“Expectativa da vitória é o principal motor de uma campanha presidencial – e a campanha de Bolsonaro não consegue transformar fatos em votos”, diz Thomas Traumann
Publicado pelo Portal Vermelho
A campanha de Jair Bolsonaro (PL) olhava para agosto e apostava alto. Era o mês em que haveria, supostamente, uma “tempestade perfeita” para a reeleição do presidente: desemprego em queda, economia ligeiramente aquecida, Auxílio Brasil e vale-gás turbinados, além dos vouchers para caminhoneiros e taxistas.
Afora isso, com o início da campanha eleitoral em rádio e TV, Bolsonaro poderia reduzir a elevada rejeição a seu governo e melhorar suas intenções de voto. Os mais otimistas diziam que, nas pesquisas do final de agosto, o presidente já apareceria à frente de seu adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mas os números do Datafolha que vieram a público na noite desta quinta-feira (1) abalaram de vez o ânimo dos bolsonaristas. Não que outras sondagens, divulgadas anteriormente, apontassem tendências diferentes. O problema é que, nos meios políticos, não há instituto de pesquisa com mais credibilidade que o Datafolha, ainda que as hordas ligadas a Bolsonaro tentem desqualificá-lo a cada resultado adverso.
As pesquisas balizam não apenas o “moral da tropa” – mas também ajustes nos discursos, prioridades de agendas e até a disposição de doadores. Se o levantamento é do Datafolha, esse impacto tende a ser maior. Por isso, chegar a setembro estagnado nas pesquisas, mesmo com a “tempestade perfeita”, feriu Bolsonaro.
Em sua coluna no O Globo, o jornalista Thomas Traumann enfatiza o maior risco de uma estagnação desse porte após “uma semana de campanha de rádio e TV, uma entrevista no Jornal Nacional, um debate na TV e R$ 600 depositados nas contas de mais de 20 milhões de famílias cadastradas no Auxílio Brasil”. Para Traumann, o que há de pesar cada vez mais para o presidente é o tempo: “já se passaram duas semanas desde a primeira pesquisa Datafolha na campanha e agora só faltam 30 dias até o primeiro turno”.
Hoje, a um mês das eleições, 42% dos brasileiros consideram o governo Bolsonaro “ruim” ou “péssimo”, e 52% dizem que não votariam no presidente “de jeito nenhum”. A possibilidade de segundo turno cresceu nos últimos dias não por causa de Bolsonaro, mas apesar dele. Lula oscilou para baixo, mas dentro da margem de erro, enquanto Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), juntos, cresceram cinco pontos percentuais.
“A expectativa da vitória é o principal motor de uma campanha presidencial – e a campanha de Bolsonaro não consegue transformar fatos em votos”, diz Thomas Traumann. Sem contar que, mesmo com as medidas eleitoreiras do governo, o presidente continuou a cometer deslizes, como a agressão verbal à jornalista Vera Magalhães no debate entre os presidenciáveis realizado na Band.
Além disso, as denúncias contra Bolsonaro não acabam. Nesta semana, o UOL revelou que a família Bolsonaro negociou 107 imóveis desde a década de 1990. Desse total, ao menos 51 foram pagos com dinheiro vivo, o que levanta a suspeita de lavagem de dinheiro.
Os concorrentes ainda acusaram Bolsonaro de estelionato eleitoral, já que o presidente entregou ao Congresso uma peça orçamentária que não incorpora diversas promessas de campanha. Conforme o Orçamento 2023, o Auxílio Brasil será reduzido a R$ 405, embora a campanha Bolsonaro se comprometa em manter o valor atual, de R$ 600.
“Pesquisas qualitativas mostram que eleitores cadastrados do Auxílio desconfiavam da promessa do presidente porque na virada do ano o governo de fato interrompeu o pagamento do benefício. A proposta do orçamento dá elementos para esta desconfiança”, explica Traumann.
De acordo com o jornalista, “sem um crescimento consistente nas pesquisas, Bolsonaro perde o engajamento de seus principais cabos eleitorais, os candidatos a governador, senador e deputados federais e estaduais. A maioria dos candidatos dos partidos da aliança PP, PL e Republicanos é bolsonarista até a página 4, o que significa que farão campanha a favor do presidente se acharem que têm chances de ganhar”.
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