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Cessar-fogo em Gaza enfrenta impasses e Israel mantém fronteira fechada

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Cessar-fogo em Gaza enfrenta impasses e Israel mantém fronteira fechada

 

Israel reduziu pela metade a ajuda humanitária e manteve Rafah fechada, acusando o Hamas de descumprir o acordo. ONU alerta para risco de colapso do cessar-fogo

 

Foto: Reprodução

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em vigor desde a última sexta-feira (10), começou a dar sinais de esgotamento antes mesmo de completar uma semana.

Sob um clima de desconfiança mútua, Israel decidiu manter fechada a passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, e reduzir pela metade o fluxo de ajuda humanitária, alegando que o Hamas descumpriu o acordo ao não devolver todos os corpos dos reféns mortos.

O movimento islâmico, por sua vez, acusa o governo israelense de usar a crise humanitária como instrumento de pressão política e diz enfrentar dificuldades para localizar os corpos sob os escombros provocados por dois anos de bombardeios.

As medidas israelenses se somam a um quadro de insegurança crescente nas cidades do sul da Faixa de Gaza, onde milhares de deslocados tentam retornar às ruínas de suas casas.

A ONU e o Programa Mundial de Alimentos alertaram que a redução da ajuda — de 600 para 300 caminhões por dia — já compromete a distribuição de comida, água e medicamentos.

O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA) informou que 15,6 mil pessoas precisam de evacuação médica urgente, enquanto a Cruz Vermelha registrou episódios de tumulto e fome em torno dos comboios que ainda conseguem entrar no enclave.

Em meio ao impasse, o governo de Benjamin Netanyahu anunciou que não permitirá a entrada de combustível e gás em Gaza, salvo para a infraestrutura humanitária essencial, até que o Hamas entregue todos os corpos.

A decisão foi formalizada em nota do COGAT, o órgão militar que supervisiona o fluxo de ajuda ao território palestino.

“O Hamas violou o acordo sobre a entrega dos corpos dos reféns. Como resultado, a liderança política decidiu impor sanções relacionadas ao pacto humanitário”, afirmou o comunicado.

O endurecimento da postura israelense reacendeu as críticas de agências humanitárias e de famílias de reféns.

O Fórum das Famílias de Reféns e Desaparecidos classificou a decisão como “imoral e contraproducente” e pediu a suspensão da implementação do acordo “até que todos os corpos sejam trazidos de volta”.

Já a ONU advertiu que o fechamento de Rafah e a retenção da ajuda “aumentam o sofrimento de uma população que já viveu meses de fome e colapso”.

Cortes na ajuda e tensões no terreno

A redução do número de caminhões e o fechamento das passagens agravaram uma situação que a própria ONU descreve como “quase insustentável”. Segundo a porta-voz Olga Cherevko, “as travessias estão fechadas pelo lado israelense, mas estamos recolhendo suprimentos dentro de Gaza na tentativa de garantir o mínimo necessário à sobrevivência”.

O Programa Mundial de Alimentos confirmou a entrada de apenas 137 caminhões desde o fim de semana, enquanto o UNICEF reportou o envio de poucas dezenas com barracas, cobertores e kits de higiene.

Organizações como Oxfam, CARE e Conselho Norueguês para Refugiados continuam impedidas de operar plenamente, enfrentando barreiras administrativas impostas por Israel.

“Estamos num limbo. As necessidades de uma população que viveu meses de fome não serão atendidas com alguns caminhões”, afirmou Bushra Khalidi, assessora de políticas da Oxfam.

O bloqueio também atinge a Fundação Humanitária de Gaza, criada com apoio dos Estados Unidos, que suspendeu temporariamente suas atividades após críticas da ONU sobre falta de neutralidade e militarização da distribuição.

Do lado palestino, o Hamas tenta se defender das acusações afirmando que “localizar os corpos é difícil” e que parte deles está sob toneladas de escombros deixados pelos bombardeios israelenses.

O grupo prometeu entregar mais quatro corpos “nos próximos dias”, mas a lentidão no processo alimenta o discurso de Netanyahu, que acusa o movimento de “agir de má-fé”.

