{"id":67025,"date":"2019-04-11T08:25:30","date_gmt":"2019-04-11T11:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=67025"},"modified":"2019-04-10T17:23:35","modified_gmt":"2019-04-10T20:23:35","slug":"acordo-com-eua-sobre-base-de-alcantara-e-copia-e-cola-de-contrato-rejeitado-em-2001","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=67025","title":{"rendered":"Acordo com EUA sobre base de Alc\u00e2ntara \u00e9 \u201ccopia e cola\u201d de contrato rejeitado em 2001"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm8.staticflickr.com\/7896\/33698624448_53a55d7b8e_z.jpg\" alt=\"Brasil cede a Trump o melhor local do mundo para lan\u00e7ar sat\u00e9lites - Cr\u00e9ditos: Divulga\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<p>Logo nos primeiros tr\u00eas meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e sua equipe articularam a assinatura dos termos do Acordo de Salvaguardas Tecnol\u00f3gicas (AST), que concedeu o uso comercial da base de Alc\u00e2ntara, no Maranh\u00e3o, para os Estados Unidos. Os esfor\u00e7os para concretizar o acordo foram retomados pelo governo de Michel Temer (MDB) em 2016, ap\u00f3s duas tentativas frustradas: no Congresso Nacional, em 2001, e por meio de plebiscito, na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>A proposta original do governo estadunidense era proibir a utiliza\u00e7\u00e3o da base pelo Brasil, devido \u00e0 confidencialidade tecnol\u00f3gica. Por\u00e9m, os representantes do governo Bolsonaro alegam que o novo acordo n\u00e3o fere a autonomia brasileira e que trar\u00e1 muitos ganhos para o pa\u00eds. Fl\u00e1vio Rocha, professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante do grupo de estudos Observat\u00f3rio da Pol\u00edtica Externa do Brasil, analisou a \u00edntegra dos termos.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Brasil de Fato, o especialista em geopol\u00edtica explica as diferen\u00e7as entre os acordos e como a negocia\u00e7\u00e3o pode impactar o Brasil. Segundo ele, o pa\u00eds est\u00e1 abrindo m\u00e3o \u2014 no curto, m\u00e9dio e longo prazo \u2014 de estabelecer parcerias com pa\u00edses que n\u00e3o sejam alinhados com os Estados Unidos, o que pode prejudicar a rela\u00e7\u00e3o com a China, principal destino das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras. \u201cOs Estados Unidos n\u00e3o v\u00e3o conseguir cumprir o papel da China na pauta econ\u00f4mica brasileira e, de fato, isto vai impactar nas concep\u00e7\u00f5es de soberania do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Ele avalia que as consequ\u00eancias da subordina\u00e7\u00e3o brasileira ao governo estadunidense podem perdurar por anos e prejudicar o desenvolvimento tecnol\u00f3gico do espa\u00e7o no caso brasileiro. \u201cO que a gente come\u00e7a a suspeitar \u00e9 que t\u00eam grupos localizados dentro do governo Bolsonaro que est\u00e3o ganhando com essa aproxima\u00e7\u00e3o, como alguns grupos militares que est\u00e3o interessados em moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica no padr\u00e3o OTAN. Existem grupos no setor financista apoiadores de Bolsonaro que est\u00e3o interessados no alinhamento com os Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE\u201d.<\/p>\n<p>Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Qual sua opini\u00e3o sobre o novo acordo da base de Alc\u00e2ntara, assinado por Jair Bolsonaro e Donald Trump nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Rocha: <\/strong>Ap\u00f3s estud\u00e1-lo, a conclus\u00e3o que chegamos \u00e9 que o acordo \u00e9 muito restritivo em qualquer possibilidade brasileira de desenvolver, principalmente, o ve\u00edculo lan\u00e7ador de sat\u00e9lites. \u00c9 um acordo que, ao fim e ao cabo, derrota qualquer possibilidade de um programa espacial brasileiro aut\u00eantico \u00e0s nossas necessidades em prol da utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o por parte dos Estados Unidos. Ou seja, mesmo