{"id":7246,"date":"2014-04-22T08:32:13","date_gmt":"2014-04-22T11:32:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=7246"},"modified":"2014-04-22T08:32:13","modified_gmt":"2014-04-22T11:32:13","slug":"fotografos-populares-revelam-outra-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=7246","title":{"rendered":"Fot\u00f3grafos populares revelam outra Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<h2>O Complexo de Favelas da Mar\u00e9 \u00e9 famoso por sua extens\u00e3o, seus problemas e, principalmente, pela viol\u00eancia. A comunidade, encravada entre a polu\u00edda Ba\u00eda de Guanabara e a Avenida Brasil, lembra tudo, menos beleza. Mas um projeto pioneiro de fotografia mostra que nem s\u00f3 de praias e montanhas famosas \u00e9 feita a paisagem do Rio de Janeiro.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<address>Af Rodrigues\/Imagens do Povo<\/address>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"Sensibilidade, qualidade t\u00e9cnica, profissionalismo e inclus\u00e3o. O encontro de jovens da Mar\u00e9 com a fotografia revela novas possibilidades para a paisagem e a vida na favela\" src=\"http:\/\/imagem.vermelho.org.br\/biblioteca\/bolinha_ok59817.jpg\" \/>Sensibilidade, qualidade t\u00e9cnica, profissionalismo e inclus\u00e3o. O encontro de jovens da Mar\u00e9 com a fotografia revela novas possibilidades para a paisagem e a vida na favela<\/div>\n<p>O projeto Imagens do Povo come\u00e7ou em maio de 2004 com o fot\u00f3grafo Jo\u00e3o Roberto Ripper, conhecido pela extensa documenta\u00e7\u00e3o do trabalho escravo e autor de alguns dos mais importantes registros dos exclu\u00eddos do pa\u00eds. Prestes a completar dez anos, a ag\u00eancia-escola \u00e9 a \u00fanica a oferecer ensino, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os fotogr\u00e1ficos e acervo para comercializa\u00e7\u00e3o. O programa conta ainda com um espa\u00e7o para expor os trabalhos dos fot\u00f3grafos da casa, a Galeria 535. Atualmente est\u00e1 em cartaz a mostra Folia de Imagens, com registros do carnaval de v\u00e1rias cidades brasileiras feitos por 22 profissionais.<\/p>\n<p>O curso, que j\u00e1 formou mais de 200 fot\u00f3grafos, \u00e9 gratuito e muito disputado. O interessado n\u00e3o precisa morar na Mar\u00e9, h\u00e1 at\u00e9 alunos da classe m\u00e9dia, moradores do \u201casfalto\u201d. Mas o projeto \u00e9 de interesse social, e ser morador da periferia \u00e9 crit\u00e9rio de desempate.<\/p>\n<p>Alunos e funcion\u00e1rios ressaltam que o trabalho se baseia no respeito e na promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. As imagens denunciam o sofrimento, mas tamb\u00e9m reverenciam o povo e suas festas, costumes, sacrif\u00edcios, alegrias. Al\u00e9m da t\u00e9cnica, os fot\u00f3grafos aprimoram a sensibilidade, adquirem paix\u00e3o pelo of\u00edcio e capacidade de enxergar al\u00e9m de rostos e paisagens. \u201cFotografo pensando no retorno que o trabalho poder\u00e1 ter para as pessoas que fotografei. N\u00e3o importa o que os cr\u00edticos de arte falam das imagens. Se o fotografado se v\u00ea representado, se ele se reconhece, considero um ganho\u201d, relata Rat\u00e3o Diniz, nascido e criado na Mar\u00e9, aluno da primeira turma e um dos expoentes da ag\u00eancia-escola.<\/p>\n<p>Alexandre Silva, coordenador de comunica\u00e7\u00e3o do projeto e curador da Galeria 535, n\u00e3o \u00e9 fot\u00f3grafo, come\u00e7ou como estagi\u00e1rio e hoje se identifica profundamente com o trabalho. \u201cSou da Baixada Fluminense e o que vejo aqui s\u00e3o lutas que sempre vivenciei, embora n\u00e3o tivesse consci\u00eancia de que tamb\u00e9m era um ator nesse processo. Compreendi a import\u00e2ncia do trabalho que se faz aqui e fico muito satisfeito por fazer parte disso\u201d, explica.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro dos cart\u00f5es-postais \u00e9 o da \u00e1rea nobre da cidade, com suas praias e monumentos. As periferias aparecem como regi\u00f5es tristes, feias, violentas e cheias de mazelas. Aos olhos dos moradores de \u00e1reas nobres, os habitantes da favela exprimem desesperan\u00e7a, medo e desejo de deixar o local. \u201cH\u00e1 pouco material fotogr\u00e1fico que mostre al\u00e9m da zona sul, talvez porque essa regi\u00e3o concentre os cursos e os fot\u00f3grafos. Isso distorce a representa\u00e7\u00e3o da cidade\u201d, avalia Erika Tambke, gerente de atendimento e rela\u00e7\u00f5es comerciais da ag\u00eancia.