A segurança pública carioca virou o laboratório de violência mais letal do Brasil. Cenário é agravado com megaoperações que deixam dezenas e até centenas de mortos
Publicado pelo Portal Vermelho
Por três décadas, o Rio de Janeiro consolidou-se como epicentro do debate sobre letalidade policial — “um trágico laboratório da violência estatal no Brasil”, nas palavras do sociólogo e professor da UERJ, Ignacio Cano. Dados inéditos do Instituto de Segurança Pública (ISP) traduzem o drama: “Nós temos mais de 25 mil pessoas mortas pela polícia desde que começaram os registros oficiais. No ano de 2019, nós tivemos o máximo número de mortes pela polícia no Brasil, com mais de 1.800”, aponta Cano.
De 1998 a setembro de 2025, foram 25.283 mortos por intervenções policiais, cerca de 15% de todas as mortes violentas intencionais — taxa que, segundo Cano, permanece “claramente acima dos 10% ainda aceitos internacionalmente como toleráveis”, aproximando-se do “limite máximo de 20%, um indicador de política de extermínio”.
Década recorde em ações de extermínio
A última década foi particularmente letal: 11.550 mortes entre 2015 e 2024, média anual de 1.155 vítimas. O ano de 2019 entrou para a história como recorde absoluto. Em termos absolutos, “o Rio superou os Estados Unidos no mesmo período — país com população 20 vezes maior”, enfatiza Cano.
O cenário é agravado por megaoperações como a de Jacarezinho (2021, 28 mortos), Vila Cruzeiro (2022, 23 mortos) e Penha/Alemão (2025, 121 mortos) — cada uma delas denunciada por laudos periciais e relatórios do MPRJ por evidências de abusos e execuções sumárias. “Nós tivemos 107 mortos e não há nenhum caso registrado de pessoa que tenha sido ferida pela polícia, socorrida e sobrevivido”, observa Cano. “Isso não acontece porque a polícia seja muito precisa, mas porque a política é feita para matar mesmo. Em todo o Brasil, a proporção de ‘opositores’ mortos e policiais mortos ultrapassa a proporção de 10 para 1 há anos, chegando a valores astronômicos como 200:1 e agora até 250:1 — esse patamar não encontra paralelo em outros países da América Latina e que registramos no livro lançado recentemente, Monitor of Lethal Force”, relata.
O papel do Judiciário e as respostas ineficazes
A resposta judicial apenas arranhou o quadro estrutural: a ADPF das Favelas determinou câmeras corporais, restrições a mandados noturnos e presença do Ministério Público. Apesar disso, operações superletais persistem sob discursos políticos ambíguos: “O governo Castro tem uma dialética dupla. Para o STF e setores progressistas, apresenta relatórios de redução da letalidade e aceita câmeras nos uniformes. Mas organiza megaoperações com saldo altíssimo de mortes, dialogando com seu eleitorado mais conservador”, analisa Cano.
Para o pesquisador, o Rio “nunca resolveu seu quadro de violência matando”: “Se tivesse resolvido, as mais de 25 mil pessoas que a gente já matou teriam resolvido o problema. Muito pelo contrário: o massacre só fortalece facções e a instabilidade criminal. O governo do Rio muitas vezes prioriza o enfrentamento do Comando Vermelho, mas negligencia ações duras contra milícias e contra a lavagem de dinheiro, investigação estrutural do crime — o que demanda inteligência e vontade política, não só repressão militarizada”.
Para além do confronto: inteligência, transparência e prevenção
A letalidade do Rio, afirma Cano, “reflete a combinação de políticas públicas baseadas no confronto aberto, apoio social ao discurso de exterminar criminosos, ineficiência na investigação e ausência de mecanismos reais de responsabilização. O padrão é de abuso sistêmico, não de exceção. A impunidade e a falta de investigações independentes só permitem que as mesmas práticas se repitam”.
O professor também aborda o papel da inteligência policial: “No Rio, a inteligência é usada para matar o máximo número de pessoas. A operação recente foi toda desenhada para impedir a fuga e para fuzilar todos os supostos criminosos. Isso vai contra a doutrina internacional — segurança pública deve ser feita para prevenir mortes, não para produzi-las em larga escala.”
Por fim, Cano repete os caminhos que devem ser tomados para combater o crime organizado, baseados em experiências internacionais: “A investigação dos tentáculos econômicos do crime, combate à lavagem de dinheiro, foco na corrupção de agentes públicos e na regulação do uso da força são passos fundamentais. Enquanto a resposta for só matar bandidos, a espiral de sangue vai continuar”, e completa: “não ouvimos nenhuma declaração dos governadores – do chamado ironicamente Consórcio da Paz – contra a corrupção infiltrada na polícia que dá apoio às facções criminosas”, conclui.
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