{"id":69217,"date":"2019-07-01T07:15:26","date_gmt":"2019-07-01T10:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=69217"},"modified":"2019-07-31T21:26:08","modified_gmt":"2019-08-01T00:26:08","slug":"documentos-oficiais-comprovam-bolsonaro-mente-sobre-morte-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=69217","title":{"rendered":"Documentos oficiais comprovam: Bolsonaro mente sobre morte na ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"single-subtitle\" style=\"text-align: justify;\">Ao apresentar sem provas a vers\u00e3o de que o servidor p\u00fablico Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira foi morto por militantes de esquerda, o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) escreveu mais um cap\u00edtulo na longa lista das vers\u00f5es vagas e enganosas entregues por servidores da Uni\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia Santa Cruz. Bolsonaro s\u00f3 inovou em um ponto: segundo os familiares, foi a primeira vez, em 45 anos de buscas, que ouviram falar num suposto \u201cjusti\u00e7amento\u201d pela esquerda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/elzita_santa_cruz_em_frente_a_foto_do_filho_fernando,_desaparecido_durante_a_ditadura_militar133701.jpg\" alt=\"Elzita Santa Cruz posa em frente \u00c3\u00a0 foto do filho Fernando, um dos mais de 200 desaparecidos pol\u00c3\u00adticos\u00c2\u00a0sob o regime militar\u00c2\u00a0\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, ap\u00f3s ser preso por agentes do DOI-Codi, \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, na \u00e9poca um beb\u00ea de dois anos. A vers\u00e3o de Bolsonaro \u2013 que ele disse genericamente ter ouvido de pessoas cujos nomes n\u00e3o citou \u2013 contraria toda a s\u00e9rie de documentos produzidos pela pr\u00f3pria ditadura sobre Fernando.<\/p>\n<p>Seu irm\u00e3o, o advogado Marcelo, 75, disse ter ficado perplexo e indignado. \u201cNunca ouvimos falar nisso. Acredito que Bolsonaro esteja mentindo e tentando deturpar a verdade hist\u00f3rica\u201d, disse. Nem o governo militar (1964-1985), especialmente interessado em demonizar a esquerda, alguma vez falou que Fernando \u2013 um dos mais de 200 nomes que constam das listas de desaparecidos pol\u00edticos \u2013 foi morto por militantes esquerdistas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ministro da Justi\u00e7a do governo Ernesto Geisel (1974-1979), Armando Falc\u00e3o (1919-2010), informou por escrito ao ent\u00e3o ministro do SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es), Jo\u00e3o Figueiredo (1918-1999), que Fernando se encontrava \u201cna clandestinidade\u201d. A carta \u00e9 de mar\u00e7o de 1975, um ano e um m\u00eas depois do desaparecimento. O aviso ministerial de Falc\u00e3o integra um conjunto de 37 p\u00e1ginas, hoje sob a guarda do Arquivo Nacional, que documenta parte da peregrina\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Santa Cruz.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas cartas desesperadas de sua m\u00e3e, Elzita Santos de Santa Cruz, endere\u00e7adas a Falc\u00e3o, a Geisel e at\u00e9 \u00e0 primeira-dama da \u00e9poca, Lucy Geisel (1917-2000). Elzita morreu em junho passado, aos 105 anos. \u201cEsta carta \u00e9 um grito de desespero de uma m\u00e3e, que h\u00e1 oito meses chora a perda de um filho e espera em v\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o para o seu angustioso problema. J\u00e1 bati em todas as partes \u00e0 espera de pelo menos uma not\u00edcia sobre o paradeiro de meu estimado filho\u201d, escreveu em uma delas.<\/p>\n<p>Em outra carta, dirigida ao ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva (1911-1987), Elzita e a m\u00e3e de outro desaparecido e amigo de Fernando, Eduardo Collier Filho, Risoleta, revelaram que, dias ap\u00f3s os desaparecimentos, o apartamento de Collier \u201cfoi invadido por elementos pertencentes aos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a\u201d, que apreenderam \u201clivros de cunho ideol\u00f3gico\u201d. Para as m\u00e3es, estava claro \u201cque se tratava de uma dilig\u00eancia consequente da pris\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Na mesma carta, as m\u00e3es narraram momentos fundamentais das buscas. A partir de uma informa\u00e7\u00e3o recebida pelas fam\u00edlias, elas se dirigiram a uma unidade da repress\u00e3o do Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo, o DOI, onde foram recebidas pelo carcereiro de plant\u00e3o, apelidado de Marechal.