{"id":96033,"date":"2025-10-16T06:51:01","date_gmt":"2025-10-16T09:51:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=96033"},"modified":"2025-10-16T06:51:01","modified_gmt":"2025-10-16T09:51:01","slug":"tcu-investiga-40-mil-emendas-que-revelam-esquema-entre-crime-organizado-e-politicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/?p=96033","title":{"rendered":"TCU investiga 40 mil emendas que revelam esquema entre crime organizado e pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mt-30\">\n<h1>TCU investiga 40 mil emendas que revelam esquema entre crime organizado e pol\u00edticos<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com assassinato de agiota no Maranh\u00e3o e rastreamento de apenas 70% dos repasses, Fl\u00e1vio Dino convoca nova audi\u00eancia no STF para discutir a captura do or\u00e7amento p\u00fablico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-info \">\n<div class=\"author\">por\u00a0<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/autor\/cezar-xavier-2\/\">Cezar Xavier<\/a><\/div>\n<p class=\"date\">Publicado pelo Portal Vermelho<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post--image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Emendas-PIX.jpg\" \/>Plen\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados durante sess\u00e3o conjunta do Congresso Nacional. Parlamentares \u00e0 bancada acompanham sess\u00e3o. Mesa: l\u00edder do governo no Congresso Nacional. Foto: Waldemir Barreto\/Ag\u00eancia Senado<\/div>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal mostram que o desvio de emendas parlamentares, antes visto como um problema de \u201ccorrup\u00e7\u00e3o tradicional\u201d, evoluiu para um esquema de lavagem de dinheiro que se entrela\u00e7a com o crime organizado. O caso do Maranh\u00e3o \u00e9 emblem\u00e1tico: o agiota Josival Cavalcanti da Silva, o \u201cPacovan\u201d, que atuava como intermedi\u00e1rio entre pol\u00edticos e prefeituras, foi assassinado h\u00e1 pouco mais de um ano \u2014 deixando rastros de uma rede que movimentava milh\u00f5es em recursos p\u00fablicos desviados.<\/p>\n<p>A engrenagem era simples e brutal. Prefeitos recebiam as emendas via Pix \u2014 transfer\u00eancias diretas ao caixa \u00fanico das prefeituras \u2014 e devolviam parte do dinheiro a parlamentares e agiotas. O Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) reconhece que, mesmo com novos sistemas de monitoramento, ainda s\u00f3 consegue rastrear 70% das transfer\u00eancias feitas em 2025. O restante corre em um terreno obscuro, onde o dinheiro p\u00fablico desaparece sem deixar vest\u00edgios.<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Dino aperta o cerco<\/strong><\/p>\n<p>O ministro Fl\u00e1vio Dino, do Supremo Tribunal Federal, convocou para o dia 23 uma nova audi\u00eancia p\u00fablica sobre o uso das emendas parlamentares. Dino, que j\u00e1 determinou bloqueios de recursos e cobrou presta\u00e7\u00e3o de contas de deputados e senadores, quer saber at\u00e9 onde o sistema de controle avan\u00e7ou \u2014 e o que ainda est\u00e1 sendo ocultado.<\/p>\n<p>Em conversas reservadas, a colunista Vera Rosa, do\u00a0<em>Estad\u00e3o<\/em>, diz que ministros do STF t\u00eam relatado que parte significativa das emendas suspeitas \u00e9 \u201creligiosa\u201d, isto \u00e9, vinculada a entidades ou obras fantasmas usadas para lavar dinheiro de propina. Segundo um deles, \u201co parlamentar fica com um ter\u00e7o\u201d e o restante se dilui em contratos forjados. As obras, quando existem, s\u00e3o apenas fachadas.<\/p>\n<p><strong>Congresso em p\u00e2nico<\/strong><\/p>\n<p>A escalada das investiga\u00e7\u00f5es levou o Congresso a reagir com p\u00e2nico. A tentativa mais expl\u00edcita foi a PEC da Blindagem, uma proposta que buscava proteger parlamentares e dirigentes partid\u00e1rios contra investiga\u00e7\u00f5es criminais. A medida, que chegou a avan\u00e7ar na C\u00e2mara, foi barrada pelo Senado ap\u00f3s forte rea\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>O motivo do temor \u00e9 claro: a Pol\u00edcia Federal est\u00e1 cada vez mais pr\u00f3xima de rastrear o caminho do dinheiro. Em nova opera\u00e7\u00e3o, a PF cumpriu mandados contra o deputado Dal Barreto (Uni\u00e3o Brasil-BA), ap\u00f3s descobrir que um posto de gasolina de sua propriedade recebeu recursos de emenda Pix repassada por outro deputado \u2014 um caso t\u00edpico de triangula\u00e7\u00e3o entre parlamentares.