{"id":83242,"date":"2023-10-12T07:24:12","date_gmt":"2023-10-12T10:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=83242"},"modified":"2023-10-12T07:24:12","modified_gmt":"2023-10-12T10:24:12","slug":"cartola-as-rosas-falam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=83242","title":{"rendered":"Cartola, as rosas falam"},"content":{"rendered":"<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mt-30\">\n<h1>Cartola, as rosas falam<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 11 de outubro de 1908 nascia um dos maiores compositores da m\u00fasica brasileira: Cartola venceu preconceitos e se eternizou. Leia o artigo de Urariano Mota.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-info \">\n<div class=\"author\">por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/autor\/urariano-mota\/\">Urariano Mota<\/a><\/div>\n<p class=\"date\">Publicado pelo Portal Vermelho<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post--image\"><img decoding=\"async\" class=\"lazy loaded\" src=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Cartola.jpg\" data-src=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Cartola.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/>Divulga\u00e7\u00e3o\/Discos Marcus Pereira\/Direitos Reservados<\/div>\n<p>Em boa hora, e como um bom-dia, o Google sa\u00fada hoje o compositor Cartola, no dia do seu nascimento. Ent\u00e3o a hora \u00e9 boa para este artigo que publiquei em 2004, no site bil\u00edng\u00fce La Insignia.<\/p>\n<p>N\u00e3o estranhem por favor a l\u00edngua, a linguagem e os termos das rosas que ser\u00e3o ouvidos a seguir. As rosas, por serem rosas, n\u00e3o s\u00e3o por isto somente formosura, perfume e delicadeza. Elas tamb\u00e9m se revoltam, porque a gente burra, carregadinha de preconceitos, n\u00e3o poderia esperar que daquele negro, daquele trabalhador bra\u00e7al, menos que pedreiro, pois n\u00e3o passava de um servente de obras, que daquele nariz couve-flor pudesse sair qualquer tipo de m\u00fasica. A gente burra, cheia de educa\u00e7\u00e3o formal, jamais poderia esperar que daquele tipinho magro, sem diploma, pudessem sair, sequer em sonho, tais versos e tais m\u00fasicas:<\/p>\n<p>\u201cBate outra vez,<br \/>\ncom esperan\u00e7as o meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npois j\u00e1 vai terminando o ver\u00e3o, enfim<\/p>\n<p>Volto ao jardim<br \/>\ncom a certeza que devo chorar<br \/>\npois bem sei que n\u00e3o queres voltar<br \/>\npara mim<\/p>\n<p>Queixo-me \u00e0s rosas, que bobagem<br \/>\nas rosas n\u00e3o falam<br \/>\nsimplesmente as rosas exalam<br \/>\no perfume que roubam de ti<\/p>\n<p>Devias vir<br \/>\npara ver os meus olhos tristonhos<br \/>\nE, quem sabe, sonhavas meus sonhos<br \/>\npor fim\u201d<\/p>\n<p>(Ouvir isso, na voz do compositor, em Cartola, discos Marcus Pereira \u2013 ouvir isso e ver o dia com os mesmos olhos \u00e9 o mesmo que ser de ferro e pedra,\u00a0 n\u00e3o ter conhecido As rosas pela primeira vez em 1976, ao lado do cine S\u00e3o Luiz, recebendo a brisa da tarde do Capibaribe, sem nenhuma certeza de que estaria vivo no outro dia, quem sabe, se continuaria a viver naquela mesma tarde. Ouvir isso e n\u00e3o sentir vontade de sair a correr pelas ruas, anunciando: \u201cou\u00e7o Cartola, eu sou humano!\u201d, ah, ouvir isso e n\u00e3o receber o cheiro do mar, o sal nos olhos, ah, \u00e9 simplesmente n\u00e3o ter mem\u00f3ria nem car\u00e1ter nem identidade nenhuma.)