{"id":79513,"date":"2023-04-12T07:02:54","date_gmt":"2023-04-12T10:02:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=79513"},"modified":"2023-04-12T07:02:54","modified_gmt":"2023-04-12T10:02:54","slug":"estudo-resgata-papel-central-dos-negros-na-guerrilha-do-araguaia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=79513","title":{"rendered":"Estudo resgata papel central dos negros na Guerrilha do Araguaia\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mt-30\">\n<h1>Estudo resgata papel central dos negros na Guerrilha do Araguaia<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em entrevista ao Vermelho, historiador Janailson Mac\u00eado Luiz fala de sua tese sobre a import\u00e2ncia desses guerrilheiros e do apagamento do povo negro na hist\u00f3ria do pa\u00eds<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-info \">\n<div class=\"author\">por\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/autor\/priscila-lobregatte\/\">Priscila Lobregatte<\/a><\/div>\n<p class=\"date\">Publicado pelo Portal Vermelho<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post--image\"><img decoding=\"async\" class=\"lazy loaded\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/negros-araguaia.png\" data-src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/negros-araguaia.png\" data-was-processed=\"true\" \/>Os guerrilheiros negros Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Costa, Dermeval da Silva Pereira, Dinalva Oliveira Teixeira, Francisco Manoel Chaves, Helenira Resende de Souza Nazareth, Idal\u00edsio Soares Aranha Filho, L\u00facia Maria de Souza, Osvaldo Orlando da Costa\u00a0e Rosalindo de Souza. Fotos: reprodu\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p>A busca por mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos atos praticados pelo regime militar e a necessidade de resgatar o papel dos negros na hist\u00f3ria brasileira e em especial nos anos da ditadura t\u00eam levado uma s\u00e9rie de pesquisadores a se debru\u00e7arem sobre epis\u00f3dios que, como tem sido comum na historiografia oficial, escondem a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Um desses estudos foi a tese de doutorado realizada pelo historiador Janailson Mac\u00eado Luiz, intitulada\u00a0<em>Lutas pela autonomia, sonhos de revolu\u00e7\u00e3o: Uma hist\u00f3ria da participa\u00e7\u00e3o negra na Guerrilha do Araguaia (1972-1974),\u00a0<\/em>que teve a orienta\u00e7\u00e3o da professora Maria Helena Pereira Toledo Machado e foi defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP.<\/p>\n<p>A obra procura resgatar o papel das mulheres e homens negros que participaram do movimento armado de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, aniquilado pelos militares nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1970, e compreender melhor como se deu a intera\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Em entrevista ao\u00a0<strong>Portal Vermelho<\/strong>, Janailson Mac\u00eado Luiz fala sobre esses guerrilheiros e sobre como o apagamento da participa\u00e7\u00e3o dos negros na hist\u00f3ria brasileira prejudica o desenvolvimento humano, social e cultural do pa\u00eds. \u201cDeixamos de ter contato com experi\u00eancias muito importantes para entendermos como muitos dos problemas que vivenciamos no presente foram constru\u00eddos historicamente\u201d, explica.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria apagada<\/strong><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-658347 lazy loaded\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson.webp\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson.webp 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson-150x150.webp 150w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson.webp\" data-srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson.webp 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230327_janailson-150x150.webp 150w\" data-sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-was-processed=\"true\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Janailson Mac\u00eado Luiz<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cAs estrat\u00e9gias de apagamento de informa\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelos militares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerrilha do Araguaia como um todo certamente contribu\u00edram para que se tornasse ainda mais dif\u00edcil a investiga\u00e7\u00e3o de determinados temas. Al\u00e9m disso, os pr\u00f3prios governos militares investiam na imagem da \u2018democracia racial\u2019, muito