o tipo de tecnologia que a gente viria a desenvolver vai ser dentro de uma l\u00f3gica feita para atender os interesses dos Estados Unidos. Ent\u00e3o, a nossa conclus\u00e3o \u00e9 que esse acordo n\u00e3o \u00e9 bom para o Brasil a m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p><strong>No novo texto, os porta vozes do governo brasileiro alegaram que a express\u00e3o \u201c\u00e1rea segregada\u201d foi substitu\u00edda para \u201c\u00e1rea restrita\u201d, para tentar abafar cr\u00edticas que questionam a autonomia do pa\u00eds perante o acordo comercial com os Estados Unidos. Essa altera\u00e7\u00e3o foi feita?<\/strong><\/p>\n<p>Comparamos esse acordo com um que foi assinado em 2001, na \u00e9poca do governo Fernando Henrique Cardoso, e que acabou n\u00e3o sendo ratificado pelo Congresso Nacional. No lugar, um tempo depois, foi assinado o acordo com a Ucr\u00e2nia, que tamb\u00e9m, por in\u00fameras raz\u00f5es, n\u00e3o vingou. Mas, na compara\u00e7\u00e3o entre o acordo de hoje e o dos Estados Unidos, quando se p\u00f5e os dois documentos de lado \u00e9 quase que um copia e cola. A maior parte das express\u00f5es, dos termos dos acordos s\u00e3o id\u00eanticos, a come\u00e7ar pelos objetivos do acordo tecnol\u00f3gico que saiu agora, que \u00e9 impedir que tecnologia dos Estados Unidos vaze ou seja aproveitada pelo Brasil ou por qualquer ator na utiliza\u00e7\u00e3o na base de Alc\u00e2ntara.<\/p>\n<p>Na compara\u00e7\u00e3o, o novo acordo at\u00e9 tem alguns termos mais suaves, mas, a rigor, \u00e9 o mesmo acordo, n\u00e3o tem avan\u00e7o. Por exemplo, quando a gente estuda uma das quest\u00f5es que deu problema naquela \u00e9poca, no ano de 2001 \u2014 e que est\u00e1 dando o que falar agora \u2014 \u00e9 sobre o acesso \u00e0s \u00e1reas restritas, controladas. O que a gente observa nessa parte do acordo \u00e9 que ele ficou mais restritivo ainda, ou seja, a movimenta\u00e7\u00e3o pessoal brasileira nas \u00e1reas restritas da base s\u00f3 vai acontecer com premissa e comum acordo \u2014 diga-se permiss\u00e3o \u2014 do governo dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o tem muita diferen\u00e7a, suaviza alguns termos, mas, a rigor, ele mant\u00e9m o mesmo tipo de atrelamento e enquadramento subalterno do programa espacial brasileiro e do uso da base de Alc\u00e2ntara frente aos Estados Unidos. Ele d\u00e1 pouca lateralidade e capacidade de movimenta\u00e7\u00e3o para o governo brasileiro no uso da base.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania e autonomia do pa\u00eds, o que esperar do governo Bolsonaro? Essa rela\u00e7\u00e3o estreita com o Estados Unidos \u00e9 ben\u00e9fica para o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, no meu entender, n\u00e3o. O que vai acontecer, provavelmente, \u00e9 uma base funcionando no curto prazo, com uma s\u00e9rie de condicionantes, mas uma base sendo operacionalizada e isso \u00e9 um ganho, mas \u00e9 um ganho de curto prazo. Do ponto de vista do m\u00e9dio e do longo prazo, o Brasil utilizar a base para alavancar toda uma cadeia tecnol\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o \u2014 aquilo que garantiria nossa soberania e capacidade de barganhar, negociar e participar, tanto do ponto de vista geopol\u00edtico quanto do econ\u00f4mico da ind\u00fastria de explora\u00e7\u00e3o espacial \u2014 n\u00e3o \u00e9 garantia do acordo. Muito pelo contr\u00e1rio, o acordo \u00e9 restritivo, principalmente no desenvolvimento dos ve\u00edculos lan\u00e7adores de sat\u00e9lites.<\/p>\n<p>As partes mais cr\u00edticas do acordo s\u00e3o, justamente, as que dizem que o Brasil n\u00e3o pode e n\u00e3o vai receber tecnologia para desenvolver isso e que tamb\u00e9m n\u00e3o pode usar os recursos do aluguel do centro de lan\u00e7amento para desenvolver seu ve\u00edculo lan\u00e7ador de sat\u00e9lites, ou seja, n\u00e3o receber essa tecnologia e tamb\u00e9m n\u00e3o poder usar o dinheiro que vem disso para desenvolver essa tecnologia do ve\u00edculo lan\u00e7ador.