<\/p>\n<p>Depois de anotar os nomes dos amigos e fazer uma checagem de meia hora, Marechal, segundo as m\u00e3es, retornou dizendo que ambos estavam presos ali, mas n\u00e3o poderiam receber visitas naquele momento, s\u00f3 no domingo seguinte. Elas disseram que ele informou o sobrenome &#8220;Oliveira&#8221; sem que elas o tivessem citado. Quando regressaram ao DOI na data marcada, um outro militar negou que os dois estivessem presos l\u00e1 e disse que houve um \u201clament\u00e1vel equ\u00edvoco\u201d.<\/p>\n<p>Em outro epis\u00f3dio, em 29 de abril de 1974, um funcion\u00e1rio da Cruz Vermelha (CV) confirmou \u00e0s m\u00e3es que os dois estavam de fato detidos com o Ex\u00e9rcito. Em 13 de maio, por\u00e9m, a CV informou que n\u00e3o conseguia mais contato com os presos. Os tr\u00eas epis\u00f3dios \u2013 a blitz na casa de Collier, a fala do carcereiro e a informa\u00e7\u00e3o da CV \u2013 contrariam a vers\u00e3o de Bolsonaro de que Fernando foi morto por militantes de esquerda.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o de que ele e Collier morreram em poder do Estado ganharia ainda mais certeza em 2004, quando o ex-agente da repress\u00e3o Marival Chaves declarou \u00e0 revista Isto\u00c9 que ambos foram mortos em meio a uma ampla opera\u00e7\u00e3o de assassinatos e pris\u00f5es deflagrada pela ditadura contra integrantes da AP (A\u00e7\u00e3o Popular), na qual Fernando havia atuado nos anos 1960. Chaves disse que o Ex\u00e9rcito \u201cse interessou pela AP no Nordeste\u201d e, por isso, desencadeou uma opera\u00e7\u00e3o nacional que prendeu mais de cem pessoas e \u201cdesapareceu\u201d com pelo menos quatro.<\/p>\n<p>Oito anos depois, no livro escrito pelo jornalista Marcelo Netto,\u00a0<i>Mem\u00f3rias de uma Guerra Suja<\/i>\u00a0(2012), o ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de a\u00e7\u00facar de Campos de Goytacazes (RJ). Assim, a vers\u00e3o de um suposto \u201cjusti\u00e7amento\u201d na AP \u00e9 desacreditada por especialistas.<\/p>\n<p>Conforme diversos registros documentais e testemunhais, s\u00e3o conhecidos apenas quatro atos do g\u00eanero na esquerda durante a ditadura. Tr\u00eas epis\u00f3dios ocorreram na organiza\u00e7\u00e3o ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional) e um no PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio), mas nenhum na AP, como lembra o jornalista Lucas Ferraz, que escreve um livro sobre \u201cjusti\u00e7amentos\u201d. O tema tamb\u00e9m foi abordado em detalhes em um livro j\u00e1 cl\u00e1ssico do historiador Jacob Gorender (1923-2013), Combate nas Trevas (1987), que nada fala sobre Fernando ter sido assassinado pela esquerda.<\/p>\n<p>Nascido no Recife (PE), onde chegou a ser detido numa manifesta\u00e7\u00e3o estudantil, Fernando deixou a AP no final dos anos 1960 e se juntou a uma dissid\u00eancia chamada APML (A\u00e7\u00e3o Popular Marxista Leninista). Nenhum documento escrito sobre ele pela pr\u00f3pria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada contra o governo. Fernando n\u00e3o era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Usava seu nome e sobrenome reais e era funcion\u00e1rio p\u00fablico de uma empresa de \u00e1gua e energia el\u00e9trica de S\u00e3o Paulo. Durante o carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Segundo a fam\u00edlia, ele desapareceu quando se dirigia ao encontro no bairro de Copacabana.<\/p>\n<p>Em 7 de agosto do mesmo ano \u2013 data que completar\u00e1 45 anos na pr\u00f3xima quarta-feira \u2013, seus familiares conseguiram, por interm\u00e9dio de dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), uma audi\u00eancia com o poderoso ministro Golbery, emin\u00eancia parda do governo Geisel. N\u00e3o houve nenhuma resposta sobre o paradeiro dos amigos. Meses depois, o ministro Falc\u00e3o soltou uma nota \u00e0 imprensa dizendo que eles estavam &#8220;na clandestinidade&#8221;.<\/p>\n<p>Por Portal Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao apresentar sem provas a vers\u00e3o de que o servidor p\u00fablico Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira foi morto por<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-69217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/69217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=69217"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/69217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69218,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/69217\/revisions\/69218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=69217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=69217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=69217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}