Enquanto a prefeitura gasta bilhões em subsídios, o presente de Natal de Nunes é um aumento de 13,6%, com serviços precários e impacto maior nos mais vulneráveis
Publicado pelo Portal Vermelho
A Prefeitura de São Paulo encerra 2024 com um presente amargo para seus cidadãos: o aumento de 13,6% na tarifa de ônibus, que passará de R$ 4,40 para R$ 5 a partir de 6 de janeiro de 2025. O anúncio , feito pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), enfrenta críticas de movimentos sociais, especialistas em mobilidade urbana e da população, que vêem o custo da passagem subir enquanto a qualidade do serviço público continua em queda livre.
Reajuste acima da qualidade
O aumento ocorre após quatro anos de congelamento da tarifa, período em que a inflação acumulada foi de 32%. Embora a prefeitura defenda que o reajuste ficou abaixo da inflação e seja necessário para equilibrar as contas, os dados expõem contradições. Em 2024, a cidade repassou R$ 6,7 bilhões em subsídios às empresas de ônibus – um aumento de 14,5% em relação ao ano anterior. Apesar disso, o serviço prestado enfrenta sérias críticas:
Para Rafael Calabria, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), “isso é resultado de um problema grave na fórmula de pagamentos das empresas, que ainda paga por passageiro transportado, gerando um aumento artificial do custo total do serviço”.
Impactos sociais e econômicos
Além de aprofundar as desigualdades, o aumento da tarifa ameaça excluir ainda mais os usuários da baixa renda do transporte público. Em uma cidade onde a mobilidade pesa mais no orçamento das famílias do que a alimentação, a medida é vista como um retrocesso.
Especialistas alertam que o reajuste terá impacto direto na inflação de 2025. Segundo Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren, em entrevista ao CNN Money, a alta em São Paulo adicionará 0,03 pontos percentuais ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “São Paulo é a capital com mais peso no índice do IPCA, com 33%”, destaca Angelo. Segundo ela, o reajuste pode incentivar outras capitais a adotar medidas semelhantes, elevando a inflação nacional.
Movimentos sociais reagem
Organizações como o Movimento Passe Livre (MPL) e coletivos de mobilidade urbana já planejam atos contra o reajuste em 9 de janeiro. As críticas apontam que, enquanto o orçamento de São Paulo bate recordes (R$ 125 bilhões em 2025), a prefeitura falha em priorizar o transporte coletivo. Parte dos recursos destinados ao recapeamento de vias, por exemplo, poderiam evitar o aumento da tarifa, beneficiando diretamente a população.
Nesta manhã, o Minha Sampa, a União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), a Via’I’Mobilidade e o Coletivo Metropolitano de Mobilidade Urbana, lançaram uma campanha para pressionar Nunes, o “inimigo do povo”, e impedir o aumento da tarifa. “São Paulo quer tarifa zero, não tarifa cara”, afirmam os organizadores da campanha.
Oportunidade perdida
Com um orçamento bilionário e a possibilidade de compensar o modelo de transporte público, a gestão Nunes optou por uma solução que penaliza os mais vulneráveis. Aumentar a tarifa sem promover mudanças estruturais no sistema é perpetuar um ciclo de queda na demanda, baixa arrecadação e piora no serviço.
André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto de Economia Brasileira da Fundação Getulio Vargas (FGV-IBRE), destaca que “o passageiro vai sentir isso no orçamento dele a partir de janeiro com certeza. Para o indivíduo mais humilde, que é muito dependente do ônibus urbano, tem um impacto grande no seu custo de vida.”
São Paulo, a cidade mais rica do país, poderia ser exemplo de resiliência, sustentabilidade e inclusão. No entanto, a decisão de priorizar gastos que favorecem o transporte individual, em vez do coletivo, mantém a cidade na contramão de soluções modernas para mobilidade urbana.
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