China acaba com tarifas de importação para a África e desmoraliza os EUA
China acaba com tarifas de importação para a África e desmoraliza os EUA
Pequim anuncia isenção tarifária total a 53 países africanos e amplia cooperação estratégica, marcando contraste com a abordagem protecionista e unilateral de Washington no comércio internacional
Publicado pelo Portal Vermelho
Todos os países africanos contarão com zero tarifação de seus produtos no gigantesco mercado consumidor chinês.A China deu um passo decisivo para reposicionar sua política externa e comercial na África ao anunciar, nesta semana, a eliminação total de tarifas de importação para todos os produtos oriundos dos 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. A medida, de efeito imediato, foi anunciada pelo presidente Xi Jinping em uma carta à Reunião Ministerial do Fórum de Cooperação China-África (Focac), realizada em Changsha, província de Hunan.
Trata-se de uma reconfiguração profunda na dinâmica sino-africana. Até então, o acesso preferencial ao mercado chinês estava limitado aos países classificados como menos desenvolvidos (LDCs). Agora, nações africanas de renda média, como Nigéria, Egito e África do Sul, também poderão exportar ao mercado chinês sem barreiras tarifárias, abrindo caminho para uma inserção mais qualificada e equilibrada no comércio bilateral.
Mais do que um gesto econômico, o pacote representa uma aposta política de longo prazo na parceria com o continente africano — e uma resposta estratégica à crescente competição global por influência no Sul Global.
Pequim e Washington: duas visões para o comércio global
A decisão da China contrasta fortemente com a postura adotada pelos Estados Unidos no comércio internacional. Enquanto Pequim reafirma seu compromisso com o multilateralismo e com uma “ordem internacional baseada em regras” sob a égide da ONU e da OMC, Washington tem adotado uma abordagem cada vez mais unilateral e protecionista, marcada pela imposição de tarifas, revisão de acordos e políticas de contenção tecnológica.
Desde a primeira administração Trump — e intensificando-se sob o governo Biden e terceiro de Trump — os EUA vêm utilizando tarifas como ferramenta geopolítica, sobretudo contra a China e países do Sul Global. Esse comportamento foi diretamente criticado na Declaração de Changsha, principal documento da reunião ministerial sino-africana, que rejeitou “o uso de tarifas como arma política” e defendeu uma globalização mais inclusiva.
Ao ampliar o acesso de países africanos ao seu vasto mercado interno, a China oferece um contraponto prático e desmoraliza o modelo norte-americano: em vez de contenção e dependência, parceria e abertura.
Cooperação além do comércio: um pacote de desenvolvimento com viés estratégico
A isenção tarifária anunciada por Xi Jinping vem acompanhada de um pacote robusto de iniciativas nas áreas de infraestrutura, tecnologia, saúde, educação e transição energética. São medidas que não apenas estimulam as exportações africanas, mas também buscam fortalecer a capacidade produtiva dos países do continente, com foco na industrialização e no comércio de produtos de maior valor agregado.
Entre os destaques do pacote estão:
- Programas de capacitação para exportadores africanos;
- Redução de barreiras não tarifárias, como exigências sanitárias e certificações técnicas;
- Criação de zonas de acesso preferencial em feiras comerciais e plataformas digitais;
- Apoio a projetos em energia limpa, digitalização de cadeias produtivas e inovação tecnológica.
A estratégia chinesa explicita uma visão holística de cooperação, em que o comércio é parte de um processo mais amplo de desenvolvimento autônomo e integração entre países do Sul Global — conceito central à diplomacia chinesa desde o lançamento da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI).
Resultados imediatos e promessa de longo prazo
Os frutos dessa aproximação já se fazem notar. Nos primeiros cinco meses de 2025, o comércio bilateral sino-africano somou US$ 132 bilhões — um crescimento de 12,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mais de US$ 1,8 bilhão em novos investimentos e US$ 20,6 bilhões em financiamentos foram anunciados desde a cúpula de 2024.
O fórum também serviu como palco para o lançamento de novos centros de pesquisa, programas de capacitação profissional e ações conjuntas em segurança e combate ao terrorismo — componentes que ampliam o escopo da parceria para além da dimensão econômica.
O Sul Global como palco da disputa sistêmica
A nova investida da China na África não ocorre no vácuo. Ela se insere em um contexto de transição na ordem internacional, marcado pela disputa sistêmica entre potências e pela busca de alternativas ao modelo ocidental de ajuda externa, muitas vezes associado a condicionalidades políticas e austeridade fiscal.
Ao apresentar a parceria sino-africana como um modelo de cooperação “autônoma e multipolar”, Pequim oferece não apenas acesso ao mercado, mas também uma narrativa: a de que o desenvolvimento não precisa passar pela tutela das grandes potências ocidentais.
Enquanto isso, os EUA mantêm sua ênfase em sanções, tarifas e acordos bilaterais assimétricos, com foco na segurança nacional e contenção de rivais. O contraste não poderia ser mais evidente — e é nesse contraste que a China aposta para consolidar sua influência global.
Diplomacia econômica como chave da disputa geopolítica
A ofensiva diplomática e econômica da China na África mostra que o futuro do comércio internacional não será definido apenas por tarifas ou cifras, mas por narrativas, alianças e modelos de desenvolvimento.
Ao nivelar o campo para países africanos, fortalecer capacidades locais e rejeitar o protecionismo, a China se posiciona como parceira estratégica do Sul Global — e desafia diretamente a lógica de contenção, unilateralismo e competição zero-soma que ainda predomina em Washington.
Se os países africanos conseguirão transformar esse novo espaço de manobra em desenvolvimento sustentável e soberania econômica ainda é uma questão em aberto. Mas o tabuleiro geoeconômico já mudou — e a China parece estar vários passos à frente.