<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong>:\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2023\/10\/11\/mario-de-andrade-130-anos-singularidade-na-cultura-nacional\/\">Mario de Andrade, 130 anos: singularidade na cultura nacional<\/a><\/p>\n<p>A gente que odiosamente se diz e se chama de \u201cbem-nascida\u201d, a gente que se nutriu de privil\u00e9gios neste mundo t\u00e3o desigual, e que de semelhante nutri\u00e7\u00e3o jamais possuiu, longinquo sequer, uma ilumina\u00e7\u00e3o de que o mundo se faz tamb\u00e9m de doentes, moribundos e rejeitados, e, pior, que acha o mundo assim realizado como uma terra muito justa e normal, pois o mundo, desde que \u00e9 mundo, sempre foi assim, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o portanto nenhuma em mudar, ah, essa \u201cgente\u201d deveria romper a carca\u00e7a animal para ver se nela penetrava<\/p>\n<p>\u201cAinda \u00e9 cedo, amor<br \/>\nmal come\u00e7aste a conhecer a vida<br \/>\nj\u00e1 anuncias a hora de partida<br \/>\nsem saber mesmo o rumo que ir\u00e1s tomar<\/p>\n<p>Presta aten\u00e7\u00e3o, querida,<br \/>\nembora eu saiba que est\u00e1s resolvida<br \/>\nem cada esquina cai um pouco a tua vida<br \/>\nem pouco tempo n\u00e3o ser\u00e1s mais o que \u00e9s<\/p>\n<p>Ou\u00e7a-me bem, amor,<br \/>\npresta aten\u00e7\u00e3o, o mundo \u00e9 um moinho<br \/>\nvai triturar teus sonhos t\u00e3o mesquinhos<br \/>\nvai reduzir as ilus\u00f5es a p\u00f3<\/p>\n<p>Presta aten\u00e7\u00e3o, querida,<br \/>\nde cada amor tu herdar\u00e1s s\u00f3 o cinismo<br \/>\nquando notares est\u00e1s \u00e0 beira do abismo<br \/>\nabismo que cavaste com os teus p\u00e9s\u201d<\/p>\n<p>(Em 1978, como em outros anos, houve um casal que se separava para quem essa can\u00e7\u00e3o foi como uma profecia. Ainda que, como indiv\u00edduos, tenham tido uma trajet\u00f3ria de sucesso, material, pol\u00edtico, digno de notas nos jornais, ainda assim souberam afinal que todo o conseguido era um amontoado de trof\u00e9us mortos. Para qu\u00ea tanto empenho, se afinal a felicidade dos amantes n\u00e3o se completou? Vale mesmo a pena ganhar o mundo, lutar, vencer, se ganhar, ganhar \u00e9 perder, perder? Se at\u00e9 mesmo o que n\u00e3o se perde \u00e9 in\u00fatil ao fim, vale mesmo a pena vencer o mundo? Ent\u00e3o os amantes n\u00e3o possu\u00edam essa perspectiva. Ent\u00e3o havia um ser a um canto, a ouvir interminavelmente o vatic\u00ednio de Cartola. Que o mundo era um moinho, que o mundo reduziria tudo a p\u00f3, que mal come\u00e7avam terminavam, que na alvorada de um sentimento havia o ocaso, que no amanhecer havia uma noite s\u00f3 e imensa. De repente, quando se pensava que o amor venceria tudo, uma solid\u00e3o que era um ex\u00edlio da identidade, uma solid\u00e3o em que se continua a viver por in\u00e9rcia. Ent\u00e3o compreendiam menos, ent\u00e3o pensavam que a poesia era s\u00f3 a express\u00e3o de um sofrimento. Esta era a sua experi\u00eancia. Como pedir aos cegos as tonalidades do azul? \u00c9 preciso ter visto a luz para melhor sentir a sua aus\u00eancia. Ent\u00e3o n\u00e3o compreendiam que um m\u00fasico, com a sua arte, tomava conta da alma da gente, e de tal maneira, que pensavam: \u201cisto sou eu\u201d. Este conselho, esta advert\u00eancia \u00e0 mulher que parte e deixa em cada esquina a pr\u00f3pria vida, esse lamento do amante desprezado deixou de ser de Cartola, \u00e9 de todo amante, no Recife, em Olinda, em S\u00e3o Paulo, em Roma, em Madri, em Hong Kong, em Marte, em qualquer gal\u00e1xia onde houver humanidade:<\/p>\n<p>\u201cPresta aten\u00e7\u00e3o, querida,<br \/>\nembora eu saiba que est\u00e1s resolvida<br \/>\nem cada esquina cai um pouco a tua vida<br \/>\nem pouco tempo n\u00e3o ser\u00e1s mais o que \u00e9s<\/p>\n<p>Ou\u00e7a-me bem, amor,<br \/>\npresta aten\u00e7\u00e3o, o mundo \u00e9 um moinho<br \/>\nvai triturar teus sonhos