O termo agronegócio foi originalmente criado pelos professores de Harvard, John Davis e Ray Goldberg, na década de 50. Ambos autores conceituaram o agribusinnes como “a soma das operações de produção e distribuição de suprimentos, das operações de produção nas unidades agrícolas, do armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles”. Em outras palavras: para além da tradicional segmentação da economia em três setores (agricultura, indústria e serviços), o “agronegócio” abrangeria todas as atividades econômicas vinculadas aos produtos agrícolas, dentre as quais a produção de insumos, o cultivo, a armazenagem, a industrialização e a comercialização.
É lógico que o agro no Brasil sempre foi um negócio, e extremamente lucrativo, não à toa que a produção extensiva de bens agrícolas para o mercado externo traduzia o sentido capitalista da colonização portuguesa. Ainda assim, tratava-se de uma produção de baixa produtividade (com mão de obra pouco qualificada e sem máquinas) cujo sucesso dependia enormemente das vantagens competitiva do Brasil, em especial o clima e a ampla disponibilidade de terras virgens, nas quais cultivávamos as monoculturas — primeiro o açúcar no período colonial, e depois o café nos séculos XIX e XX. Um negócio lucrativo, portanto, embora muito aquém das cadeias de produção altamente complexas do “agronegócio“ de Davis e Goldberg.
O agro brasileiro viveria uma revolução ao longo da segunda metade do XX, tal como narrada por Hebert Klein e Francisco Lula no recente Feeding the World: Brazil’s Transformation into a Modern Agricultural Economy. Ao contrário do avanço da fronteira sobre as terras virgens, a modernização da foi puxada pela mecanização agrícola, a instalação de uma indústria química avançada e de um sofisticado sistema de crédito. Tudo isso apoiado pelo desenvolvimento de um programa de pesquisa agrícola que formou agrônomos altamente especializados e a Embrapa, um centro de pesquisa agropecuária de ponta. Para se ter uma ideia, entre 1998 e 2017 foram produzidas 8.000 dissertações de mestrado e 3.000 teses de doutorado, somente em função das quais nos tornaríamos habilidosos para suplantar as dificuldades e complexidades da agricultura tropical, mais sujeita a pragas, insetos e umidade do que a agricultura temperada. Ao passo que os latifúndios foram substituídos por fazendas modernas, o Brasil se tornou o maior exportador de soja, carne processada, laranja e açúcar, além de figurar entre os 5 maiores produtores mundiais de outros 32 gêneros agrícolas.
Em Feeding the World, Klein e Lula destacam o importante papel do Estado na disponibilização de créditos para a produção, além de investimentos para a pesquisa científica, os quais exerceram papel compensatório aos custos adicionais de produzir num país com entraves logísticos e tributários. Foi essa combinação de atuação estatal e empreendedorismo privado, levada a cabo desde os anos setenta, que conferiu competitividade internacional para a expansão da agropecuária mesmo no contexto de abertura comercial dos anos noventa. O agronegócio aproveitou o aumento da demanda global por commodities, na esteira da ascensão da China, e atualmente representa nada menos que 1/4 do PIB nacional.
O outro lado da moeda é o papel exercido por atores que se valem do poderio, tal como expresso nas estatísticas macroeconômicas, para forçarem uma hegemonia predatória do agronegócio. No recém-lançado A Formação Política do Agronegócio, o antropólogo Caio Pompeia narra a crescente convergência política entre atores do agronegócio, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), ao menos desde a atuação conjunta nos embates do Novo Código Florestal em 2011. Ali, segundo Caio Pompeia, os objetivos principais eram anistiar os desmatadores e reduzir as previsões de proteção ambiental do novo Código. Ao longo dos últimos anos, por sua vez, a ação coletiva foi racionalizada, os atores do agronegócio ganharam espaço nos governos Temer e Bolsonaro, e agora disputam alterações legais e administrativas a respeito de temas amplos como o indígena, o ambiental, o agrário, o trabalhista. Em torno dos quais usam os recursos financeiros e os saberes técnicos para persuadirem a opinião pública e o Estado quanto ao uso de áreas protegidas para a produção de commodities, por exemplo.
A mais recente ilustração foi a orquestração em favor da nova Lei de Licenciamento, aprovada no início do mês na Câmara dos Deputados. Se é certo que a atual norma é velha e precisa de ajustes, a força política da “Bancada do Boi” se traduziu numa lei que estabelece uma espécie de regime geral de exceção ao licenciamento, baseado em amplas dispensas de licença, autolicenciamentos e a exclusão de medidas protetivas a terras indígenas e quilombolas em processo de homologação. Nove ex-ministros do Meio Ambiente, incluindo Marina Silva e Bernardo Ricupero, divulgaram uma carta manifestando o rechaço ao projeto, onde firmaram que “ao contrário do interesse maior do Brasil de promover o desenvolvimento sustentável em convergência com nossas metas de proteção da biodiversidade e de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, o projeto em referência praticamente fulmina de morte um dos principais instrumentos que deveria nos guiar para alcançar tais metas.”
Puxando o fio, as metas do Brasil devem incluir, em primeiro lugar, a garantia de proteção ambiental, sem a qual sofreremos represálias crescentes no mercado internacional de produtos agrícolas. Como a exclusão de empresas brasileiras de fundos internacionais ou mesmo a paralisação do acordo comercial com a União Europeia.
Em segundo lugar, a integração do restante do mundo rural que não evoluiu como o setor agrícola comercial moderno. É o caso de fabular estratégias de repartição dos latifúndios improdutivos e a distribuição para pequenos agricultores, junto ao suporte e o saber agrário dos institutos de pesquisa, capacitando-os para a produção ao mercado e não apenas para subsistência.
Diferente da propaganda em horário nobre na Rede Globo, o agro jamais será pop enquanto não solucionar a concentração de terras; tampouco será tech se não usar a tecnologia a favor de soluções ambientais. O agronegócio se tornou um sucesso porque, antes, se tornou moderno, embora não a ponto de eliminar de vez a ignorância e a visão de curto prazo que ameaçam o desenvolvimento sustentável.
https://www.youtube.com/watch?v=asPm9a9M4GM&list=PLU7EHq4fmk62WyLxYihJgBKgJP0nCbK8p
STF afasta prefeito e vice de Macapá em investigação sobre desvio de recursos de emendas…
Pela paz mundial, contra as guerras imperialistas de Trump! Além de dominar petróleo e…
Em dez anos, Brasil registrou mais de 13,7 mil feminicídios Somente em 2025, foram…
Mídia ocidental atua como porta-voz de Trump no ataque ao Irã Cobertura de veículos…