<\/p>\n<p><strong>Geopoliticamente, em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o estrat\u00e9gico, do que o Brasil est\u00e1 abrindo m\u00e3o ao se colocar nessa posi\u00e7\u00e3o com o governo estadunidense?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 abrindo m\u00e3o \u2014 no curto, m\u00e9dio e longo prazo \u2014 de estabelecer parcerias com pa\u00edses que, necessariamente, n\u00e3o sejam alinhados com os Estados Unidos. O Brasil assina um acordo com causas muito restritivas e fortemente amarrado a outro regime, que previne a prolifera\u00e7\u00e3o de tecnologia de fabrica\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis. As tecnologias de fabrica\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis bal\u00edsticos intercontinentais e de fabrica\u00e7\u00e3o de foguetes espaciais s\u00e3o muito semelhantes. A rigor, os pa\u00edses que dominam uma tecnologia, automaticamente, dominam a outra. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 interesse dos Estados Unidos e de outras grandes pot\u00eancias que essa tecnologia esteja dispon\u00edvel amplamente no sistema internacional.<\/p>\n<p>Quando o Brasil topa a amarra\u00e7\u00e3o de impedir a prolifera\u00e7\u00e3o dos atores de m\u00edsseis, ele abre m\u00e3o de desenvolver o ve\u00edculo de lan\u00e7amento de sat\u00e9lite, de comprar essa tecnologia ou de barganhar a utiliza\u00e7\u00e3o de Alc\u00e2ntara em troca dessa tecnologia com pa\u00edses como a China e a R\u00fassia. Dificilmente, os Estados Unidos v\u00e3o permitir que o Brasil fa\u00e7a uma parceria de lan\u00e7amento em Alc\u00e2ntara com a China.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Brasil tamb\u00e9m se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o, ao meu ver, meio delicada, porque, de Alc\u00e2ntara v\u00e3o subir uma s\u00e9rie de sat\u00e9lites. Ent\u00e3o vamos supor que o acordo seja aprovado e que tenha uma s\u00e9rie de investimentos dos Estados Unidos para transformar a base de lan\u00e7amento de Alc\u00e2ntara em um espa\u00e7o oposto, ou seja, em uma regi\u00e3o com capacidade de lan\u00e7ar sat\u00e9lites em \u00f3rbita alta e baixa, aproveitando a posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica perto da Linha do Equador.<\/p>\n<p>Se o Brasil aceita esse acordo, pelas cl\u00e1usulas, ele n\u00e3o vai poder inspecionar com liberdade tudo aquilo que subir em termos de sat\u00e9lite. Ent\u00e3o ningu\u00e9m garante que os Estados Unidos n\u00e3o v\u00e3o utilizar a base dentro de sua competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica com a China. Quando se acompanha essa competi\u00e7\u00e3o, o setor aeroespacial \u00e9 uma \u00e1rea muito delicada no qual esses dois pa\u00edses est\u00e3o competindo.<\/p>\n<p>Dentro dessa competi\u00e7\u00e3o, existe o lan\u00e7amento de sat\u00e9lites espi\u00f5es, sat\u00e9lites que s\u00e3o feitos para monitorar a \u00e1rea, fazer previs\u00e3o do tempo, sat\u00e9lites meteorol\u00f3gicos e sat\u00e9lites de comunica\u00e7\u00e3o \u2014 que t\u00eam uma dupla fun\u00e7\u00e3o: eles tamb\u00e9m podem ser sat\u00e9lites de comunica\u00e7\u00f5es militares. Esse tipo de sat\u00e9lite pode subir de Alc\u00e2ntara dependendo da conveni\u00eancia pol\u00edtica e das rela\u00e7\u00f5es do Brasil com os Estados Unidos ou dos Estados Unidos com a China.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Brasil se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o bem subalterna porque ele n\u00e3o vai ter direito a inspecionar aquilo que vai estar sendo lan\u00e7ado dentro do seu territ\u00f3rio. Isso \u00e9 um tipo de coisa que, simplesmente, n\u00e3o est\u00e1 tendo debate. O governo Bolsonaro foi muito apressado em fechar um acordo que j\u00e1 estava pronto e que n\u00e3o teve amplo debate com a comunidade cient\u00edfica brasileira.