Sem categoria

Itamaraty convoca diplomata dos EUA após ameaças contra ministros do STF

Spread the love

Itamaraty convoca diplomata dos EUA após ameaças contra ministros do STF

 

Publicação da embaixada americana acusou Moraes de “perseguição” a Bolsonaro e ameaçou punir aliados do ministro; governo brasileiro vê ingerência e ataque à soberania

 

Chefe da embaixada dos Estados Unidos, o diplomata Gabriel Escobar – Felipe Menezes/U.S. Embassy Brasilia

O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) convocou nesta sexta-feira (8) o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos após publicações consideradas ofensivas e ameaçadoras contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em especial Alexandre de Moraes.

A convocação, um gesto diplomático de alta gravidade, ocorreu após a embaixada americana divulgar nas redes sociais que Moraes seria o “principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro” e que seus aliados no Judiciário e em outras esferas também poderiam ser alvos de sanções.

Segundo diplomatas brasileiros, a ofensiva norte-americana faz parte de uma escalada do governo Donald Trump em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que atualmente cumpre prisão domiciliar por decisão do STF.

Encontro no Itamaraty e acusações de ingerência

Gabriel Escobar foi recebido na manhã desta sexta-feira pelo embaixador Flavio Goldman, atual responsável interino pela Secretaria de Europa e América do Norte no Itamaraty. Conforme relatos, Goldman expressou forte indignação com o teor e o tom da mensagem norte-americana, classificando-a como ingerência inaceitável em assuntos internos do Brasil.

Ainda segundo diplomatas, o governo brasileiro considera as declarações uma violação da soberania nacional e um ataque às instituições democráticas do país. “Trump atua com ameaças em vez de negociar tarifas”, teria dito Goldman na reunião.

Esta não é a primeira vez que Escobar — hoje o principal representante dos EUA em Brasília, já que Trump ainda não indicou um novo embaixador — é chamado ao Itamaraty para explicar posicionamentos do governo norte-americano sobre o Judiciário brasileiro.

Postagens inflamam crise diplomática

A publicação da embaixada dos EUA na quinta-feira (7) reproduziu mensagens do subsecretário de Diplomacia Pública, Darren Beattie, afirmando que Moraes foi sancionado por “violações flagrantes de direitos humanos” sob a Lei Magnitsky — um instrumento jurídico usado por Washington para punir estrangeiros envolvidos em corrupção ou abusos.

“O juiz Moraes, agora um violador de direitos humanos sancionado pelos EUA, continua a usar as instituições brasileiras para silenciar a oposição e ameaçar a democracia. Impor ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro de se defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar!”, disse o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental dias antes da publicação da embaixada.

Prisão domiciliar e acusações contra Bolsonaro

As tensões aumentaram nesta semana após o ministro Alexandre de Moraes decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. O ex-presidente é investigado por tentativa de golpe de Estado e, segundo Moraes, desrespeitou medidas cautelares que o impediam de usar redes sociais ou se comunicar, ainda que indiretamente, com o público, incitando contra o Judiciário.

O magistrado apontou que vídeos e áudios gravados por Bolsonaro foram publicados por seus filhos e aliados, o que configuraria violação das ordens impostas em julho. Além da prisão domiciliar, foram mantidas restrições como o uso de tornozeleira eletrônica, proibição de contato com autoridades estrangeiras, outros réus e investigados, além da vedação ao uso de celulares.

Relações tensas em meio a negociações comerciais

A nova crise diplomática se acirra no momento em que Brasil e Estados Unidos discutem tarifas comerciais. Coincidentemente, a publicação da embaixada com as ameaças foi divulgada no mesmo dia em que Escobar se reuniu com o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, para tratar do tema.

Alckmin defendeu o diálogo e rebateu alegações de práticas desleais, dizendo que o Brasil aplica tarifas médias de 2,7% sobre produtos americanos e que oito dos dez itens mais importados dos EUA têm tarifa zerada.

Vazio diplomático em Brasília

Desde a saída de Elizabeth Bagley em janeiro, com o fim do governo Biden, os EUA estão sem embaixador no Brasil. Gabriel Escobar atua como encarregado de negócios interinamente, mas sua repetida convocação ao Itamaraty reflete a crescente deterioração do diálogo diplomático entre os dois países.

A ofensiva de Trump em favor de Bolsonaro — um aliado declarado — eleva o tom da política externa americana na região e tensiona as relações bilaterais, colocando o STF e o governo brasileiro como alvos diretos de críticas do atual presidente dos Estados Unidos.

Autor