difundida desde a d\u00e9cada de 1930 e refor\u00e7ada naquele per\u00edodo, o que postergou muito a discuss\u00e3o de temas que hoje est\u00e3o em maior evid\u00eancia, gra\u00e7as \u00e0s d\u00e9cadas de luta dos movimentos negros. Entre elas, est\u00e1 justamente a participa\u00e7\u00e3o negra na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, na academia houve, durante muito tempo, o silenciamento em rela\u00e7\u00e3o ao papel das popula\u00e7\u00f5es negras na Hist\u00f3ria, e na pr\u00f3pria Hist\u00f3ria do Brasil. Em 1990, Cl\u00f3vis Moura, ele pr\u00f3prio um intelectual negro e comunista, denunciou isso na obra\u00a0<em>Injusti\u00e7as de Clio, o Negro na Historiografia Brasileira<\/em>. Esse quadro vem aos poucos sendo alterado, mas ainda existe muito trabalho a ser feito\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNa constru\u00e7\u00e3o sobre as mem\u00f3rias sociais a respeito do per\u00edodo da ditadura, ainda s\u00e3o poucas as produ\u00e7\u00f5es que buscam detalhar sobre a vida de mulheres e homens negros. Por\u00e9m, nos \u00faltimos anos t\u00eam surgido trabalhos nesse sentido. Por exemplo, os relat\u00f3rios finais das Comiss\u00f5es estaduais da Verdade de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro deram um importante destaque para a atua\u00e7\u00e3o negra no per\u00edodo. Tamb\u00e9m t\u00eam surgido pesquisas sobre temas variados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Obras sobre a Guerrilha<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNa discuss\u00e3o sobre a Guerrilha do Araguaia, para citar algumas produ\u00e7\u00f5es que estiveram centradas na quest\u00e3o negra, podemos elencar a biografia de Osvaldo Orlando da Costa, o\u00a0<em>Osvald\u00e3o,<\/em>\u00a0escrita por Bernardo Jofilly, em 2008; e o pr\u00f3prio document\u00e1rio\u00a0<em>Osvald\u00e3o<\/em>, produzido em 2014, com dire\u00e7\u00e3o de Vandr\u00e9 Fernandes,\u00a0Ana Petta,\u00a0Andr\u00e9 Michiles e\u00a0Fabio Bardella. O pr\u00f3prio Vandr\u00e9 Fernandes j\u00e1 havia dirigido o document\u00e1rio\u00a0<em>Camponeses do Araguaia\u00a0<\/em>e ocineasta Evandro Medeiros realizou\u00a0<em>Araguaia: Campo sagrado<\/em>; s\u00e3o obras que retrataram muito da diversidade \u00e9tnico-racial local ao apresentarem depoimentos de muitas mulheres e homens camponeses\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCito ainda, entre outras produ\u00e7\u00f5es, trabalhos recentes como a disserta\u00e7\u00e3o da historiadora Maria Leal Pinto, intitulada\u00a0<em>Hist\u00f3rias que ouvi contar: a Guerrilha do Araguaia nas narrativas do Povo de Santo da regi\u00e3o Araguaia \u2013 Tocantins;<\/em>\u00a0a tese da historiadora Tauana Silva\u00a0<em>Mulheres negras nos movimentos de esquerda durante a Ditadura no Brasil (1964-1985)<\/em>;ea tese da psic\u00f3loga \u00c1urea Cardoso\u00a0<em>Mulheres do Araguaia: Labut(ar), uma express\u00e3o do vive<\/em>r; entre outros trabalhos com quem buscamos dialogar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2023\/04\/11\/o-pastor-e-o-guerrilheiro-estreia-nesta-quinta-feira-13-nos-cinemas\/\">\u201cO Pastor e o Guerrilheiro\u201d estreia nos cinemas\u00a0<\/a><\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00f5es locais<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNa regi\u00e3o onde ocorreu a Guerrilha, os guerrilheiros buscaram criar estrat\u00e9gias de aproxima\u00e7\u00e3o junto aos moradores. Entre elas estava, por exemplo, a aproxima\u00e7\u00e3o com religiosos, fossem eles cat\u00f3licos ou praticantes de outras religi\u00f5es, dada a import\u00e2ncia da religiosidade no cotidiano e cultura locais. Entre essas \u2018outras\u2019 religi\u00f5es estava o Terec\u00f4, de car\u00e1ter afro-ind\u00edgena e origin\u00e1ria do interior do Maranh\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cBoa parte dos migrantes que chegaram \u00e0 Amaz\u00f4nia Oriental durante a implementa\u00e7\u00e3o do Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional (PIN) por parte dos militares era maranhense. Muitos deles eram terecozeiros e guardavam uma vis\u00e3o de mundo ligada \u00e0s chamadas \u2018encantarias\u2019\u201d. (\u2026)<\/p>\n<p><strong>Respeito a todas as religi\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNo \u2018Programa dos 27 Pontos\u2019, documento elaborado pelos guerrilheiros, consta que eles defendiam o \u2018respeito a todos os cultos religiosos, n\u00e3o sendo permitida a persegui\u00e7\u00e3o de qualquer pessoa por motivo de pr\u00e1tica religiosa, inclusiveda que professa a pajelan\u00e7a, o terec\u00f4, o espiritismo, desde que esta pr\u00e1tica n\u00e3o cause dano ao indiv\u00edduo\u2019. Os guerrilheiros se expressaram contr\u00e1rios \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es que aqueles religiosos sofriam no seu cotidiano, inclusive por parte das autoridades policiais\u201d.