<\/p>\n<p>As vezes em que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) se pronunciou foi contra esse tipo de acordo, mas n\u00e3o tem debate com universidades, comunidade cient\u00edfica e sociedade. \u00c9 um acordo fechado de governo a governo e a gente fica pensando a troco de qu\u00ea o Brasil est\u00e1 fazendo esse acordo com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista geopol\u00edtico, eu vejo que est\u00e1 dentro do alinhamento que o governo Bolsonaro quer fazer com o governo dos Estados Unidos neste momento, e que n\u00e3o vai terminar com o governo Bolsonaro, mas trazer consequ\u00eancias para o desenvolvimento tecnol\u00f3gico do espa\u00e7o, no caso brasileiro, nos anos futuros.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos entrando, no curto prazo, em uma armadilha do desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Ou seja, a gente vai ficar fortemente amarrado ao programa espacial dos Estados Unidos e sem poder de barganha com v\u00e1rios players importantes na comunidade internacional.<\/p>\n<p><strong>Como fica a rela\u00e7\u00e3o do Brasil com os Estados Unidos no governo Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n<p>No curto prazo, essa rela\u00e7\u00e3o vai aumentar e o Brasil vai, realmente, se alinhar mais com os Estados Unidos. Agora, n\u00f3s temos um padr\u00e3o hist\u00f3rico, pelo menos, desde os anos 1950, em que o Brasil se aproxima e depois se afasta. A gente est\u00e1 em um momento onde o Brasil est\u00e1 se aproximando dos Estados Unidos. O que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos entender \u00e9 que, em outros momentos onde o Brasil se aproximou, sempre havia, explicitamente, uma barganha no sentido de obter algum conjunto de coisas dos Estados Unidos, principalmente investimentos, mas tamb\u00e9m apoio pol\u00edtico \u2014 era o caso do regime militar \u2014 e investimentos na industrializa\u00e7\u00e3o \u2014 por exemplo, no governo de [Get\u00falio] Vargas, durante a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Agora, existe uma conjuntura internacional completamente diferente: p\u00f3s-crise de 2008 e uma situa\u00e7\u00e3o na qual a economia brasileira n\u00e3o \u00e9 complementar da economia americana. Por exemplo, o nosso grande foco de exporta\u00e7\u00f5es, o agroneg\u00f3cio, os Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 o grande mercado, mas justamente o rival da pot\u00eancia estadunidense: a China.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o causa muita estranheza em qualquer observador mais racional da pol\u00edtica externa do governo brasileiro \u2014 independentemente de sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 porque ele replica o discurso dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, faz esses acordos, mas, objetivamente, a gente n\u00e3o consegue encontrar nenhum ganho concreto para o Brasil, dos pontos de vista geopol\u00edtico e econ\u00f4mico nessa aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos. Existe uma sinaliza\u00e7\u00e3o de apoio ao ingresso na OCDE [Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico], mas, fora isso, a gente n\u00e3o consegue ver nada.<\/p>\n<p>Tem uma sinaliza\u00e7\u00e3o de que o Brasil vai ser convidado a ser um aliado regional da OTAN [Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte], mas, pelo que n\u00f3s estamos sabendo, isso ainda nem entrou em processo de discuss\u00e3o dos Estados Unidos com seus parceiros na OTAN. O que est\u00e1 causando estranheza \u00e9 que tem esse alinhamento, mas a gente n\u00e3o est\u00e1 conseguindo entender qual vai ser o ganho no curto, m\u00e9dio e longo prazo para o Brasil.