TRF-4 condena Bolsonaro a pagar R$ 1 milhão por declarações racistas em lives
TRF-4 condena Bolsonaro a pagar R$ 1 milhão por declarações racistas em lives
Ex-presidente também terá de retirar vídeos do ar e fazer retratação pública; União foi condenada ao mesmo valor por responsabilidade institucional
Publicado pelo Portal Vermelho
Após dizer que o cabelo do missionário Maicon Sullivan, seu apoiador, era criadouro de baratas, Bolsonaro levou-o a sua live quando perguntou quantas vezes ele tomava banho. Foto: Reprodução de vídeoA terceira turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) decidiu nesta terça-feira (16) condenar Jair Bolsonaro (PL) a pagar R$ 1 milhão em indenização por danos morais coletivos devido a declarações racistas feitas em 2021, quando era presidente da República.
Nas transmissões, Bolsonaro associou cabelos crespos a “criatório de baratas” e sugeriu que apoiadores negros só teriam chance de se eleger caso existissem “cotas para feios”.
O colegiado classificou as falas como “racismo recreativo”, forma de discriminação disfarçada de piada.
União também responsabilizada
Além de Bolsonaro, a União foi condenada a pagar outros R$ 1 milhão, uma vez que o então presidente se pronunciava no exercício do cargo. O valor será destinado a um fundo público.
A decisão também obriga Bolsonaro a retirar os vídeos do ar e a publicar retratação pública. Ainda cabe recurso.
MPF e DPU pediam indenização maior
O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) haviam solicitado indenização de R$ 5 milhões, mas a Justiça fixou o valor em R$ 1 milhão.
Em primeira instância, a ação havia sido rejeitada sob o argumento de que as falas não causaram dano coletivo. O TRF-4, entretanto, entendeu que a conduta de Bolsonaro ultrapassou a esfera individual, ofendendo a população negra em geral.
Defesa tenta minimizar declarações
A advogada de Bolsonaro, Karina Kufa, argumentou que as manifestações não tinham intenção de ofender e eram apenas “brincadeiras de mau gosto” dirigidas a apoiadores próximos.
O relator do processo, desembargador Rogério Favreto, rebateu: “O racismo recreativo é igualmente grave e causa impacto social, reforçando estereótipos discriminatórios.”
O cabelo como alvo histórico do racismo
Durante a sessão, a procuradora federal Carmem Elisa Hessel destacou que o cabelo crespo é símbolo de identidade e resistência negra, historicamente alvo de preconceito.
Ela lembrou que movimentos como Black is Beautiful e Black Power, nos anos 1960 e 1970, ressignificaram o cabelo natural como expressão de orgulho e poder.
Mais um revés judicial para Bolsonaro
A condenação ocorre dias após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter sentenciado Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.
Agora, além da pena criminal, o ex-presidente enfrenta sanções por violar direitos coletivos, o que amplia seu isolamento político e jurídico.
Entenda: o que é racismo recreativo?
O termo “racismo recreativo” foi desenvolvido pelo jurista e professor Adilson Moreira, e descreve a prática de usar o humor como disfarce para ofensas raciais.
Nesse tipo de conduta, o agressor alega estar “brincando” ou “fazendo piada”, mas o resultado é a reprodução de estereótipos racistas que inferiorizam pessoas negras e reforçam preconceitos.
Por que o cabelo crespo é alvo de racismo?
- O cabelo crespo é marcador de identidade racial, associado à negritude.
- Durante séculos, foi tratado de forma pejorativa, ligado a estigmas de “sujeira”, “desleixo” ou “feiúra”. Com isso, se buscava esconder o cabelo raspando ou alisando de forma agressiva.
- Movimentos como o Black is Beautiful (anos 1960) e o Black Power (anos 1970) ressignificaram o cabelo natural como símbolo de orgulho, resistência e poder. Hoje, as formas cada vez mais ousadas de cortes de cabelo, adornos e usos de peruca são formas de expressar orgulho racial.
Importância da decisão judicial
- O TRF-4 reconheceu que falas ditas como “piada” podem gerar danos morais coletivos, atingindo toda a população negra.
- O entendimento reforça que não há “brincadeira inocente” quando a piada reforça racismo.
- A condenação de Bolsonaro e da União é simbólica porque atribui responsabilidade institucional a declarações do presidente da República.
