O golpe foi dado alegando que a voz das ruas o pedia. Quando foi votado no Senado, os movimentos populares já o questionavam fortemente, mas eles continuavam, nos editoriais dos seus jornais e revistas, nos discursos nas sessões vergonhosas do Congresso, a dizer que promoviam o golpe como resposta à voz das ruas.
Desde então, a direita saiu das ruas, se refugiou no Congresso, na mídia, no governo golpista, enquanto o povo reocupou os espaços públicos e praças. As medidas do governo foram isolando-o cada vez mais, as reações da população à perda dos seus direitos foram se canalizando para a proposta de mudanças regressivas na Previdência.
A consciência de que a vida de todos tinha melhorado desde 2003 e passou a piorar com o golpe gerou a “saudade do Lula”, essa categoria que intriga os especialistas, mas que aparece como muito natural para a grande maioria da população, que viveu a virada negativa da sua vida em tão pouco tempo de novo governo. Os efeitos da campanha midiática contra o PT não se esgotaram, nem as acusações de corrupção, nem a desqualificação da política, mas passou a haver uma reação popular, com uma narrativa distinta: a do golpe para restaurar o neoliberalismo de Collor e FHC, por meio do governo mais corrupto da história do Brasil, que dilapida o patrimônio público, ataca os direitos dos trabalhadores, corta recursos das políticas sociais e torna o nosso país de novo subalterno aos EUA.
As demonstrações de 15 de março confirmam que a voz das ruas hoje é muito diferente daquela que os golpistas utilizaram para dar o golpe. Pelo Brasil inteiro, em centenas de cidades, com imensas manifestações nos grandes centros – tendo a da Avenida Paulista como epicentro – expressaram a voz das ruas, a voz do povo hoje: não à reforma da Previdência, não à reforma trabalhista, não à terceirização, pelos direitos dos professores e pelos recursos para as políticas sociais e fora o governo golpista.
Cabe ao Congresso agora ouvir a voz das ruas, vetar definitivamente as tentativas de tirar os direitos dos trabalhadores com as mudanças regressivas na Previdência, parar de vez com a nova tentativa de terceirização das relações de trabalho, cancelar definitivamente a reforma trabalhista e se sintonizar com a vontade do povo. Se não quiserem ser varridos radicalmente nas eleições do ano que vem. Quem, depois das manifestações do dia 15 de marco, seguir votando contra a voz das ruas, vai pagar um preço alto, com o fim da sua carreira política.
As manifestações também terminaram com uma versão que corre pela internet sobre a apatia do povo brasileiro e, em particular, da classe trabalhadora. Demonstraram também como o governo perdeu a batalha pelo discurso sobre a Previdência, apesar dos imensos recursos gastos na propaganda.
Confirma que, quando os argumentos se propagam, quando o povo é convocado depois de esclarecido a respeito do tema, ele se mobiliza, mesmo às vezes sem transporte, com grandes sacrifícios, mas com imensa alegria e combatividade. Essa é a maior das lições a tirar das mobilizações de 15 de marco.
Lula foi, uma vez mais, o grande protagonista da semana, iniciada com a abertura do Congresso da Contag, em Brasil, na segunda, com seu depoimento na terça – em que até seus maiores adversários reconhecem que ele “fez barba, cabelo e bigode” –, passando pelo auge da maior manifestação do dia 15, na Avenida Paulista, para desembocar na ida à Paraíba, com Dilma Rousseff, para molhar suas mãos nas águas do velho Chico, numa obra que ele sempre sonhou – levar água para os nordestinos –, e que vai contar com caravanas de gente de toda a região.
Para quem quiser ouvir, aí está a voz das ruas.
Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros
Publicado originalmente no site Brasil 24
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