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o penal que envolve Josimar Maranh\u00e3ozinho, Pastor Gil e Bosco Costa, todos do PL, refor\u00e7a o padr\u00e3o. Eles s\u00e3o acusados de cobrar R$ 1,6 milh\u00e3o de propina do ent\u00e3o prefeito de S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar (MA) para liberar uma emenda de R$ 7 milh\u00f5es. Segundo a PF, o esquema inclu\u00eda uma \u201cestrutura armada\u201d para intimidar prefeitos e garantir a devolu\u00e7\u00e3o de parte dos repasses.<\/p>\n<p><strong>A \u201cholding\u201d do crime e o pre\u00e7o do habeas corpus<\/strong><\/p>\n<p>O epicentro do esc\u00e2ndalo continua sendo o Maranh\u00e3o, onde Pacovan virou s\u00edmbolo da fus\u00e3o entre a agiotagem, a pol\u00edtica e o crime. Ele emprestava dinheiro a parlamentares, intermediava acordos com prefeituras e recuperava o capital com o desvio das emendas p\u00fablicas. Quando preso, pagava propina a autoridades do Judici\u00e1rio local \u2014 segundo as investiga\u00e7\u00f5es, chegou a reclamar da \u201cinfla\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o do habeas corpus\u201d.<\/p>\n<p>Seu assassinato, h\u00e1 pouco mais de um ano, marcou a ruptura violenta dessa engrenagem, mas n\u00e3o o fim dela. Pelo contr\u00e1rio: novos operadores e fintechs passaram a ocupar o espa\u00e7o, usando plataformas digitais para mascarar as transfer\u00eancias e dar apar\u00eancia legal a recursos sujos.<\/p>\n<p><strong>O dilema de Lula diante de um Congresso capturado<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva tenta recompor sua base e governar com um Congresso dominado pelo Centr\u00e3o, a crise das emendas se transforma em um campo minado pol\u00edtico. Ap\u00f3s ser derrotado em vota\u00e7\u00f5es que refor\u00e7aram o poder do Legislativo sobre o Or\u00e7amento, o Planalto amea\u00e7a cortar parte das emendas \u00e0s v\u00e9speras de 2026 \u2014 ano eleitoral crucial.<\/p>\n<p>Mas o dilema \u00e9 profundo: sem identificar os esquemas e os benefici\u00e1rios das chamadas \u201cemendas religiosas\u201d, o governo corre o risco de apenas redistribuir o rombo. A m\u00e1quina parlamentar, sustentada por transfer\u00eancias pouco transparentes, continua drenando recursos e enfraquecendo o Estado.<\/p>\n<p>As novas investiga\u00e7\u00f5es e o esfor\u00e7o do STF exp\u00f5em o que j\u00e1 \u00e9 chamado nos bastidores de \u201ccaptura or\u00e7ament\u00e1ria\u201d \u2014 um processo no qual parlamentares controlam fatias crescentes do or\u00e7amento p\u00fablico, muitas vezes de forma pessoal e opaca. A fronteira entre representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e gest\u00e3o criminosa nunca foi t\u00e3o t\u00eanue.<\/p>\n<p><strong>A origem: o \u201cPix das emendas\u201d como moeda pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo das emendas Pix nasceu em 2020, no auge da pandemia, como uma manobra do governo Jair Bolsonaro para ampliar o poder de barganha com o Congresso Nacional. O ent\u00e3o presidente enfrentava um ambiente de isolamento pol\u00edtico, amea\u00e7ado por pedidos de impeachment e pela perda de apoio parlamentar. A solu\u00e7\u00e3o foi entregar o cofre da Uni\u00e3o aos aliados.<\/p>\n<p>Naquele ano, sob o discurso da \u201cagilidade\u201d e da \u201cdesburocratiza\u00e7\u00e3o\u201d, o governo criou uma modalidade de repasse direto de recursos federais a estados e munic\u00edpios, via transfer\u00eancias especiais, sem necessidade de conv\u00eanios, licita\u00e7\u00f5es complexas ou presta\u00e7\u00e3o de contas imediata.<\/p>\n<p>Esses repasses \u2014 feitos pelo Tesouro direto para contas de prefeituras e governos estaduais \u2014 ficaram conhecidos como \u201cemendas Pix\u201d, em alus\u00e3o ao sistema de transfer\u00eancias instant\u00e2neas criado pelo Banco Central.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o dinheiro caiu em caixas \u00fanicos municipais, misturado a outras receitas locais. Isso tornou quase imposs\u00edvel rastrear a aplica\u00e7\u00e3o dos recursos, abrindo espa\u00e7o para uma nova gera\u00e7\u00e3o de esquemas de desvio e lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p><strong>O apetite do Centr\u00e3o e o nascimento do \u201cor\u00e7amento secreto\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o do Centr\u00e3o \u2014 bloco de partidos que passou a dominar a rela\u00e7\u00e3o com o Executivo \u2014, as emendas Pix se tornaram a principal moeda de troca entre o Planalto e o Congresso.<\/p>\n<p>Bolsonaro, que havia sido eleito sob a promessa de combater a \u201cvelha pol\u00edtica\u201d, entregou o controle das emendas a figuras como Arthur Lira (PP-AL) e Ciro Nogueira (PP-PI).