<\/p>\n<p>O que a gente come\u00e7a a suspeitar \u00e9 que t\u00eam grupos localizados dentro do governo Bolsonaro que est\u00e3o ganhando com essa aproxima\u00e7\u00e3o, como alguns grupos militares que est\u00e3o interessados em moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica no padr\u00e3o OTAN. De repente, negociar Alc\u00e2ntara pode ser uma sinaliza\u00e7\u00e3o de boa vontade, porque esses grupos t\u00eam acesso a equipamentos vindos dos pa\u00edses da OTAN e dos Estados Unidos, em sistema de circula\u00e7\u00e3o. Existem grupos no setor financista apoiadores de Bolsonaro que est\u00e3o interessados no alinhamento com os Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE.<\/p>\n<p>Mas, por exemplo, as declara\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio n\u00e3o s\u00e3o confort\u00e1veis com essa estigmatiza\u00e7\u00e3o da China. O agroneg\u00f3cio olha e diz o seguinte: \u201cse a China para de comprar ou compra menos, os Estados Unidos n\u00e3o v\u00e3o comprar os produtos que os chineses abriram m\u00e3o\u201d. Por exemplo, de soja eles s\u00e3o, junto ao Brasil, os maiores produtores do mundo. Se n\u00f3s pararmos de vender soja para os chineses, n\u00e3o vamos vender para os Estados Unidos. E quem vai comprar?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente ainda est\u00e1 tentando entender at\u00e9 onde vai esse tipo de coopera\u00e7\u00e3o, vamos ter que esperar alguns meses ou anos para saber o resultado. Eu tenho um palpite: em algum momento, independentemente de termos um governo de direita, esquerda ou centro-esquerda nos pr\u00f3ximos anos, em dois ou quatro anos vai ter uma revers\u00e3o dessa aproxima\u00e7\u00e3o, assim como os governos do regime militar a partir de [Ernesto] Geisel, que j\u00e1 estavam tomando dist\u00e2ncia dos Estados Unidos e adotando uma pol\u00edtica externa mais aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>A gente pode ter alguma coisa semelhante depois do governo Bolsonaro. Ou seja, pode haver uma conclus\u00e3o de que essa aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o trouxe tantos bens assim para o Brasil e, portanto, o pa\u00eds deve procurar seguir uma pol\u00edtica externa mais aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Mas, no curto prazo, esse alinhamento n\u00e3o \u00e9 mais uma hip\u00f3tese, ele j\u00e1 \u00e9 fato mesmo.<\/p>\n<p><strong>Mesmo se um dia houver esse recuo em outro governo, soberania e posicionamento internacional do Brasil j\u00e1 se perdeu?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, j\u00e1 se perdeu, o pa\u00eds deixa de ser um grande protagonista e de utilizar, por exemplo, uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada nos BRICs [Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China] para negociar com os pr\u00f3prios Estados Unidos e perde capacidade de barganha.<\/p>\n<p>Quando se est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o na qual se pode barganhar com dois lados rivais, o pa\u00eds aumenta seu poder de negocia\u00e7\u00e3o e tem mais chances de conseguir seus interesses, especialmente na esfera econ\u00f4mica. Agora, quando se escolhe, explicitamente, um lado, o outro n\u00e3o vai negociar. O lado que se escolhe tem que complementar isso e, dificilmente, os Estados Unidos v\u00e3o conseguir cumprir o papel da China na pauta econ\u00f4mica brasileira e, de fato, isto vai impactar nas concep\u00e7\u00f5es de soberania do Brasil.<\/p>\n<p>Por Brasil de Fato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo nos primeiros tr\u00eas meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e sua equipe articularam a assinatura dos termos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-67025","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/67025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=67025"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/67025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67026,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/67025\/revisions\/67026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=67025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=67025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=67025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}