EUA ampliam ofensiva militar na América Latina
EUA ampliam ofensiva militar na América Latina
Após sete bombardeios no Caribe, governo Trump intensifica ações na região e provoca reação dura de Gustavo Petro e Nicolás Maduro
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EUA ampliam ofensiva militar na América Latina
Publicado pelo Vermelho
Vídeo divulgado pelo governo Trump mostra ataque a barco no Pacífico – @SecWar no Twitter
Os Estados Unidos realizaram nesta quarta-feira (22) o primeiro ataque militar no Oceano Pacífico dentro da sua suposta campanha de combate ao narcotráfico. A operação, conduzida por ordem direta de Donald Trump, matou duas pessoas em uma embarcação que, segundo o governo norte-americano, transportava drogas em águas internacionais próximas à costa da Colômbia.
A ação marca a expansão da ofensiva iniciada em setembro, que já havia produzido ao menos sete bombardeios no Caribe e provocado dezenas de mortes.
O secretário de Defesa Pete Hegseth confirmou o ataque e divulgou um vídeo mostrando um barco em alta velocidade sendo atingido por uma explosão.
“Ontem, sob a direção do presidente Trump, o Departamento de Guerra conduziu um ataque cinético letal a uma embarcação. Havia dois narcoterroristas a bordo. Ambos foram mortos, e nenhuma força americana foi ferida”, declarou o secretário.
Hegseth afirmou ainda que “narcoterroristas que pretendem trazer veneno para nossas costas não encontrarão porto seguro em nenhum lugar do nosso hemisfério” e comparou os grupos de narcotráfico à Al-Qaeda.
A ofensiva militar, descrita pela Casa Branca como parte da “guerra total contra os cartéis”, já deixou mais de 30 mortos e é apontada por juristas e diplomatas como a operação mais agressiva dos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989.
Desde o início de setembro, Washington tem alegado combater redes transnacionais de drogas, mas não apresentou provas nem revelou identidades das vítimas.
A Casa Branca tampouco divulgou a localização exata dos bombardeios — o banco internacional de dados Acled (Localização e Eventos de Conflitos Armados) identificou as áreas aproximadas dos ataques apenas com base em relatos de imprensa, e com o menor grau de precisão possível.
A retórica de Trump associa os cartéis latino-americanos ao discurso de guerra ao terrorismo.
“Assim como a Al-Qaeda travou guerra contra nossa pátria, esses cartéis estão travando guerra contra nossa fronteira e nosso povo. Não haverá refúgio nem perdão — apenas justiça”, afirmou o republicano.
A declaração reflete a tentativa de justificar o uso irrestrito da força em nome da segurança nacional, ampliando o poder do Executivo sobre operações militares fora do território americano.
O novo ataque reacende tensões diplomáticas com a Colômbia, cuja costa foi o cenário provável da operação.
O ministério das Relações Exteriores colombiano denunciou o episódio como “comparável à aplicação da pena de morte em território estrangeiro”. O vice-chanceler Mauricio Jaramillo classificou a ação como “desproporcional e fora do direito internacional”, afirmando que “os ocupantes não tiveram possibilidade de se defender” e que “não houve processo nem ordem judicial”.
O presidente Gustavo Petro, por sua vez, acusou os Estados Unidos de “abrirem um novo teatro de guerra no Caribe” e afirmou que “a solução para essa crise é tirar Trump do poder”.
O clima entre os dois países se deteriorou rapidamente. Trump acusou Petro de ser “líder ilegal de drogas” e prometeu cortar subsídios e aumentar tarifas comerciais contra Bogotá.
O colombiano reagiu chamando o republicano de “grosseiro e ignorante” e ordenou o retorno de seu embaixador em Washington. Em seguida, o americano voltou a atacá-lo publicamente, chamando-o de “meliante” e “cara mau”, ao que Petro respondeu prometendo processá-lo judicialmente pelas “calúnias proferidas”.
A escalada militar também aprofunda a crise entre Washington e Caracas. Fontes do governo norte-americano afirmaram à imprensa que a estratégia de Trump é “aplicar o máximo de pressão sobre Nicolás Maduro para removê-lo do poder, inclusive pela força”.
Em agosto, Washington dobrou para US$ 50 milhões a recompensa pela captura do presidente venezuelano, acusado de liderar o suposto Cartel de los Soles — uma organização cuja existência é contestada por especialistas e pelo próprio governo da Venezuela.
Maduro reagiu declarando que o país está pronto para responder a qualquer ataque. “Se os gringos atacarem, nós responderemos”, disse o presidente.
O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou que as forças bolivarianas estão preparadas “para ataques com drones, campanhas aéreas ou sabotagens conduzidas por forças especiais dos EUA”.
A retórica militar e o deslocamento de navios de guerra, caças F-35 e um submarino nuclear para o Caribe indicam uma ofensiva de longo alcance, não restrita ao narcotráfico.
Washington afirma agir contra redes criminosas, mas o alcance geográfico e o volume de tropas — cerca de 10 mil militares — sugerem um esforço de intimidação política em meio ao isolamento diplomático de Trump. O presidente equatoriano Daniel Noboa, por outro lado, elogiou as ações americanas, no contexto de sua própria “guerra contra as gangues”, o que lhe rendeu apoio de Washington.
Especialistas em direito internacional ouvidos pela Folha e por veículos europeus sustentam que a ofensiva americana, no mínimo, carece de base legal.
O direito internacional proíbe ataques contra pessoas que não apresentem ameaça iminente, salvo em casos de guerra declarada ou autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU. “Sem processo, sem ordem judicial e sem ameaça imediata, trata-se de execução sumária”, disse um jurista colombiano à BBC.
Mesmo a justificativa de combate ao tráfico de drogas é contestada por analistas. Dados da própria DEA (Agência Antidrogas dos EUA) indicam que a maior parte da cocaína destinada ao mercado americano entra pelo Oceano Pacífico e pela fronteira mexicana — não pelo Caribe, onde ocorreram os ataques —, enquanto as drogas sintéticas que alimentam a crise de opioides, como o fentanil, têm origem majoritariamente na China.
Para diplomatas e organizações multilaterais, a ofensiva de Trump representa “um retrocesso histórico” e reabre o precedente das intervenções extraterritoriais que marcaram a Guerra Fria.
A nova fase da guerra naval norte-americana na América Latina é vista como um movimento de natureza política, voltado tanto à campanha eleitoral de Trump quanto ao reposicionamento estratégico de Washington frente a governos que desafiam sua influência.
Ao aproximar a retórica do narcotráfico da linguagem da guerra ao terror, o republicano reforça o caráter ideológico de sua política externa e reintroduz a América do Sul como zona de confronto militar sob o manto da “segurança hemisférica”.
