{"id":79349,"date":"2023-04-03T06:40:12","date_gmt":"2023-04-03T09:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=79349"},"modified":"2023-04-03T06:40:12","modified_gmt":"2023-04-03T09:40:12","slug":"59-anos-depois-narrativa-do-golpe-de-64-segue-em-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=79349","title":{"rendered":"59 anos depois, narrativa do Golpe de 64 segue em disputa"},"content":{"rendered":"<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mt-30\">\n<h1>59 anos depois, narrativa do Golpe de 64 segue em disputa<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>39% dos brasileiros dizem n\u00e3o confiar nos militares, conforme pesquisa divulgada em fevereiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-info \">\n<div class=\"author\">por\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/autor\/andre-cintra\/\">Andr\u00e9 Cintra<\/a><\/div>\n<p class=\"date\">Publicado pelo Portal Vermelho<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post--image\"><img decoding=\"async\" class=\"lazy loaded\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dita-ok-Enterro-do-estudante-Edson-Luis-Foto-Arquivo-Nacional-Correio-da-Manha.jpg\" data-src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dita-ok-Enterro-do-estudante-Edson-Luis-Foto-Arquivo-Nacional-Correio-da-Manha.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/>Enterro do estudante Edson Luis, assassinado pelos militares. Foto: Arquivo Nacional\/Correio da manh\u00e3<\/div>\n<p>O Largo General Os\u00f3rio, na regi\u00e3o da Santa Ifig\u00eania, no Centro de S\u00e3o Paulo, abrigou um dos principais \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o na ditadura militar brasileira (1964-1985). Ali funcionou o temido Deops-SP (Departamento Estadual de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo), ou apenas Dops, palco de pris\u00f5es, torturas e assassinatos \u00e0 margem da lei.<\/p>\n<p>Seu chefe mais conhecido foi S\u00e9rgio Paranhos Fleury, delegado da Pol\u00edcia Civil e torturador profissional. As execu\u00e7\u00f5es de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, bem como a Chacina da Lapa \u2013 que provocou a morte de tr\u00eas dirigentes nacionais do PCdoB \u2013, contaram com sua participa\u00e7\u00e3o. Em 1\u00ba de maio de 1979, Fleury morreu afogado no mar de Ilhabela, ap\u00f3s cair de uma lancha.<\/p>\n<p>Quem visita hoje o n\u00famero 66 do Largo General Os\u00f3rio n\u00e3o encontra mais uma institui\u00e7\u00e3o militar ou policial \u2013 mas, sim, o Memorial da Resist\u00eancia. A hist\u00f3ria do que ocorreu em seus por\u00f5es \u00e9 contada agora pelo ponto de vista das v\u00edtimas, n\u00e3o dos algozes \u2013 o que garante um raro e pujante exemplo de ressignifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, em favor da democracia.<\/p>\n<p>O Forte de Copacabana, instalado na ponta de uma das praias mais famosas do mundo, na zona sul do Rio de Janeiro, n\u00e3o teve sorte igual. Foi l\u00e1 que, em julho de 1922, a Revolta dos 18 do Forte desnudou de vez as contradi\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica Velha e viu emergir o movimento tenentista.<\/p>\n<p>Num ano j\u00e1 marcado pela Semana de Arte Moderna (em fevereiro) e pela funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista do Brasil (em mar\u00e7o), a insurrei\u00e7\u00e3o dos tenentes cariocas comprovava a crescente inquieta\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds. Novas revoltas tenentistas sobrevieram, incluindo a \u00e9pica Coluna Prestes. A agita\u00e7\u00e3o culminou na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, liderada por Get\u00falio Vargas, com o apoio dos tenentistas.<\/p>\n<p>Mas quem vai hoje ao Forte de Copacabana, a despeito da vista e do ambiente agrad\u00e1veis, precisa ter coragem. O Museu Hist\u00f3rico do Ex\u00e9rcito, constru\u00eddo em suas depend\u00eancias, espalha relatos laudat\u00f3rios \u2013 e algumas mentiras \u2013 sobre o Ex\u00e9rcito brasileiro.