Trump recua em tarifas agrícolas, mas mantém sobretaxa contra o Brasil
Trump recua em tarifas agrícolas, mas mantém sobretaxa contra o Brasil
EUA retiram tarifa-base de 10% sobre café, carne e frutas, mas mantêm taxa extra de 40% que sufoca exportações brasileiras; governo Lula pressiona por acordo definitivo.
Publicado pelo Portal Vermelho
Trump | Foto: Carlos Barria/via Getty ImagesO governo de Donald Trump suspendeu parte das tarifas recíprocas de 10% aplicadas desde abril a produtos agrícolas importados pelos Estados Unidos, mas manteve a sobretaxa adicional de 40% imposta exclusivamente ao Brasil. A decisão consta de uma ordem executiva publicada nesta sexta-feira (14) e beneficia itens como café, carne bovina, frutas e raízes tropicais, mas não altera o principal ponto de pressão sobre o agronegócio brasileiro.
A suspensão da tarifa-base passa a valer para mercadorias que entraram em consumo na última quarta-feira (13). De acordo com o texto administrativo da ordem assinada por Trump, o governo redefiniu a lista de produtos sujeitos aos 10% após análises internas sobre oferta doméstica, demanda americana e negociações com outros países. Não há declarações públicas do presidente sobre esses critérios.
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A decisão ocorre num momento em que os EUA enfrentam forte pressão inflacionária: o preço do café subiu 19% em setembro, e o da carne aumentou quase 17%. O impacto das tarifas vinha elevando ainda mais os preços de itens nos quais o Brasil tem papel central — o país é responsável por cerca de um terço de todo o café importado pelos EUA.
Apesar da suspensão dos 10%, o tarifaço de 40% permanece intocado. “As novas isenções não mudam a tarifa adicional de 40% imposta por Trump”, afirmou ao G1 o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luís Rua. Segundo cálculos do MDIC, as exportações brasileiras de café para os EUA caíram 47% em setembro, enquanto o setor de carnes perdeu 75% do volume exportado.
Reação brasileira: alívio parcial, mas pressão continua
Para o governo Lula, a medida americana demonstra reabertura de diálogo, mas está longe de resolver o problema. “É uma boa notícia para os nossos produtores e para os consumidores norte-americanos. Espero que seja seguida de outras que beneficiem nossos produtos manufaturados, como calçados e máquinas”, declarou o assessor especial Celso Amorim.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, disse à GloboNews que se reuniu com sua equipe para avaliar o impacto da decisão e comemorou que o “diálogo voltou”.
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A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) também celebrou o movimento. “A medida reforça a confiança no diálogo técnico entre os dois países e reconhece a importância da carne do Brasil, marcada pela qualidade, pela regularidade e pela contribuição para a segurança alimentar mundial”, afirmou a entidade. Para o setor, “a redução tarifária devolve previsibilidade ao setor e cria condições mais adequadas para o bom funcionamento do comércio”.
No caso do café, porém, o alívio é limitado. À TV Globo, o presidente do Conselho dos Exportadores de Café, Márcio Ferreira, afirmou que, com a sobretaxa de 40%, as vendas continuam inviáveis: “O tarifaço de 40% inviabiliza totalmente as exportações”.
Por que os EUA recuaram
A mudança ocorre em meio a uma combinação de fatores sensíveis ao eleitorado americano, como: ainflação acumulada nos alimentos; aqueda histórica no rebanho bovino dos EUA, hoje no menor nível em 74 anos; o aumento expressivo do preço do café, produto que o país quase não produz; a escassez de frutas tropicais, como manga e goiaba.
Além disso, o governo Trump assinou novos acordos comerciais com Argentina, Guatemala, Equador e El Salvador, prevendo redução de tarifas sobre café e bananas — parte de sua estratégia para conter o aumento de preços.
Tarifaço de 40% segue no centro das negociações
A sobretaxa contra produtos brasileiros foi imposta em julho como retaliação política ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, Brasília tem pressionado Washington. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump reabriram conversas em setembro, na ONU, e voltaram a se encontrar em outubro, na Malásia.
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Nesta semana, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reuniu-se duas vezes com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no Canadá e em Washington. Vieira afirmou acreditar que um acordo preliminar pode ser alcançado ainda neste mês: “[Um acordo] que estabelecesse um mapa do caminho para uma negociação, que poderia durar dois ou três meses, para então se concluir definitivamente todas as questões entre os dois países”.
Para setores exportadores, só a retirada da sobretaxa de 40% pode recuperar a competitividade dos produtos brasileiros.
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com informações de agências