<\/p>\n<p>O Imagens do Povo coloca as c\u00e2meras nas m\u00e3os dos alunos e os instiga a buscar material em sua vizinhan\u00e7a. Os aprendizes descobrem que h\u00e1 valor nos saberes e espa\u00e7os de suas comunidades. \u201cDa primeira vez que disse a uma turma que sair\u00edamos para fotografar, os alunos pensaram que ir\u00edamos \u00e0 praia, ao P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. Nem passava pela cabe\u00e7a deles que poderia haver coisas interessantes para fotografar aqui mesmo, na Mar\u00e9\u201d, relata Rovena Rosa, uma ex-aluna que se tornou professora e coordenadora do programa.<\/p>\n<p><b>Hist\u00f3rico<\/b><\/p>\n<p>O Imagens do Povo surgiu de maneira despretensiosa. Convidado pelo Observat\u00f3rio de Favelas, Jo\u00e3o Ripper foi \u00e0 Mar\u00e9 para produzir imagens da comunidade. O interesse dos moradores, principalmente os mais jovens, pelo trabalho daquele homem de fala mansa, com uma c\u00e2mera na m\u00e3o, provocou a montagem de uma oficina de fotografia.<\/p>\n<p>Em seguida, Ripper organizou um curso de quatro meses, com aulas di\u00e1rias, num total de 320 horas\/aula, para ensinar segredos da fotografia aos adolescentes e jovens da comunidade. Iniciada em maio de 2004, a primeira turma formou 22 fot\u00f3grafos populares, sob a coordena\u00e7\u00e3o de Ripper e do colega Ricardo Funari.<\/p>\n<p>O curso como existe hoje foi montado em 2006. A carga hor\u00e1ria passou para 540 horas, e Ripper convidou para a coordena\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da escola Dante Gastaldoni, professor de Fotojornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF). \u201cNaquele ano eu estava completando 30 anos de magist\u00e9rio e o curso foi um presente. Fiquei encantado com a receptividade\u201d, recorda Dante.<\/p>\n<p>O n\u00edvel das aulas da escola n\u00e3o \u00e9 inferior ao de outros profissionalizantes dispon\u00edveis no mercado do Rio de Janeiro, nem ao das faculdades de Jornalismo. A carga hor\u00e1ria \u00e9 extensa. Al\u00e9m das aulas expositivas, a cargo de Dante, Ripper e mais tr\u00eas professores, h\u00e1 palestras regulares com profissionais renomados. Mas n\u00e3o h\u00e1 cerceamento \u00e0 espontaneidade. \u201cAqui h\u00e1 uma desorganiza\u00e7\u00e3o criativa, uma liberdade, que n\u00e3o se encaixa nos c\u00e2nones do sistema de cr\u00e9ditos. O projeto tem pulsa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento que h\u00e1 aqui n\u00e3o existe na universidade\u201d, compara Dante.<\/p>\n<p>A qualidade do curso passou a ser reconhecida. O certificado foi emitido pela UFF, por meio de um conv\u00eanio, de 2007 a 2009. Hoje, \u00e9 pela UFRJ. \u201cMesmo com essa desorganiza\u00e7\u00e3o criativa, temos crit\u00e9rios firmes. Ao final do curso, cada aluno apresenta um projeto e \u00e9 avaliado por uma banca. Se o processo avaliativo n\u00e3o fosse s\u00e9rio, n\u00e3o teria a chancela de universidades federais\u201d, destaca o coordenador acad\u00eamico. Segundo ele, a banca \u00e9 rigorosa. Avalia se o aluno foi bem no curso, se participou intensamente das atividades, se tem compet\u00eancia t\u00e9cnica para se tornar fot\u00f3grafo da ag\u00eancia e se produziu fotos com qualidade para integrar o acervo do banco de imagens. A preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade t\u00e9cnica e te\u00f3rica estimula os alunos a buscar forma\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p><b>Dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/b><br \/>\nO que mais emociona Dante e Ripper \u00e9 a postura dos alunos. \u201cEles fazem da fotografia sua vida. Cada fot\u00f3grafo leva anos fotografando o mesmo tema, cada um escolhe aquilo que o interessa\u201d, explica Dante. O maior exemplo disso \u00e9 a obra de Rat\u00e3o Diniz. O grafite foi assunto de seu projeto de final de curso e ainda rende muitas fotografias. Seu tema mais recente \u2013 o Bloco da Lama, tradi\u00e7\u00e3o do carnaval de Paraty \u2013 j\u00e1 \u00e9 documentado h\u00e1 cinco anos. \u201cO que me move \u00e9 contar as hist\u00f3rias das pessoas, me interesso pelos temas da realidade. Quero vivenci\u00e1-los e me manter sempre em movimento\u201d, define. Com seu primeiro livro individual previsto para este ano, ele n\u00e3o se considera pronto e sempre busca a companhia e a troca de ideias com os colegas.