Enquete da Câmara mostra que 88% discordam totalmente; milhares vão às ruas contra a proposta e até a ONU se mostra preocupada com a tramitação em regime de urgência
Publicado pelo Portal Vermelho
Ao tentar impor sua visão obtusa para mobilizar sua base e tentar desgastar o governo Lula, a extrema direita conseguiu a proeza de extrapolar o próprio grau de radicalismo misógino e punitivista — que já é alto — ao lançar mão do projeto de lei que equipara o aborto após 22 semanas de gravidez ao crime de homicídio, mesmo em casos de estupro.
Enquete disponível no site Câmara mostrou que 88% dos votantes (702.345, até o início da tarde desta sexta-feira, 14) discordam totalmente da proposta. Apenas 12% concordam totalmente (92.668).
Os que concordam na maior parte (2.070), os indecisos (303) e os que discordam na maior parte (3.275) não chegaram a pontuar percentualmente.
O resultado vai ao encontro das mais diversas opiniões contrárias ao projeto, manifestadas nas ruas, nas redes, na grande maioria dos veículos de comunicação, por movimentos, entidades e especialistas ligados ao tema, principalmente após o requerimento de regime de urgência para a tramitação do texto ter sido aprovado, “a toque de caixa”, na última quarta-feira (12), sob o comando do presidente da Câmara, Arthur Lira.
Leia também: Mulheres vão às ruas contra projeto que equipara aborto a homicídio
Considerando a enquete e essas manifestações, é possível concluir que, embora o Brasil seja um país majoritariamente conservador em questões morais, como a legalização do aborto, a proposta dos bolsonaristas e da bancada da Bíblia parece ter ultrapassado os limites até de quem se identifica mais com o espectro ideológico à direita.
Afinal, além de punir quem faz o procedimento após o período estabelecido, se aprovada, a proposta pode impor condenação maior à vítima do que ao estuprador e vai atingir, sobretudo, as meninas, que são a parcela mais violentada da população.
“Cidadão de bem”
Importante destacar que o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), autor dessa “pérola” da desumanidade, é teólogo de profissão e pastor evangélico, o típico homem branco, “cristão” e reacionário que insiste em ditar normas que afetam a vida das mulheres — não a dele.
Este mesmo “cidadão de bem” deixou claro que está usando um tema de tamanha gravidade para criar desgastes com o governo e tentar afastá-lo dos segmentos religiosos. “Será um bom teste para o Lula provar aos evangélicos se o que ele assinou na carta era verdade ou mentira” , declarou Cavalcante, considerando a possibilidade de aprovação da proposta.
O pastor deputado se referia à carta do presidente, dirigida à comunidade evangélica ainda em 2022, na qual, entre outros pontos, destacava: “Sou pessoalmente contra o aborto e lembro a todos e todas que este não é um tema a ser decidido pelo Presidente da República e sim pelo Congresso Nacional”.
O projeto em pauta, vale destacar, não trata de legalizar aborto, mas de retroceder 84 anos em dois direitos conquistados pelas mulheres nos anos 1940: o de poder abortar em situações de estupro e de risco de vida à mulher. A possibilidade de fazer o procedimento em casos de anencefalia fetal foi acrescentada em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Leia também: Bolsonaristas atacam direitos das mulheres ao equiparar aborto a homicídio
Diante da repercussão negativa da aprovação do requerimento, o próprio autor tentou, ao seu modo peculiar, amenizar o estrago dizendo que pensa, também, em propor aumentar a pena para os estupradores, como se essa “compensação” resolvesse o problema das meninas e mulheres violentadas.
Muita gente já sabe, mas não custa lembrar: de acordo com o Anuário 2023 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022 o Brasil registrou o maior número de estupros da história, com cerca de 205 casos por dia, num total de quase 75 mil vítimas (89% do sexo feminino), crescimento de 8,2% em relação a 2021.
Desse total, quase 57 mil foram estupros de vulneráveis e as principais vítimas, 61%, têm entre zero e 13 anos. A grande maioria, 68%, foi violentada em sua própria casa, 86% por gente conhecida — sendo 64%, por familiares.
A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves alertou que “o Brasil delega a maternidade forçada a essas meninas vítimas de estupro, prejudicando não apenas o futuro social e econômico delas, como também a saúde física e psicológica. Ou seja, perpetua ciclos de pobreza e vulnerabilidade, como o abandono escolar”.
Preocupação
O tema é tão grave que também repercutiu na ONU. Conforme noticiou o jornalista Jamil Chade, do UOL, a porta-voz de Direitos Humanos do organismo, Liz Throssell, afirmou, nesta sexta-feira (14), que a instituição está “preocupada com a aprovação do procedimento de emergência para essa lei, que equipara o aborto com mais de 22 semanas a um homicídio”.
“A porta-voz lembrou que, no mês passado, o Comitê sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) ‘deu uma recomendação para descriminalizar aborto em todos os casos e para que mulheres e meninas tenham acesso ao aborto seguro’”, relatou Chade. O Comitê também alertou para as consequência do avanço do que classificou como “fundamentalismo religioso” no Brasil.
Nesta quinta-feira (13), milhares de pessoas, a maioria mulheres, de diversas cidades brasileiras foram às ruas contra o projeto. Figuras públicas, autoridades, parlamentares, jornalistas, especialistas, cidadãos e cidadãs comuns também usaram as redes e veículos de comunicação para chamar atenção sobre as consequências do projeto.
Entidades e movimentos sociais também têm se manifestado contra e buscado reverter o apoio parlamentar à proposta, que deverá ter maioria na Câmara quando for a plenário.
“A gente está institucionalizando a barbárie. A gente está deixando com que cada um haja com a sua própria energia, na medida das suas possibilidades para lidar com uma situação criminosa e que o Estado brasileiro está se recusando a equacionar”, disse, à Agência Brasil, a advogada Juliana Ribeiro Brandão, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
De acordo com o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o PL é inconstitucional, viola o Estatuto da Criança e do Adolescente e contraria normas internacionais que o Brasil é signatário. Além disso, acrescentou, “representa um retrocesso aos direitos de crianças e adolescentes, aos direitos reprodutivos e à proteção das vítimas de violência sexual”.
https://www.youtube.com/watch?v=asPm9a9M4GM&list=PLU7EHq4fmk62WyLxYihJgBKgJP0nCbK8p
STF afasta prefeito e vice de Macapá em investigação sobre desvio de recursos de emendas…
Pela paz mundial, contra as guerras imperialistas de Trump! Além de dominar petróleo e…
Em dez anos, Brasil registrou mais de 13,7 mil feminicídios Somente em 2025, foram…
Mídia ocidental atua como porta-voz de Trump no ataque ao Irã Cobertura de veículos…