Até o momento, oito corpos foram devolvidos — sete de israelenses e um de um palestino não identificado.

Enquanto isso, a Cruz Vermelha adverte que a recuperação dos mortos pode levar “dias ou semanas”, e há risco de que “alguns jamais sejam encontrados”.

“Trazer de volta os mortos é um desafio ainda maior do que libertar vivos. Isso deve ser prioridade máxima”, afirmou Christian Cardon, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

A demora alimenta novas tensões internas em Israel, onde familiares dos reféns acusam o governo de falhar na proteção e na negociação.

Famílias cobram o governo e denunciam negligência

As reações mais duras ao impasse vieram das próprias famílias dos reféns mortos e desaparecidos. Em Tel Aviv, o Fórum das Famílias de Reféns organizou nova vigília na Praça dos Reféns, acusando o governo de “tentar apagar seu dever imediato” de recuperar os corpos.

“Quem tira as bandeiras e broches dos reféns está traindo a moral judaica e degradando o acordo”, dizia o comunicado. A referência foi às críticas ao presidente do Knesset, Amir Ohana, que removeu de sua lapela o símbolo dos cativos durante sessão no parlamento.

A revolta cresceu após a divulgação de uma carta oficial do Escritório de Reféns e Desaparecidos, que expressava “tristeza pelo alto preço pago” pelas famílias e afirmava que “graças a esse preço, chegamos ao fim da guerra e ao retorno de todos os reféns”.

A ausência de pedido de desculpas foi interpretada como indiferença. “Às vezes, uma palavra é preferível: desculpe”, escreveu Merav Svirsky, irmã de um dos reféns mortos. Outras mães e pais classificaram a carta como “insultuosa”.

O governo reagiu tentando conter o desgaste. O coordenador Gal Hirsch declarou que “a pressão sobre o Hamas persistirá e aumentará até a devolução completa dos reféns caídos” e disse que o tema foi levado por Netanyahu às conversas com o presidente norte-americano, Donald Trump, e o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, na cúpula de Sharm el-Sheikh.

A intenção era reforçar a cobrança internacional para que o Hamas entregue os corpos restantes e mantenha o cessar-fogo.

Apesar da retórica de firmeza, o caso expôs divisões dentro de Israel. Analistas locais apontam que o primeiro-ministro tenta equilibrar o apelo populista interno com a necessidade de preservar o acordo mediado pelos Estados Unidos e pelo Egito.

O desfecho das negociações com o Hamas pode definir o futuro político de Netanyahu, já sob intensa pressão de aliados e familiares das vítimas.

O papel de Trump e o risco de colapso do acordo

Enquanto as tensões crescem, o ex-presidente Donald Trump, que mediou o cessar-fogo, tenta manter sua imagem de articulador da paz. Após discursar no Knesset na útlima segunda (13), Trump afirmou que o Hamas “precisa depor as armas” e advertiu: “Se não o fizer, nós o desarmaremos. Isso acontecerá rapidamente e talvez com violência”.

A declaração, interpretada como ameaça nada velada, reforçou o clima de incerteza sobre o futuro da trégua.

Trump defende uma “fase de transição” em Gaza sob administração internacional e uma eventual força de paz árabe.

O plano, porém, enfrenta resistências tanto do Hamas quanto de setores do governo israelense, que rejeitam qualquer menção à criação de um Estado palestino. A ONU e países árabes alertam que sem uma solução política, o cessar-fogo “poderá ruir em questão de dias”.

No terreno, o exército israelense mantém mais da metade do território de Gaza sob controle — incluindo o norte devastado, a cidade de Rafah e toda a fronteira com Israel. O bloqueio logístico e o impasse sobre a ajuda impedem qualquer sinal concreto de reconstrução. Estimativas do Banco Mundial indicam que serão necessários mais de US$ 50 bilhões para reerguer o enclave, onde 67 mil palestinos foram mortos desde 2023.

Os primeiros dias pós-acordo confirmam que a trégua anunciada como “um amanhecer histórico” por Trump pode se transformar em um novo ciclo de acusações e retaliações. Sem confiança entre as partes, a promessa de paz parece cada vez mais dependente de gestos que, até agora, ninguém está disposto a dar.

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