<\/p>\n<p><strong>Terec\u00f4<\/strong><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-658367 lazy loaded\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok.png\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok.png 500w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok-214x300.png 214w\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"427\" data-src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok.png\" data-srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok.png 500w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cartaz-ok-214x300.png 214w\" data-sizes=\"(max-width: 305px) 100vw, 305px\" data-was-processed=\"true\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cartaz com mortos no Araguaia<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cNo relat\u00f3rio elaborado pelo guerrilheiro \u00c2ngelo Arroyo consta a seguinte informa\u00e7\u00e3o: \u201cNas sess\u00f5es de terec\u00f4 (candombl\u00e9) se faziam cantorias de elogio \u00e0 guerrilha\u201d. H\u00e1 v\u00e1rios ind\u00edcios de contatos no cotidiano, sobretudo por parte de Osvald\u00e3o e Francisco Manoel Chaves, dois homens negros, em rela\u00e7\u00e3o aos terecozeiros. Uma quest\u00e3o que a pesquisa busca fazer \u00e9 tentar interpretar essa rela\u00e7\u00e3o do ponto de vista dos terecozeiros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNesse sentido, um dos cap\u00edtulos da tese \u00e9 dedicado ao Terec\u00f4, que \u00e9 uma religi\u00e3o pouco conhecida nacionalmente, o que s\u00f3 torna ainda mais interessante o fato de os guerrilheiros terem realizado tais tipos de di\u00e1logo com aqueles religiosos. E isso apresentou algumas repercuss\u00f5es ainda durante a pr\u00f3pria Guerrilha. Por exemplo, ao final do depoimento do ind\u00edgena Tibaku do Suru\u00ed (Etnia Aikewara, sudeste do Par\u00e1) \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, em 2012, ele afirmou que foi obrigado pelos militares a agredir uma terecozeira, por ela ter se negado a usar o Terec\u00f4 como uma armadilha para os guerrilheiros, especialmente os do Destacamento B, liderado por Osvald\u00e3o. Tibaku afirmou que fora obrigado a trabalhar como guia para os militares, durante o cerco aos guerrilheiros\u201d.<\/p>\n<p><strong>Guerrilheiros e encantarias<\/strong><\/p>\n<p>\u201cComo se sabe hoje, e j\u00e1 foi abordado em algumas pesquisas, muitos dos relatos criados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Dina (Dinalva Concei\u00e7\u00e3o Oliveira Teixeira) e Osvald\u00e3o, que tratavam da suposta capacidade de ambos se transformarem em criaturas diversas durante as fugas nas matas, tinham liga\u00e7\u00e3o com o chamado mundo das \u2018encantarias\u2019\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA tese busca recuperar esses ind\u00edcios das atua\u00e7\u00f5es dos terecozeiros naquele per\u00edodo, justamente enfrentando a dificuldade de recuperar fontes a respeito disso. No entanto, as fontes apontam que existiram di\u00e1logos entre terecozeiros e guerrilheiros, que embora n\u00e3o fossem o elemento central do conflito ou da pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o dos guerrilheiros, nos trazem detalhes importantes, abordados na tese dentro do conjunto de intera\u00e7\u00f5es entre os guerrilheiros e a popula\u00e7\u00e3o local\u201d.<\/p>\n<p><strong>Contribui\u00e7\u00e3o negra dos comunistas no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea estuda a hist\u00f3ria comunista no Brasil, encontra um rol de pessoas negras que apresentaram protagonismo, a partir das lutas de seus tempos. Sem a pretens\u00e3o de citarmos todos, podemos lembrar de personagens como Minervino de Oliveira (1891-1977), Claudino Jos\u00e9 da Silva (1902-1985), \u00c9dison Carneiro (1912-1972), o j\u00e1 citado Cl\u00f3vis Moura (1925-2003), e Carlos Marighella (1911-1969), a pr\u00f3pria Helenira Resende (1944\u20131972). Al\u00e9m de personagens ainda um pouco mais antigos, como o tip\u00f3grafo Lu\u00eds da Fran\u00e7a e Silva, falecido em 1894, que atuou nas mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias ainda no s\u00e9culo XIX\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m \u00e9 relevante lembrarmos os debates criados nas d\u00e9cadas iniciais da atua\u00e7\u00e3o