{"id":65507,"date":"2019-02-13T07:36:48","date_gmt":"2019-02-13T10:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=65507"},"modified":"2019-02-13T07:36:48","modified_gmt":"2019-02-13T10:36:48","slug":"o-acordo-penal-de-moro-abusivo-nos-eua-nao-serve-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=65507","title":{"rendered":"O acordo penal de Moro, abusivo nos EUA, n\u00e3o serve para o Brasil"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"single-subtitle\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Por causa do &#8220;plea bargain&#8221;, o sistema de Justi\u00e7a poder\u00e1 rapidamente incriminar milhares de pessoas a cada ano&#8221;.<\/p>\n<p>Por Maria Carolina Trevisan*<\/h2>\n<div class=\"box-imagem-topo\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>\u00a0<\/address>\n<p><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/1-presidio129005.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img decoding=\"async\" title=\"\u00a0\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/1-presidio129005.jpg\" alt=\"\u00a0\" \/><\/a><\/div>\n<div id=\"txt_home\" class=\"htmlchars\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0Divulgada nesta segunda (11), a pesquisa \u201cQuem somos. A magistratura que queremos\u201d, da Associa\u00e7\u00e3o de Magistrados Brasileiros, concluiu que 92,2% dos magistrados de segundo grau s\u00e3o a favor do instituto do &#8220;plea bargain&#8221;, uma esp\u00e9cie de acordo penal, em que o Minist\u00e9rio P\u00fablico oferece um acordo em troca, supostamente, de uma pena melhor ao acusado. A proposta est\u00e1 inclu\u00edda no pacote anticrime do ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, Sergio Moro. A entidade ouviu 4 mil membros da classe, entre os quais ministros de tribunais superiores e do Supremo.<\/p>\n<p>Se por um lado a medida pode encurtar o tempo dos processos, desburocratizar o sistema e (talvez) economizar dinheiro p\u00fablico, por outro pode estimular o encarceramento em massa, prender inocentes e conferir superpoderes ao Minist\u00e9rio P\u00fablico. &#8220;A depender do arranjo, o plea bargain poderia funcionar em pa\u00edses cujo direito de defesa \u00e9 amplo, consolidado e pode ser acessado por qualquer cidad\u00e3o, independente de sua classe social e cor&#8221;, afirma Ma\u00edra Machado, professora de Direito Penal da FGV em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o que acontece no Brasil. De acordo com a Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Defensoras e Defensores P\u00fablicos (Anadep), existem cerca de 6 mil profissionais dedicados a representar pessoas que n\u00e3o podem subsidiar a pr\u00f3pria defesa. Para que esse direito estivesse assegurado, seria necess\u00e1rio haver o dobro de defensores, aponta a Anadep. No Paran\u00e1, por exemplo, existe um defensor p\u00fablico para cada 53.147 pessoas. Em nota, a Anadep expressou preocupa\u00e7\u00e3o com o pacote anticrime: &#8220;o texto apresentado preocupa por flexibilizar direitos e garantias fundamentais assegurados na Constitui\u00e7\u00e3o Federal e em tratados internacionais de direitos humanos. Princ\u00edpios como o da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, devido processo legal, ampla defesa, al\u00e9m do princ\u00edpio da individualiza\u00e7\u00e3o da pena n\u00e3o podem ser relativizados&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a seletividade racial. Estudos acad\u00eamicos atestam que r\u00e9us brancos t\u00eam maiores chances obter melhores acordos do que os negros. &#8220;Essa seletividade se manifesta na a\u00e7\u00e3o policial, que resulta na discrimina\u00e7\u00e3o dos que entram no sistema de justi\u00e7a, e perdura nas decis\u00f5es judiciais, com taxas mais altas de decreta\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o preventiva para a popula\u00e7\u00e3o negra&#8221;, demonstra o relat\u00f3rio &#8220;Audi\u00eancias de cust\u00f3dia &#8211; um panorama nacional&#8221;, do Instituto de Defesa do Direito de Defesa. &#8220;Trata-se de um rigor violento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas desfavorecidas e negras e complac\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a crimes do colarinho branco&#8221;, afirma Diogo Cabral, advogado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Em suma, a medida deve aumentar o encarceramento dessas pessoas.