<\/p>\n<p>O mecanismo foi aperfei\u00e7oado e turbinado: primeiro, com o \u201cor\u00e7amento secreto\u201d (as chamadas RP9, de relator-geral), e depois com as emendas Pix, que se tornaram uma alternativa ainda mais dif\u00edcil de fiscalizar.<\/p>\n<p>Entre 2020 e 2022, foram liberados mais de R$ 44 bilh\u00f5es em transfer\u00eancias especiais. Uma fatia expressiva foi parar em cidades pequenas, controladas por prefeitos aliados, igrejas, ou empresas de fachada. Em muitos casos, as obras nem sa\u00edram do papel.<\/p>\n<p>O TCU, em relat\u00f3rios de 2023 e 2024, identificou desvios sistem\u00e1ticos e aus\u00eancia quase total de controle, afirmando que o modelo \u201cinviabiliza a rastreabilidade do dinheiro p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p><strong>O rastro da impunidade e o papel das fintechs<\/strong><\/p>\n<p>O uso de fintechs e bancos digitais foi outro elemento-chave para o sucesso do esquema. As plataformas de pagamentos instant\u00e2neos permitiam movimentar grandes valores com baixa rastreabilidade, sem despertar alertas autom\u00e1ticos do sistema banc\u00e1rio tradicional.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal, em relat\u00f3rios recentes, identificou um padr\u00e3o de transa\u00e7\u00f5es cruzadas entre contas de prefeituras e pessoas f\u00edsicas ligadas a gabinetes parlamentares \u2014 muitas delas sem justificativa fiscal ou contratual.<\/p>\n<p>Segundo investigadores, as emendas Pix foram o \u201cDNA financeiro\u201d do que viria a se tornar a nova economia paralela da pol\u00edtica: uma simbiose entre o poder p\u00fablico, empresas de fachada e redes de lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p><strong>A tentativa de encobrir o rastro: a PEC da Blindagem<\/strong><\/p>\n<p>Quando as investiga\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a avan\u00e7ar, a rea\u00e7\u00e3o do Congresso foi imediata. Em 2024, l\u00edderes do Centr\u00e3o apresentaram a PEC da Blindagem, que previa imunidade a parlamentares e dirigentes partid\u00e1rios contra investiga\u00e7\u00f5es criminais.<\/p>\n<p>A proposta foi recha\u00e7ada pela sociedade civil e arquivada no Senado, mas mostrou o tamanho do medo no Legislativo. Deputados e senadores sabiam que o cerco se fechava, especialmente com o Supremo Tribunal Federal e o TCU aprimorando as ferramentas de rastreamento de transfer\u00eancias p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Cinco anos depois de sua cria\u00e7\u00e3o, as emendas Pix se tornaram o s\u00edmbolo da captura do Estado pelo Congresso. O modelo que come\u00e7ou como promessa de descentraliza\u00e7\u00e3o acabou concentrando poder nas m\u00e3os de poucos l\u00edderes pol\u00edticos, que decidiram o destino de bilh\u00f5es sem transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 gigantesco: as emendas Pix criaram uma cultura de opacidade institucionalizada. E, mesmo ap\u00f3s a morte de seus principais operadores, como Pacovan, a engrenagem continua viva \u2014 reinventada nas sombras digitais do or\u00e7amento p\u00fablico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--tags\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page--share-wrapper row-small\" aria-label=\"Compartilhe\">\n<div class=\"page--share\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div class=\"column large-12 small-12\">\n<div class=\"post-content--section-title\">Autor<\/div>\n<div class=\"post-content--author\">\n<div><a class=\"post-content--author-name\" href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/autor\/cezar-xavier-2\/\">Cezar Xavier<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TCU investiga 40 mil emendas que revelam esquema entre crime organizado e pol\u00edticos &nbsp; Com assassinato de agiota no Maranh\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-96033","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/96033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=96033"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/96033\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96034,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/96033\/revisions\/96034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=96033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=96033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomamede.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=96033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}