometeu um crime ambiental como o que praticou agora em Brumadinho e h\u00e1 pouco em Mariana.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/vale2128763.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/vale2128763.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><\/p>\n<p>Privatizada, a Vale virou uma mera furadeira de buracos e exportadora de produto prim\u00e1rio, como min\u00e9rio bruto. Jogou fora um ac\u00famulo de pesquisas minerais que come\u00e7aram muito antes de Get\u00falio Vargas. Ainda nos tempos de col\u00f4nia, a Coroa Portuguesa sempre se preocupou em agregar valor \u00e0 extra\u00e7\u00e3o mineral. Brasileiros eram enviados para \u201cmiss\u00f5es cient\u00edficas\u201d em outros pa\u00edses, para aprenderem e desenvolverem nossa minera\u00e7\u00e3o. \u00c9 famosa a viagem que Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e Manuel Ferreira, conhecido como Intendente C\u00e2mara, fizeram na segunda metade do s\u00e9culo XVIII por v\u00e1rios pa\u00edses da Europa para pesquisarem o que mais avan\u00e7ado havia em tecnologia de extra\u00e7\u00e3o mineral.<\/p>\n<p>S\u00f3 na Alemanha, ficaram dois anos estudando na famosa Escola de Minera\u00e7\u00e3o e Metalurgia Bergakademie Freiberg, que era o maior centro especializado em minera\u00e7\u00e3o do mundo. Na \u00e9poca, haviam se formado na Universidade de Coimbra e ap\u00f3s quase uma d\u00e9cada de viagens e pesquisas, Intendente C\u00e2mara voltou para o Brasil para implantar o programa brasileiro de minera\u00e7\u00e3o. Foi ele que, ao vir pra Minas Gerais, percebeu o potencial da regi\u00e3o do Vale do Rio Doce para a extra\u00e7\u00e3o mineral. Pode-se dizer que foi um vision\u00e1rio da companhia criada s\u00e9culos depois.<\/p>\n<p>A Vale foi fundada no per\u00edodo desenvolvimentista de Get\u00falio Vargas \u00e9 herdeira deste ac\u00famulo tecnol\u00f3gico. Antes do presidente ga\u00facho, houve a importante decis\u00e3o de Arthur Bernardes, que presidiu o pa\u00eds de 1922 a 26, de lutar pela nacionaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o mineral. No per\u00edodo do seu governo, a empresa que foi base para a cria\u00e7\u00e3o da Vale, a Itabira Iron Ore, pertencia ao norte-americano Percival Farquhar. O sonho de Bernardes s\u00f3 se concretizou em 1942 e foi gra\u00e7as ao per\u00edodo belicoso da 2a Guerra Mundial. Os pa\u00edses aliados, principalmente Inglaterra e Estados Unidos, precisavam assegurar a aquisi\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro para alimentar suas ind\u00fastrias b\u00e9licas e viam no Brasil o exportador ideal. Forneceram os recursos necess\u00e1rios para a estatiza\u00e7\u00e3o da Itabira Iron Ore. Gra\u00e7as a isso, a Vale do Rio Doce foi fundada em 1\u00ba de junho de 1942.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/vale2128719.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/vale2128719.jpg\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"225\" align=\"left\" \/><\/a>Findada a guerra, Get\u00falio Vargas tratou de ampliar as atividades da empresa. Tanto geograficamente, al\u00e9m de Minas Gerais, quanto ao seu ramo de atividades. Os presidentes seguintes mantiveram a expans\u00e3o da empresa, que na d\u00e9cada de 80 ganhou grande impulso com a entrada em opera\u00e7\u00e3o da mina de ferro de Caraj\u00e1s, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Os s\u00e9culos de investimento em pesquisa e explora\u00e7\u00e3o, fizeram da Vale o maior conglomerado mineral do mundo. Quando assumiu a presid\u00eancia, Fernando Henrique discursou dizendo que fora eleito para acabar com a Era Vargas. E sua principal a\u00e7\u00e3o neste sentido foi acabar com a Vale do Rio Doce. Al\u00e9m de um crime de lesa-p\u00e1tria, foi o maior esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria. Foi vendida por US$ 3,3 bilh\u00f5es, quando somente as suas reservas minerais eram calculadas em mais de US$ 100 bilh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca. Foi adquirida por um cons\u00f3rcio liderado pelo Banco Opportunity, que tinha \u00e0 frente o banqueiro Ricardo S\u00e9rgio, muito vezes denunciado por corrup\u00e7\u00e3o durante os governos FHC. Para consumar o neg\u00f3cio, ele criou o Sweet River Fund (Fundo Rio Doce) que atraiu cotistas no exterior.<\/p>\n<p>A empresa passou ent\u00e3o a ser controlada pelo capital financeiro e internacional, com o \u00fanico objetivo de extrair lucro bruto. Para isso, concentrou sua atividade em exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio, sem nenhum beneficiamento dos produtos, intensificando o esgotamento das reservais minerais, ao lado de impactos no meio ambiente. Se resumiu na atividade extrativista, sem nenhum efeito multiplicador em termos de emprego e de dinamismo econ\u00f4mico. Da mais avan\u00e7ada em tecnologia de ponta no mundo, a empresa se resume hoje numa companhia especializada em cavar buraco.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/bessinha128723.