t\u00e3o mesquinhos<br \/>\nvai reduzir as ilus\u00f5es a p\u00f3<\/p>\n<p>Presta aten\u00e7\u00e3o, querida,<br \/>\nde cada amor tu herdar\u00e1s s\u00f3 o cinismo<br \/>\nquando notares est\u00e1s \u00e0 beira do abismo<br \/>\nabismo que cavaste com os teus p\u00e9s\u201d )<\/p>\n<p>Em 1977, um senhor de cabelos que se tingiam de cinza entrou sozinho no Teatro do Parque, no Recife. Dir-se-ia um eletricista, parecia um eletricista, porque era negro e possu\u00eda um ar de tranquila e majestosa distin\u00e7\u00e3o, mas sem alarde. Um oper\u00e1rio, na humildade e discri\u00e7\u00e3o. Camisa dupla face. Ele iria, deveria ir cuidar de algum fio solto, ou rever a ilumina\u00e7\u00e3o do teatro, pensaram todos. Ent\u00e3o os que esperavam na fila, notaram os seus grandes \u00f3culos escuros, o seu nariz, o seu rosto oval, de um Modigliani na \u00c1frica. Ent\u00e3o perceberam que o eletricista era o oper\u00e1rio de almas Angenor de Oliveira, o compositor amado e amigo de Noel Rosa, o homem a quem Nelson Sargento n\u00e3o ousava pedir parceria, por vergonha, diante do \u201ccompositor fin\u00edssimo\u201d. Como, Cartola! Sem tapete vermelho, sem carro reluzente, sem guarda-costas, sem roupas de grife que marcam a diferen\u00e7a de mercado nas almas. Sem trombetas, ele que teria todos os direitos de se anunciar. Ent\u00e3o veio a li\u00e7\u00e3o, mais uma, insinuada pelo cidad\u00e3o discreto, de cabe\u00e7a baixa, a entrar no teatro: que a melhor arte esconde a sua arte, que o artista \u00e9 a sua arte, que tudo mais \u00e9 dispens\u00e1vel. Na ocasi\u00e3o, lembro, apenas duvidamos que aquele homem tivesse mesmo a poesia de um Cartola. A gente burra, carregadinha de preconceitos, n\u00e3o poderia esperar que naquele negro, naquele trabalhador bra\u00e7al, batesse um cora\u00e7\u00e3o que fosse o nosso, maior que o nosso.<\/p>\n<p>\u201cDevias vir<br \/>\nPara ver os meus olhos tristonhos<br \/>\nE, quem sabe, sonhavas meus sonhos<br \/>\nPor fim\u201d<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"As Rosas N\u00e3o Falam\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PpE-lAfqR1g?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"375\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--tags\">\n<div class=\"post-content--section-title\">TAGS<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/tag\/cartola\/\" rel=\"tag\">CARTOLA<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/tag\/musica-2\/\" rel=\"tag\">M\u00daSICA<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/tag\/musica-brasileira\/\" rel=\"tag\">M\u00daSICA BRASILEIRA<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page--share-wrapper row-small\" aria-label=\"Compartilhe\">\n<div class=\"page--share\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--section-title\">AUTOR<\/div>\n<div class=\"post-content--author\">\n<div class=\"post-content--author-avatar\">\n<div class=\"lazy\" role=\"img\" data-bg=\"url(https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/urariano.jpg)\" data-was-processed=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<div><a class=\"post-content--author-name\" href=\"https:\/\/www.vermelho.org.br\/autor\/urariano-mota\/\">Urariano Mota<\/a><\/p>\n<div class=\"post-content--author-biography\">Jornalista, \u00e9 autor dos romances\u00a0<i>Soledad no Recife<\/i>,\u00a0<i>O Filho Renegado de Deus<\/i>\u00a0e\u00a0<i>A Mais Longa Dura\u00e7\u00e3o da Juventude<\/i>. \u00c9 colunista do\u00a0<b>Vermelho<\/b>\u00a0e colaborador do\u00a0<b>Prosa, Poesia e Arte<\/b>.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartola, as rosas falam &nbsp; 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