comunista no pa\u00eds, em torno do que era denominado como a \u2018quest\u00e3o negra\u2019, a partir de formula\u00e7\u00f5es da Internacional Comunista\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm 2009, o Governo Federal publicou uma rela\u00e7\u00e3o com 40 mulheres e homens negros vitimados pela viol\u00eancia de Estado durante o Regime Militar. Esse n\u00famero n\u00e3o contempla o total de mulheres e homens negros mortos pelo regime, mas traz alguns dados interessantes. Muitos dos listados naquela publica\u00e7\u00e3o eram vinculados ao PCdoB, sendo que nove deles tombaram durante a Guerrilha do Araguaia. S\u00e3o citados Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Costa (1943-1974), Dermeval da Silva Pereira (1945\u20131973), Dinalva Oliveira Teixeira (1945\u20131974), Francisco Manoel Chaves (1906 \u2013 1972), Helenira Resende de Souza Nazareth (1944\u20131972), Idal\u00edsio Soares Aranha Filho (1947\u20131972), L\u00facia Maria de Souza (1944\u20131973), Osvaldo Orlando da Costa (1938\u20131974)\u00a0e Rosalindo de Souza (1940\u20131973)\u201d.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2023\/04\/05\/araguaia-jornal-lembra-trajetoria-de-cearenses-mortos-pela-ditadura\/\">Araguaia: jornal lembra trajet\u00f3ria de cearenses mortos pela ditadura<\/a><\/p>\n<p><strong>Diferencial dos guerrilheiros negros<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMuitos deles (guerrilheiros negros) se destacaram na aproxima\u00e7\u00e3o com os moradores locais. Em seu relat\u00f3rio sobre a luta no Araguaia, \u00c2ngelo Arroyo destacou, por exemplo, que por volta do in\u00edcio de 1973, \u201cos guerrilheiros, todos eles, eram bastante estimados pela massa [popula\u00e7\u00e3o local]\u201d. (\u2026)<\/p>\n<p>\u201cL\u00facia Maria de Souza, por exemplo, teve muito destaque na sa\u00fade. Come\u00e7ou a realizar seus trabalhos no Araguaia sob a coordena\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico ga\u00facho Jo\u00e3o Carlos Haas Sobrinho, o Dr. Juca, respons\u00e1vel principal por essa quest\u00e3o m\u00e9dica da guerrilha\u201d. (\u2026) Muitos dos moradores eram migrantes, n\u00e3o eram assistidos pelo Estado e receberam dos guerrilheiros os primeiros atendimentos m\u00e9dicos tidos em seu novo espa\u00e7o de morada, em muitos casos situados bem no interior das matas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOsvald\u00e3o passou v\u00e1rios anos interagindo com os moradores locais. (\u2026) Transmitia aos demais informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias n\u00e3o somente para o seu treinamento militar, mas sobretudo para a adapta\u00e7\u00e3o aos costumes e formas de vida dos moradores da Amaz\u00f4nia Oriental. Al\u00e9m disso, era visto pelos moradores como um deles\u201d.<\/p>\n<p>Rosalindo Souza foi autor de um cordel chamado de\u00a0<em>Romance da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>, que traduzia para a popula\u00e7\u00e3o boa parte do Programa dos 27 Pontos, desenvolvido pelos guerrilheiros\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mortes e impunidade<\/strong><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-658350 lazy loaded\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia.jpeg 500w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia-300x169.jpeg 300w\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" data-src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia.jpeg\" data-srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia.jpeg 500w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/tropas-no-araguaia-300x169.jpeg 300w\" data-sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" data-was-processed=\"true\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tropas militares no Araguaia. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o\/arquivo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201c\u00c9 importante destacarmos que, como acontece com a maior parte dos guerrilheiros do Araguaia, os corpos dessas mulheres e homens citados acima jamais foram entregues aos seus familiares; e que os respons\u00e1veis por suas mortes e desaparecimentos jamais foram punidos. Alguns, inclusive, j\u00e1 faleceram, sem jamais terem respondido por seus crimes. Por isso, \u00e9 fundamental que as apura\u00e7\u00f5es das viola\u00e7\u00f5es aos Direitos Humanos cometidas por agentes de Estado durante a Guerrilha do Araguaia sejam apuradas, os respons\u00e1veis sejam punidos e sejam aprofundadas as medidas de repara\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Justi\u00e7a hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO apagamento dos negros e negras na hist\u00f3ria brasileira foi rotineiro, mas vem se ampliando o n\u00famero de pesquisas que t\u00eam buscado reverter esse quadro. Durante muito tempo a dita \u2018hist\u00f3ria oficial\u2019 foi escrita sob bases euroc\u00eantricas e que traziam heran\u00e7as advindas do nosso processo de coloniza\u00e7\u00e3o, no qual ind\u00edgenas e negros eram vistos como seres inferiores\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFinda a coloniza\u00e7\u00e3o, foram criadas formas para que os personagens centrais da escrita da hist\u00f3ria continuassem sendo os homens brancos, deixando-se menos espa\u00e7o para o estudo de experi\u00eancias vivenciadas por negros, ind\u00edgenas, mulheres e outros sujeitos, que ainda hoje ocupam a parte mais pobre e desassistida da nossa sociedade. Por isso, \u00e9 importante observarmos a nossa hist\u00f3ria levando em conta os elementos ra\u00e7a, classe e g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2022\/12\/28\/araras-vermelhas-de-cida-pedrosa-esta-entre-melhores-livros-de-2022\/\">Araras Vermelhas est\u00e1 entre melhores livros de 2022<\/a><\/p>\n<p><strong>As perdas desse apagamento<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO que as brasileiras e brasileiros perdem (com esse apagamento) \u00e9 que deixamos de ter contato com experi\u00eancias muito importantes para entendermos como muitos dos problemas que vivenciamos no presente foram constru\u00eddos historicamente, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 perman\u00eancia do racismo no pa\u00eds; seja quanto \u00e0 falta de acesso das popula\u00e7\u00f5es negras, ind\u00edgenas e pobres aos direitos b\u00e1sicos e \u00e0 pr\u00f3pria cidadania\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante compreendermos como, apesar desse quadro, muitas mulheres e homens negros participaram das lutas do seu tempo, buscando modificar a realidade do pa\u00eds. Nesse sentido, crian\u00e7as negras e n\u00e3o negras, por exemplo, podem beneficiar-se ao ter contato com a hist\u00f3ria de personagens negros que colaboraram com a constru\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria, bem como atrav\u00e9s do estudo de processos hist\u00f3ricos em que as popula\u00e7\u00f5es negras estiveram envolvidas. Tomar maior consci\u00eancia desses processos \u00e9 um passo fundamental \u2014 embora n\u00e3o o \u00fanico \u2014 para alterarmos grande parte das desigualdades sociais vigentes hoje no pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 um objetivo f\u00e1cil, mas \u00e9 importante caminharmos em dire\u00e7\u00e3o a ele\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--tags\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page--share-wrapper row-small\" aria-label=\"Compartilhe\">\n<div class=\"page--share\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--section-title\">AUTOR<\/div>\n<div class=\"post-content--author\">\n<div><a class=\"post-content--author-name\" href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/autor\/priscila-lobregatte\/\">Priscila Lobregatte<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo resgata papel central dos negros na Guerrilha do Araguaia &nbsp; Em entrevista ao Vermelho, historiador Janailson Mac\u00eado Luiz fala<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false,"_wpscppro_dont_share_socialmedia":false,"_wpscppro_custom_social_share_image":0,"_facebook_share_type":"","_twitter_share_type":"","_linkedin_share_type":"","_pinterest_share_type":"","_linkedin_share_type_page":"","_instagram_share_type":"","_medium_share_type":"","_threads_share_type":"","_google_business_share_type":"","_bluesky_share_type":"","_mastodon_share_type":"","_selected_social_profile":[],"_wpsp_enable_custom_social_template":false,"_wpsp_social_scheduling":{"enabled":false,"datetime":null,"platforms":[],"status":"template_only","dateOption":"","timeOption":"","customDays":"","customHours":"","customDate":"","customTime":"","schedulingType":""},"_wpsp_active_default_template":true},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-79513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=79513"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79514,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/79513\/revisions\/79514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=79513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=79513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=79513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}