Pentágono impõe censura prévia e amplia restrições a jornalistas nos EUA
Pentágono impõe censura prévia e amplia restrições a jornalistas nos EUA
Em memorando de 17 páginas, governo Trump obriga repórteres a submeter informações à aprovação oficial, restringe circulação no prédio e institucionaliza ataque à liberdade de imprensa
Publicado pelo portal Vermelho
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, durante coletiva no Pentágono em Washington. Foto: ReproduçãoO Pentágono impôs novas regras que obrigam jornalistas credenciados a submeter qualquer informação à aprovação prévia do governo antes da publicação. O memorando de 17 páginas, distribuído na sexta-feira (20), prevê suspensão imediata de acesso a quem descumprir as determinações, numa escalada autoritária que consolida o cerco de Donald Trump à imprensa.
Segundo o documento, não apenas dados classificados estão sob controle, mas também “informações não classificadas controladas”, categoria ampla que permite ao governo definir de forma discricionária o que pode ou não ser divulgado.
Para ter acesso, os repórteres precisam assinar um compromisso escrito aceitando os termos, sob pena de perder as credenciais. O memorando também muda a nomenclatura oficial, adotando “Departamento de Guerra” como denominação secundária.
As regras estabelecem que qualquer dado produzido ou obtido sobre o Departamento de Defesa deve ser aprovado previamente por um funcionário autorizado.
“A informação deve ser aprovada para divulgação pública por um funcionário apropriado antes de sua publicação, mesmo que não seja classificada”, afirma o texto.
Na prática, a medida institui censura prévia sobre a cobertura militar.
“A imprensa não pode mais circular pelos corredores de uma instalação segura. Use sua credencial e cumpra as regras, ou vá para casa”, disse o secretário de Defesa e ex-apresentador da Fox News, Pete Hegseth.
“A ‘imprensa’ não administra o Pentágono — o povo sim”, disse.
Além da mordaça editorial, a ordem restringe a movimentação dos cerca de 90 jornalistas credenciados. Grandes áreas do prédio passam a exigir escolta para entrada, revertendo décadas de livre circulação nos corredores e escritórios não restritos.
Hoje, repórteres ficam limitados a espaços como a sala de imprensa e a praça de alimentação.
O memorando ainda prevê que o acesso pode ser negado se um jornalista for considerado “risco de segurança” com base em tentativas de acesso ou divulgação não autorizados. Trata-se de um controle político travestido de protocolo de segurança.
Reação da imprensa e da sociedade civil
A medida provocou imediata reação de associações jornalísticas. O Clube Nacional de Imprensa classificou a política como “um ataque direto ao jornalismo independente no próprio lugar onde o escrutínio independente mais importa: as Forças Armadas dos EUA”.
“Se as notícias sobre nossas Forças Armadas devem primeiro ser aprovadas pelo governo, então o público não está mais recebendo uma cobertura independente. Está recebendo apenas o que os funcionários querem que vejam. Isso deveria alarmar todos os americanos”, alertou o presidente da entidade, Mike Balsamo.
A Sociedade de Jornalistas Profissionais pediu a revogação imediata. “Essa política exala censura prévia — a mais grave violação da liberdade de imprensa prevista na Primeira Emenda — e é um passo perigoso em direção à censura governamental. Tentativas de silenciar a imprensa sob o disfarce da ‘segurança’ fazem parte de um padrão preocupante de crescente hostilidade governamental à transparência e às normas democráticas”, publicaram.
A Freedom of the Press Foundation também rebateu a medida. “Essa política funciona como uma restrição prévia à publicação, considerada a mais grave das violações da Primeira Emenda. O governo não pode proibir jornalistas de informações públicas apenas alegando que são secretas ou mesmo uma ameaça à segurança nacional”. disse comunicado publicado neste sábado (20).
Repercussão política e ofensiva contra a mídia
A decisão também repercutiu no Congresso norte-americano. O senador democrata Jack Reed, membro mais graduado da Comissão de Serviços Armados, chamou as regras de “uma afronta equivocada à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa”.
Segundo ele, “as restrições do secretário Hegseth à imprensa fazem parte de uma tentativa mais ampla desta administração de encobrir erros, sufocar o jornalismo independente e obscurecer a verdade. Jornalistas americanos não são, não deveriam ser e não devem ser meros estenógrafos do partido no poder ou do próprio Pentágono”.
O episódio soma-se a uma ofensiva sistemática contra a imprensa. Trump já processou veículos como Wall Street Journal e New York Times e chegou a defender a cassação de licenças de emissoras críticas.
“Eles só me dão publicidade ou imprensa ruins. Quero dizer, eles estão recebendo uma licença, acho que talvez sua licença devesse ser retirada”, disse na última sexta-feira (19).
Após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, o chefe da Comissão Federal de Comunicações, Brendan Carr, ameaçou emissoras de TV com “multas ou revogação de licença” caso continuassem transmitindo o programa de Jimmy Kimmel na ABC.
O humorista havia feito críticas ao movimento MAGA. A emissora suspendeu o programa por tempo indeterminado, em gesto celebrado pelo presidente.
O perfil de Pete Hegseth
Figura central da cruzada contra a mídia, Pete Hegseth vem de uma carreira na Fox News e atua como operador da linha dura do trumpismo.
Sua gestão à frente do Pentágono acumula polêmicas: divulgou planos de guerra classificados em grupo privado que incluía jornalistas, convidou Elon Musk para reuniões sobre planos ultrassecretos em caso de guerra com a China e autorizou ataques contra embarcações venezuelanas que mataram 14 pessoas — ações cuja legalidade foi contestada.
Hegseth acusa repórteres de tentarem “sabotar” a agenda do governo com informações de “ex-funcionários descontentes”. Desde que assumiu, promoveu a substituição de veículos tradicionais dentro do Pentágono por meios alinhados de extrema direita, como o Breitbart News.