<\/p>\n<p>Dois epis\u00f3dios sobressaem na narrativa militar: a Guerra do Paraguai e o Golpe de 64. Em primeiro lugar, a caserna n\u00e3o usa tais nomenclaturas. O maior conflito armado na Am\u00e9rica do Sul \u00e9 chamado internamente de Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a, enquanto o golpe de Estado que derrubou o presidente Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o passa de um \u201cmovimento revolucion\u00e1rio\u201d ou simplesmente \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No caso da guerra, tudo teria come\u00e7ado devido \u00e0 tirania do presidente paraguaio, o marechal-ditador Francisco Solano L\u00f3pez, que ousara invadir o Mato Grosso. Pouco se fala sobre os antecedentes desse suposto estopim, como a manobra golpista que, com o apoio do Brasil, defenestrou Bernardo Prudencio Berro (aliado de Lopez) da presid\u00eancia do Uruguai. O fato de o Paraguai ser, \u00e0 \u00e9poca, um \u201cemergente\u201d econ\u00f4mico sem sa\u00edda para o mar sequer \u00e9 citado.<\/p>\n<p>Tampouco se mencionam os crimes de guerra cometidos pelo Ex\u00e9rcito brasileiro contra o povo, em especial o genoc\u00eddio sem precedentes na regi\u00e3o. A Tr\u00edplice Alian\u00e7a matou cerca de 280 mil paraguaios, muito notadamente os homens \u2013 a popula\u00e7\u00e3o masculina do Paraguai quase foi reduzida a p\u00f3. Havia localidades no pa\u00eds com 20 mulheres para cada homem.<\/p>\n<p>Sobre o Golpe de 64, os guias do museu no Forte de Copacabana n\u00e3o se avexam de repetir ladainhas de 59 anos atr\u00e1s, como a suposta amea\u00e7a comunista representada pelo governo Jo\u00e3o Goulart \u2013 a \u201crep\u00fablica sindicalista de Jango\u201d. Quem conhece o b\u00ea-\u00e1-b\u00e1 do movimento comunista no Brasil sabe que o in\u00edcio dos anos 1960 foi um per\u00edodo de intensas diverg\u00eancias internas, tens\u00f5es e cis\u00f5es.<\/p>\n<p>O museu frisa que a quartelada teve o apoio dos empres\u00e1rios, da m\u00eddia, do Congresso, do STF (Supremo Tribunal Federal), etc. Mas omite que, quando esse apoio se esvaiu, as For\u00e7as Armadas ignoraram a opini\u00e3o p\u00fablica e apelaram a atos institucionais, censura, cassa\u00e7\u00f5es, fechamento do Congresso, interven\u00e7\u00f5es no Judici\u00e1rio, pris\u00f5es, mortes, etc., etc., etc.<\/p>\n<p>Cinquenta e nove anos depois, a narrativa do Golpe de 64 segue em disputa. O legado da ditadura \u00e9 criminoso, e n\u00e3o heroico. \u00c9 um legado de medo e terror que a c\u00fapula das Tr\u00eas For\u00e7as teima vergonhosamente em negar, destruindo e ocultando documentos, falseando a Hist\u00f3ria e protegendo torturadores. Os quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL) representaram uma esp\u00e9cie de reca\u00edda moral de parte dos militares, que passaram a celebrar o Golpe de 1964 n\u00e3o como protocolo \u2013 mas como uma inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As amea\u00e7as autorit\u00e1rias de Bolsonaro, a ocupa\u00e7\u00e3o dos quarteis e de rodovias por bolsonaristas extremados, o golpe frustrado de 8 de janeiro \u2013 nada disso teria ocorrido sem a complac\u00eancia desses setores das For\u00e7as Armadas. A popula\u00e7\u00e3o \u2013 que tinha uma vis\u00e3o indulgente dos militares \u2013 agora se divide: 39% dos brasileiros dizem n\u00e3o confiar neles, conforme pesquisa AtlasIntel divulgada em 1\u00ba de fevereiro passado.<\/p>\n<p>Da\u00ed a sensatez do comandante do Ex\u00e9rcito, Tom\u00e1s Paiva, que amea\u00e7ou de puni\u00e7\u00e3o todo e qualquer militar da ativa que comemorasse nesta sexta-feira (31) a passagem dos 50 anos do Golpe de 64. Da\u00ed o acerto do governo Lula em recriar a Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos, que foi esvaziada e depois extinta por Bolsonaro. A ditadura acabou formalmente h\u00e1 38 anos, mas sua mem\u00f3ria segue viva e assustadora, dentro e fora das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>59 anos depois, narrativa do Golpe de 64 segue em disputa &nbsp; 39% dos brasileiros dizem n\u00e3o confiar nos militares,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-79349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=79349"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79350,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79349\/revisions\/79350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=79349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=79349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=79349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}