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/bessinha128723.jpg\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"285\" align=\"right\" \/><\/a>Esta voca\u00e7\u00e3o extrativista come\u00e7ou a ser implementada logo ap\u00f3s sua privatiza\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou com a altera\u00e7\u00e3o do nome. Antes Companhia Vale do Rio Doce, passou a se chamar apenas Vale. Primeiro, tirou o Rio Doce do nome. Depois, tirou o pr\u00f3prio Rio Doce do mapa, pois o crime ambiental praticado pela sua subsidi\u00e1ria Samarco em Mariana destruiu aquele que era uma dos principais rios do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Visando o lucro bruto e imediato, a Vale, depois de privatizada, ganhou uma nova voca\u00e7\u00e3o: de empresa assassina. E quem mais sofre s\u00e3o os mineiros, que j\u00e1 carregam no nome a atividade mais desenvolvida aqui desde a chegada dos portugueses. Pelo n\u00famero de v\u00edtimas, os crimes ambientais mais famosos s\u00e3o os praticados em Mariana e agora em Brumadinho. Mas \u00e9 importante registrar que a cada dois anos, uma barragem de mineradora rompe-se em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Antes uma grande impulsionadora da economia mineira, hoje a Vale apenas explora a extra\u00e7\u00e3o mineral, destruindo nossas montanhas e matando nosso povo. Brumadinho foi o \u00e1pice desta pol\u00edtica predat\u00f3ria. Com certeza o crime vai fazer mais de 300 v\u00edtimas, grande maioria trabalhadores da empresa. Ilude-se quem pensa que a trag\u00e9dia vai mudar seu comportamento. 19 vidas foram tiradas em Mariana, al\u00e9m do maior dano ambiental da hist\u00f3ria. Passados tr\u00eas anos do ocorrido, as fam\u00edlias n\u00e3o foram indenizadas, nenhuma casa foi reconstru\u00edda. Um fundo de bilh\u00f5es foi criado para a recupera\u00e7\u00e3o da natureza nos entornos de onde passou a lama, mas a empresa teve o desplante de criar uma entidade ambiental, a Renova, para gastar o dinheiro arrecadado para o fundo. E ela que d\u00e1 as cartas.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s ocorrido o crime de Mariana, ganhou for\u00e7a um movimento que defendia a reestatiza\u00e7\u00e3o da Vale. Mas o Brasil mudou muito nos \u00faltimos anos. Parte dos governantes eleitos pelas urnas do ano passado defendem um modelo de privatiza\u00e7\u00e3o selvagem. Em Minas, ganhou um governador, Romeu Zema (Novo), que teve a privatiza\u00e7\u00e3o como principal bandeira. Bolsonaro tamb\u00e9m apresentou um programa privatizante e criou um minist\u00e9rio com esse \u00fanico objetivo, que se chama Secretaria de Desestatiza\u00e7\u00e3o e Desinvestimentos do Governo Federal. Isso mesmo \u201cDesenvestimentos\u201d, quem diria que ap\u00f3s s\u00e9culos desenvolvendo uma na\u00e7\u00e3o com investimentos, criar\u00edamos um minist\u00e9rio com o objetivo de desinvestir.<\/p>\n<p>Bolsonaro nomeou para o posto o empres\u00e1rio mineiro Salim Mattar, dono da locadora de carros Localiza. Nesta ter\u00e7a-feira (29), em evento do banco Credit Suisse, Mattar afirmou que vai privatizar ou extinguir todas as estatais brasileiras na sua totalidade e apenas Banco do Brasil, Caixa e Petrobr\u00e1s ter\u00e3o pequenos segmentos preservados. Atualmente, a Uni\u00e3o tem 138 estatais sob sua gest\u00e3o. Questionado se privatiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam causar trag\u00e9dias como no caso da Vale, Mattar fez uma defesa enf\u00e1tica da empresa, dizendo que \u201ca companhia n\u00e3o fez mal a ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/brumadinho_stuckert.jpg128717.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/brumadinho_stuckert.jpg128717.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"337\" align=\"absMiddle\" \/><\/a><\/div>\n<p>Em uma plen\u00e1ria da Frente Brasil Popular, realizada na \u00faltima segunda-feira em Belo Horizonte, foi aprovada uma bandeira de reestatiza\u00e7\u00e3o da Vale. Essa luta pode ter um sentido pedag\u00f3gico, mas soa ut\u00f3pica em tempos atuais. Talvez mais importante \u00e9 resgatar o movimento contra as privatiza\u00e7\u00f5es, usando o exemplo de Brumadinho para mostrar os males que a venda de patrim\u00f4nio p\u00fablico pode causar.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 foto da capa da Folha de SP, que citei no in\u00edcio do artigo, a manifesta\u00e7\u00e3o que realizamos em frente a Bolsa de Valores em 1997, contra a privatiza\u00e7\u00e3o da Vale, foi o resultado do ac\u00famulo de um amplo movimento que envolveu milhares de entidades em todo o pa\u00eds. Num per\u00edodo em que a mobiliza\u00e7\u00e3o popular era nossa prioridade. Que o crime praticado pela Vale em Brumadinho pelo menos sirva pra despertar o povo brasileiro para os riscos das privatiza\u00e7\u00f5es desenfreadas e da entrega no nosso patrim\u00f4nio, principalmente o caso da Petrobr\u00e1s, a maior empresa p\u00fablica nacional. E que a como\u00e7\u00e3o que gerou se transforme em luta em defesa do Brasil e do nosso povo, que est\u00e1 pagando com a pr\u00f3pria vida pela gan\u00e2ncia do capital e o entreguismo de seus governantes.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Portal Vermelho<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Tamb\u00e9m aqui impactado com as not\u00edcias que chegam a cada minuto de Brumadinho, minha mem\u00f3ria remeteu-me a 1997. 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