<\/p>\n<p>A fot\u00f3grafa Valda Nogueira tamb\u00e9m demonstra esse companheirismo. Formada em julho de 2013, Valda fotografa profissionalmente, exp\u00f5e, adquiriu equipamento pr\u00f3prio e produz uma obra autoral elogiada. Seu olhar afiado percebeu, por exemplo, que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre os olhares feminino e masculino. \u201cA mulher tende a abordar outras leituras dentro do mesmo tema. As fot\u00f3grafas que conhe\u00e7o costumam enxergar e registrar melhor as quest\u00f5es de g\u00eanero. A maioria se envolve com este assunto porque ele est\u00e1 presente em suas vidas, a fotografia \u00e9 uma forma de expressar a necessidade de discuti-lo\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Valda deixou a faculdade de Biologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) quando entrou para a Escola de Fot\u00f3grafos Populares. Formada, voltou para a universidade, onde acaba de iniciar o curso de Artes Visuais. \u201cVirei fot\u00f3grafa para sempre. Mas tamb\u00e9m posso buscar outras express\u00f5es, cinema, talvez, e outras refer\u00eancias das artes visuais\u201d, diz. Rat\u00e3o, que come\u00e7ou a fotografar os grafiteiros por conta da frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o desenhar bem, tamb\u00e9m se sente \u00e0 vontade com a multiplicidade de express\u00f5es art\u00edsticas. \u201cN\u00e3o s\u00f3 as artes visuais, mas tamb\u00e9m a m\u00fasica, a poesia, outras formas de arte complementam a linguagem da fotografia\u201d, defende.<\/p>\n<p><b>Legado<\/b><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre os professores, gestores, alunos e ex-alunos do projeto \u00e9 marcada pela afetividade e o companheirismo. \u201cAqui temos um sentido de coletivo. Claro que h\u00e1 tens\u00f5es, mas h\u00e1 muita fraternidade. Mesmo depois de formados, os alunos se encontram aqui, saem juntos para fotografar, est\u00e3o sempre em contato, discutindo fotografia\u201d, relata Dante, orgulhoso dos pupilos.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o, seguindo o exemplo do desprendimento de Ripper. O fundador do projeto \u00e9 frequentemente alertado por alguns de seus colegas, contr\u00e1rios \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de fot\u00f3grafos populares, de que est\u00e1 criando a pr\u00f3pria concorr\u00eancia. Mas o relato de Rat\u00e3o Diniz mostra que o modo de pensar do mestre \u00e9 o oposto. \u201cDa primeira vez que me candidatei a um edital, pedi ajuda a ele para preencher o formul\u00e1rio. Ele me ajudou com a maior generosidade. Depois, eu soube que ele estava sem dinheiro e fiquei constrangido, disse que ele deveria pegar o trabalho no meu lugar. Dias depois nos encontramos aqui na escola, ele segurou minha m\u00e3o com as duas m\u00e3os dele, me olhou e disse: \u2018Esse edital \u00e9 seu. N\u00e3o se preocupe comigo. Meu maior pagamento \u00e9 ver que o fot\u00f3grafo que eu formei est\u00e1 trabalhando\u2019. \u00c9 assim que ele pensa.\u201d<\/p>\n<p>Alunos formados na escola passaram a ser convidados a ministrar oficinas. Da\u00ed surgiu o curso de Forma\u00e7\u00e3o de Educadores em Fotografia, que se tornou mais uma ferramenta de multiplica\u00e7\u00e3o. E al\u00e9m da profiss\u00e3o, ex-alunos aprenderam a estimular a populariza\u00e7\u00e3o da fotografia. Rat\u00e3o Diniz \u00e9 um dos que valorizam este car\u00e1ter de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cTem a ver com democracia, com o direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a do olhar. Por isso, n\u00e3o gosto de dar aulas se perceber que o trabalho n\u00e3o vai ter continuidade. Tenho planos de fazer uma viagem pelo interior do Nordeste fotografando, mas tamb\u00e9m ensinando a fotografar. E planejo deixar a c\u00e2mera quando for embora de cada cidade\u201d, avisa.<\/p>\n<p>O pano de fundo para o desenvolvimento art\u00edstico e profissional desses cidad\u00e3os \u00e9 o Complexo de Favelas da Mar\u00e9. E o mais belo retrato tirado desse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 a glamouriza\u00e7\u00e3o da pobreza e ou da est\u00e9tica das desigualdades. Mas a transforma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os em protagonistas, ponto de partida para se revelar uma nova realidade.<\/p>\n<p>Fonte: Revista do Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Complexo de Favelas da Mar\u00e9 \u00e9 famoso por sua extens\u00e3o, seus problemas e, principalmente, pela viol\u00eancia. 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