<\/p>\n<p><b>Encarceramento em massa<\/b><\/p>\n<p>No pacote de Moro h\u00e1 duas circunst\u00e2ncias em que esses acordos penais podem ser estabelecidos. Em situa\u00e7\u00f5es sem gravidade ou viol\u00eancia, com pena inferior a quatro anos, a barganha estabelece o cumprimento de medidas alternativas como servi\u00e7os comunit\u00e1rios e pagamento de multa, sem pris\u00e3o. Em casos em que a pena chega a quatro anos, como furto, a troca prev\u00ea pris\u00e3o sob alega\u00e7\u00e3o de se tratar de uma diminui\u00e7\u00e3o da pena. Mas na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 bem assim. Diante da imin\u00eancia de se submeterem a uma condena\u00e7\u00e3o rigorosa, pessoas acusadas &#8211; culpadas ou inocentes &#8211; podem negociar em condi\u00e7\u00f5es desiguais e abrir m\u00e3o de garantias. Al\u00e9m disso, para terem acesso ao &#8220;plea bargain&#8221; as pessoas precisam se declarar culpadas.<\/p>\n<p>&#8220;Tirar a liberdade de algu\u00e9m \u00e9 algo muito delicado. Isso s\u00f3 deve ser feito quando houver elementos que mostrem essa necessidade, como provas. Mas nesse est\u00e1gio do acordo proposto por Moro n\u00e3o h\u00e1 provas&#8221;, explica Thiago Bottino, professor de Direito Penal da FGV Direito Rio.<\/p>\n<p>No acordo proposto por Moro, a justi\u00e7a prenderia algu\u00e9m \u00fanica e exclusivamente com base na palavra dessa pr\u00f3pria pessoa. &#8220;H\u00e1 casos de pessoas que confessam crimes que s\u00e3o praticados por outros. Por exemplo, um pai que confessa o crime do filho e vice-versa, um preso que j\u00e1 tem pena longa e assume crimes que ele n\u00e3o praticou em troca de uma condi\u00e7\u00e3o mais tranquila dentro do pres\u00eddio e h\u00e1 ainda pessoas que s\u00e3o for\u00e7adas a se declarar culpadas. A \u00fanica forma de n\u00e3o ser enganado e iludido por isso \u00e9 investigar e produzir provas&#8221; afirma Bottino.<\/p>\n<p>\u00c9 uma l\u00f3gica pode acabar gerando mais pris\u00f5es &#8211; inclusive de inocentes. Essa possibilidade contraria o objetivo da medida, que \u00e9 gastar menos tempo e menos recursos p\u00fablicos. Acontece que manter pessoas presas \u00e9 muito mais caro do que pagar os processos judiciais.<\/p>\n<p><b>&#8220;Plea Bargain&#8221; nos Estados Unidos<\/b><\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/black-defendant129006.jpg\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/black-defendant129006.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"288\" align=\"absMiddle\" \/><\/a><\/div>\n<p>A proposta de Moro \u00e9 inspirada em um dispositivo semelhante que existe nos Estados Unidos desde 1970. O mecanismo \u00e9 apontado como uma das principais alavancas que fazem do pa\u00eds o campe\u00e3o mundial de popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria: 2,3 milh\u00f5es de pessoas vivem nas pris\u00f5es americanas. A maioria, como no Brasil, \u00e9 negra e pobre e foi condenada por meio de acordos penais (cerca de 95% dos casos). Muitas delas n\u00e3o seriam condenadas se tivessem acesso a um julgamento. Grande parte cometeu o crime de tr\u00e1fico de drogas, mas n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com o crime organizado e n\u00e3o foram violentas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 pueril acreditar que a barganha processual penal apresentada pelo ministro Moro n\u00e3o acarretar\u00e1 em um excesso acusat\u00f3rio suscet\u00edvel a injusti\u00e7as atrozes&#8221;, afirma a advogada criminalista Daniella Meggiolaro, diretora do IDDD. &#8220;A viv\u00eancia nos Estados Unidos j\u00e1 provou que o excesso acusat\u00f3rio \u00e9 recorrente e pode acabar prendendo pessoas inocentes. Por que o Brasil, agora, deve insistir no mesmo erro?&#8221;<\/p>\n<p><i><b>&#8220;N\u00e3o se pode tirar a liberdade de algu\u00e9m sem provas&#8221;, diz Bottino<\/b><\/i><\/p>\n<p>\u00c9 uma boa pergunta. A resposta talvez seja a busca pelo lucro com pres\u00eddios. &#8220;Nos Estados Unidos, as empresas que exploram esse setor se tornaram as mais lucrativas, com a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Valores e lobby junto ao Congresso&#8221;, diz Bottino. &#8220;Geram mais penas e obt\u00eam mais lucro, enquanto o Estado gasta mal seus recursos.