Datafolha mostra que brasileiros defendem punição pelos atos do 8 de janeiro, mas não confiam que Justiça vá condenar ex-presidente
Publicado pelo portal Vermelho
A maioria dos brasileiros acredita que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve ser preso por sua participação na tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023. No entanto, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira (7), também prevalece o sentimento de que ele dificilmente será punido. A mesma pesquisa revela que a proposta de anistia aos golpistas, defendida por Bolsonaro, é rejeitada por 56% da população.
A pesquisa Datafolha expõe uma sociedade dividida entre o desejo de punição aos golpistas e o temor de que a impunidade prevaleça. Enquanto a esquerda organiza protestos contra a anistia, a direita tenta capitalizar apoio em bases evangélicas e setores economicamente privilegiados. O resultado reflete não apenas opiniões sobre justiça, mas uma disputa pelo futuro da democracia brasileira.
De acordo com o levantamento, 52% dos entrevistados acreditam que Bolsonaro deveria ser preso, enquanto 42% são contrários à prisão. No entanto, 52% também acham que ele não será condenado, o que evidencia um cenário de descrença generalizada em relação à responsabilização judicial do ex-presidente. Apenas 41% acreditam que ele acabará preso, e 7% não souberam opinar.
A percepção varia conforme a região e o perfil social e religioso dos entrevistados. No Sul do país, 49% rejeitam a prisão e 46% apoiam. No Norte e Centro-Oeste, há empate técnico: 47% a favor da prisão, 45% contra. Entre católicos, maioria no país, 55% apoiam a prisão de Bolsonaro. Já entre evangélicos, 54% são contra a prisão, reflexo da base de apoio que o ex-presidente ainda mantém nesse grupo.
População rejeita anistia: “Crime contra a democracia deve ser punido”
A tentativa de articulação de uma anistia para os condenados pelos atos golpistas também enfrenta forte resistência popular. 56% são contra o projeto de anistia que tramita na Câmara dos Deputados. Apenas 37% se dizem favoráveis ao perdão e 6% não souberam responder.
A rejeição cresceu desde o início da tramitação da proposta, indicando que, mesmo com atos públicos e manifestações lideradas por Bolsonaro, a população não se comove com a ideia de clemência. O movimento contrário à anistia é transversal, com destaque para os eleitores de partidos de esquerda: 90% dos simpatizantes do PSOL e 68% dos petistas são contra o perdão.
A fragilidade judicial de Bolsonaro — inelegível até 2030 e réu no STF — não impediu que ele liderasse atos recentes, como o da Avenida Paulista, em busca de apoio para anistia. Contudo, o evento reuniu menos pessoas que manifestações anteriores, sinalizando desgaste.
Tamanho das penas divide opiniões
Apesar da rejeição à anistia, a dosimetria das penas aplicadas aos golpistas ainda é motivo de debate entre os brasileiros. Segundo o Datafolha, 34% consideram as penas adequadas, 36% acreditam que deveriam ser menores e 25% acham que deveriam ser aumentadas. Outros 5% não souberam opinar.
O recorte por classe social mostra nuances: os mais pobres são os que mais desejam penas maiores (30%), enquanto os mais ricos defendem penas menores (até 47% na faixa entre 5 e 10 salários mínimos).
Tentativa de anistia enfrenta obstáculos jurídicos e sociais
Apesar das mobilizações lideradas por Bolsonaro — como o recente ato na Avenida Paulista — a proposta de anistia não ganha tração fora de seu núcleo mais fiel. Até aliados como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), defensor da medida, veem resistência popular. Entre seus eleitores, 61% são favoráveis à anistia.
A tentativa de usar o Congresso para livrar Bolsonaro de futuras condenações, inclusive com a mudança na Lei da Ficha Limpa, também não empolga a maioria: 47% são contra, 47% a favor, evidenciando divisão da opinião pública.
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, já condenou mais de 480 réus entre os mais de 1.500 processados por envolvimento nos atos golpistas. Pelo menos 155 seguem presos. No entanto, a lentidão do Judiciário e a pressão política alimentam o ceticismo: 52% acham que Bolsonaro escapará da cadeia, mesmo com provas robustas. A corte, até agora, tem sinalizado firmeza em não tolerar qualquer tipo de impunidade — incluindo eventual anistia aprovada no Legislativo.
A pesquisa Datafolha ouviu 3.054 pessoas entre os dias 1º e 3 de abril, em 172 cidades do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Os dados mostram que a democracia ainda é um valor a ser defendido ativamente por boa parte da população, mas o temor da impunidade persiste — especialmente quando se trata de responsabilizar os mais poderosos.
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