A Câmara dos Deputados aprovou a redução do tempo de campanha nas ruas e nas redes de 90 para 45 dias, com o argumento de torná-la mais barata. É o clássico “jogar fora o bebê junto com a água do banho”, já que a medida reduz algo precioso na democracia: o tempo para discussão.
Por Nicolas Chernavsky*, no Brasil Debate
Agência Brasil
No meio da reforma política conservadora aprovada na Câmara dos Deputados, sob a liderança de Eduardo Cunha, um ponto muito preocupante não está recebendo atenção dos setores mais progressistas do Brasil. Trata-se da redução de 90 para 45 dias do tempo de campanha eleitoral, nas ruas e nas redes. Também foi aprovada pela Câmara a redução do tempo de propaganda eleitoral gratuita (gratuita para os candidatos, porque para o Estado não é) de 45 para 30 dias.
Para ambas as medidas, o argumento foi a redução de custo das campanhas. Mas é preciso separá-las: uma coisa é reduzir o tempo que o Estado vai pagar para os candidatos poderem se expressar na televisão em rede nacional. Outra coisa é proibir todos os candidatos de fazerem qualquer tipo de campanha nas ruas e nas redes.
Essa segunda proibição é especialmente séria, porque reduz o tempo para o livre debate de argumentos e propostas, prejudicando o aprofundamento dessa argumentação e a circulação o mais ampla possível das informações, para um melhor embasamento do voto. Assim, campanhas mais curtas favorecem as candidaturas mais conservadoras, pois há mais dificuldade para se chegar à verdade e aos diagnósticos dos problemas e soluções.
É verdade que a medida ainda teria que ser aprovada no Senado para entrar em vigor, mas pelo andamento do assunto na Comissão da Reforma Política do Senado e entre os senadores em geral, parece não haver muita preocupação com a medida, sendo que talvez haja até uma ligeira simpatia, não necessariamente à redução para 45 dias, mas talvez para 60 dias de campanha.
Além disso, essa mudança não é constitucional, e por isso precisa de um número menor de votos para ser aprovada. O fato é que não parece haver no Senado a percepção majoritária de que qualquer redução no tempo de campanha é uma redução na qualidade da democracia brasileira.
Não é à redução do tempo de televisão que estou me referindo, que talvez até possa ser reduzido, e sim à campanha sem interferência ou gasto do Estado, nas ruas e nas redes.
O gasto do Estado nas campanhas é um tema importante, mas não pode ser confundido com a campanha livre, popular, nas ruas e nas redes, que não exige necessariamente dinheiro, mas disposição voluntária das pessoas. Essa campanha é umas das propriedades mais valiosas de uma democracia, e seu tempo não pode ser sacrificado para se reduzir o valor gasto nas campanhas, uma vez que isso pode ser alcançado com a colocação de um teto razoável, por exemplo.
Aliás, o fato de a campanha ser proibida fora desses 90 dias, apesar de fazer parte da nossa cultura e da nossa história, pode ser questionado também. Por que mesmo impedimos a campanha a qualquer tempo? Qual é a vantagem de proibir esse debate?
Proibir o debate de um assunto sempre tem um lado ruim para a democracia, e por isso essa proibição tem que ter um forte lado bom para justificá-la.
Qual é o lado bom de proibir uma pessoa ou partido de fazer campanha fora desses 90 dias? Redução da influência relativa do poder econômico? Ao contrário, pois a campanha existe dia e noite, ela não para nunca, seja nos meios de comunicação, seja na pressão dos setores econômicos e organizações sociais.
A única coisa que se consegue proibindo a explicitação da campanha é mantê-la implícita, dificultando que seja analisada em maior profundidade, o que – novamente – favorece as candidaturas mais conservadoras. Vale lembrar que o nosso Código Eleitoral básico é de 1965, um ano depois do golpe de Estado que acabou com a democracia brasileira.
O progressismo brasileiro esteve concentrado nos últimos meses em algumas pautas conservadoras vindas da Câmara dos Deputados, mas alguns pontos passaram batidos, como essa redução do tempo de campanha e o fim da reeleição, sendo que este último reflete o pavor do conservadorismo brasileiro de ter mais dois mandatos de Lula depois de Dilma, ficando assim o progressismo 24 anos seguidos encabeçando o governo federal (ainda longe, entretanto, dos 38 anos seguidos que o conservadorismo esteve nessa situação anteriormente, de 1964 a 2002).
O PT e o progressismo brasileiro em geral têm um trauma com a reeleição pela forma como foi aprovada no Brasil, nos anos 1990. Mas a razão profunda pela qual a reeleição deveria ser permitida, inclusive indefinidamente, é a mesma que se aplica ao tempo de campanha: sem reeleição, a máquina do Estado pode ser usada do mesmo jeito, mas de forma mais disfarçada, pois “não é para o mesmo candidato”.
Ou seja, ao ser mais disfarçado, o uso da máquina do Estado é mais dificilmente discutido, favorecendo – novamente – as candidaturas mais conservadoras.
*Nicolas Chernavsky é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP)
Portal Vermelho
Governo anuncia novas medidas para coibir preços abusivos dos combustíveis Distribuidoras deverão informar semanalmente…
COMUNICADO ÀS EMPRESAS Alteração na Presidência do Sindicato Metabase O Sindicato Metabase de Catalão e…
https://www.youtube.com/watch?v=JPIl8suQpe8&list=PLU7EHq4fmk62WyLxYihJgBKgJP0nCbK8p&index=12
Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial Guerra neocolonial e…
https://www.youtube.com/watch?v=awCEN1cUkWY&list=PLU7EHq4fmk62WyLxYihJgBKgJP0nCbK8p&index=11