&#8221;<\/p>\n<p>Acostumado a acompanhar casos de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos nos pres\u00eddios, Cabral, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, chama a aten\u00e7\u00e3o para os perigos com a gest\u00e3o privada de pres\u00eddios. &#8220;Para empresas que exploram o setor de pres\u00eddios, encarcerar \u00e9 muito lucrativo. \u00c9 uma m\u00e1quina que envolve muitos contratos&#8221;, alerta. &#8220;Essas medidas v\u00e3o acentuar com muita velocidade a mis\u00e9ria no pa\u00eds, assim como o padr\u00e3o de viol\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p><b>Fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias<\/b><\/p>\n<p>Os quatro especialistas entrevistados para esta reportagem concordam que, de maneira geral, o pacote de Sergio Moro n\u00e3o busca enfrentar o problema das fac\u00e7\u00f5es criminosas e das mil\u00edcias. Ao contr\u00e1rio. Sabe-se muito bem que quanto mais gente presa, mais muni\u00e7\u00e3o, m\u00e3o de obra e dinheiro para o crime organizado. Mesmo quem \u00e9 inocente e aguarda julgamento, se n\u00e3o se submeter \u00e0s regras impostas pelos grupos que controlam os pres\u00eddios, n\u00e3o tem acesso a sabonete, camiseta limpa e sofre amea\u00e7as dentro e fora da cadeia.<\/p>\n<p><i><b>&#8220;Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mil\u00edcias, por exemplo, n\u00e3o seria o caso de transferir o crime de mil\u00edcia para a compet\u00eancia da Pol\u00edcia Federal uma vez que, sabemos, a mil\u00edcia \u00e9 formada por agentes das for\u00e7as de seguran\u00e7a estaduais, como policiais militares, policiais civis, bombeiros, agentes penitenci\u00e1rios?&#8221;, diz Thiago Bottino.\u00a0<\/b><\/i><\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 pensar seguran\u00e7a p\u00fablica, \u00e9 pensar como o sistema conseguir\u00e1 reduzir esse tipo de crime. O direito penal n\u00e3o est\u00e1 pensando nisso. Est\u00e1 pensando em como punir. Mas o direito penal chega sempre atrasado, depois que o crime aconteceu. Como voc\u00ea desorganiza esse tipo de organiza\u00e7\u00e3o criminosa? Moro n\u00e3o enfrentou o tema mais dif\u00edcil e mais urgente que \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica&#8221;, afirma Bottino.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m de uma altera\u00e7\u00e3o legislativa, o ministro teria que incentivar o treinamento das pol\u00edcias para prevenir a viol\u00eancia desnecess\u00e1ria, investir nas defensorias para ampliar o direito de defesa, propor mudan\u00e7as que levassem a menos encarceramento e articular melhor os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a. Tamb\u00e9m teria que regulamentar a interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a p\u00fablica, para que d\u00ea resultados. N\u00e3o basta nomear mil\u00edcia e fac\u00e7\u00e3o como &#8220;organiza\u00e7\u00f5es criminosas&#8221; para enfrent\u00e1-las. O plano, tal como est\u00e1, incentiva o combate \u00e0 viol\u00eancia com mais viol\u00eancia e tende a acentuar a desigualdade social e o racismo estrutural do nosso pa\u00eds, ao promover o encarceramento em massa. O sistema penitenci\u00e1rio, como o pr\u00f3prio Supremo reconheceu, \u00e9 incompat\u00edvel com a dignidade humana.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/plea_bargain129007.png\" rel=\"shadowbox[gb]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/plea_bargain129007.png\" alt=\"\" width=\"555\" height=\"370\" align=\"absMiddle\" \/><\/a><\/div>\n<p>Por causa do &#8220;plea bargain&#8221;, o sistema de Justi\u00e7a poder\u00e1 rapidamente incriminar milhares de pessoas a cada ano. Ele facilita que procuradores considerem um suspeito como culpado, mesmo sem que represente perigo \u00e0 sociedade como aquela pessoa que vai presa porque roubou um shampoo. Pior ainda, correremos o risco de prender mais inocentes.<\/p>\n<p><i>*Maria Carolina Trevisan \u00e9 jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, pol\u00edticas p\u00fablicas sociais e democracia.<\/p>\n<p><\/i><a href=\"https:\/\/mariacarolinatrevisan.blogosfera.uol.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fonte: Blog da autora<\/a><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Por causa do &#8220;plea bargain&#8221;, o sistema de Justi\u00e7a poder\u00e1 rapidamente incriminar milhares de pessoas a cada ano&#8221;. 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