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Lula acusa Israel de genocídio e cobra ONU por Estado palestino

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Lula acusa Israel de genocídio e cobra ONU por Estado palestino

 

Na conferência convocada por França e Arábia Saudita, presidente afirmou que Israel promove limpeza étnica, anunciou medidas do Brasil e criticou veto dos EUA na ONU

 

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante a conferência sobre a Palestina e a solução de dois Estados, realizada na sede da ONU, em Nova York. Foto: Ricardo Stuckert/ PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou Israel de promover um extermínio contra os palestinos e tentar aniquilar o sonho de um Estado próprio, em discurso nesta segunda-feira (22) na conferência sobre a Palestina convocada por França e Arábia Saudita às margens da Assembleia-Geral da ONU.

“O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação. Tanto Israel quanto a Palestina têm o direito de existir”, disse, em uma fala que situou a guerra como símbolo do fracasso do multilateralismo e do bloqueio imposto pelo poder de veto no Conselho de Segurança.

Lula afirmou que “a tirania do veto sabota a própria razão de ser da ONU”, lembrando que há 78 anos o brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a sessão que aprovou o Plano de Partilha.

“Naquela ocasião, nasceu a perspectiva de dois Estados, mas só um se materializou”, disse.

Para o presidente, a base de qualquer Estado —território, população e governo— tem sido sistematicamente solapada no caso palestino.

“Como falar em território diante de uma ocupação ilegal que cresce a cada novo assentamento? Como manter uma população diante da limpeza étnica a que assistimos em tempo real? E como construir um governo sem empoderar a Autoridade Palestina?”, questionou.

Amparado por relatório da Comissão de Inquérito da ONU, Lula classificou a ofensiva em Gaza como genocídio e anunciou que o Brasil passou a integrar o processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

“Os atos terroristas cometidos pelo Hamas são inaceitáveis, e o Brasil foi enfático ao condená-los. Mas o direito de defesa não autoriza a matança indiscriminada de civis”, afirmou.

“Nada justifica tirar a vida ou mutilar mais de 50 mil crianças. Nada justifica destruir 90% dos lares palestinos. Nada justifica usar a fome como arma de guerra, nem alvejar pessoas famintas em busca de ajuda”, protestou.

O presidente citou números da ONU sobre insegurança alimentar e disse que “mais de meio milhão de palestinos não têm comida suficiente, mais do que a população de Miami ou de Tel Aviv”.

Segundo ele, a fome “não aflige apenas o corpo; ela estilhaça a alma”. O mandatário acusou Israel de tentar eliminar não apenas uma população, mas o próprio direito de autodeterminação.

Reafirmou que a efetivação do Estado palestino é necessária para corrigir a assimetria que bloqueia o diálogo e defendeu que a Assembleia-Geral crie um órgão inspirado no comitê que contribuiu para o fim do apartheid na África do Sul.

O Brasil, acrescentou, reforçará o controle sobre importações de produtos de assentamentos ilegais na Cisjordânia e manterá suspensas as exportações de material de defesa, inclusive de uso dual, que possa servir a crimes contra a humanidade e ao genocídio.

O discurso foi proferido em uma conferência marcada por uma onda de reconhecimentos formais da Palestina.

França, Mônaco, Luxemburgo, Malta e Bélgica anunciaram a decisão em plenário, somando-se a Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal, que haviam feito o gesto no domingo.

O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que “hoje, a França reconhece o Estado da Palestina” e foi ovacionado pela delegação palestina. Antes do início da conferência, Macron e o presidente Lula se cumprimentaram com um efusivo abraço, gesto que simbolizou a sintonia entre os dois líderes na defesa da solução de dois Estados.

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A aprovação da chamada Declaração de Nova York, com 142 votos favoráveis, selou o encontro com a promessa de “passos tangíveis, com prazo definido e irreversíveis” para a criação de um Estado palestino.

O chanceler saudita Faisal bin Farhan, copresidente da conferência, denunciou “crimes brutais” da ocupação israelense em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e afirmou que a solução de dois Estados é o único caminho para uma paz permanente.

O secretário-geral António Guterres destacou que “o reconhecimento é um direito da Palestina, não uma recompensa”, enquanto a presidente da Assembleia-Geral, Annalena Baerbock, frisou que a resolução expressa uma das votações mais amplas já registradas em apoio à causa palestina.

Outros líderes ecoaram a denúncia de Lula. O turco Recep Tayyip Erdoğan evocou o Holocausto para acusar Netanyahu de genocídio. O egípcio Mostafa Madbouly chamou a solução de dois Estados de “imperativo de segurança” e o sul-africano Cyril Ramaphosa lembrou a ação de seu país contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

O espanhol Pedro Sánchez advertiu que “é urgente que exista um povo palestino no Estado que reivindicamos reconhecer” e disse que “o povo palestino está sendo aniquilado”.

Israel e Estados Unidos boicotaram a conferência e mantiveram cadeiras vazias no plenário. O embaixador israelense Danny Danon classificou o encontro como “circo”, enquanto a Casa Branca afirmou que o reconhecimento seria um “presente ao Hamas”.