Sem categoria

Pressão indígena derruba decreto das hidrovias na Amazônia

Spread the love

Pressão indígena derruba decreto das hidrovias na Amazônia

 

Mobilização de 33 dias de povos do Baixo Tapajós leva governo a revogar norma que previa concessões dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, reafirmando o direito à consulta prévia.

 

Indígenas da etnia Guarani e ativistas ambientais manifestam-se contra a dragagem na região amazônica em frente à sede Cargill, em São Paulo (20.02.2026) | Foto: Allison Sales/DPA/Legion-media.ru

O governo Lula decidiu revogar o Decreto 12.600, que abria caminho para estudos de concessão das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins à iniciativa privada — uma vitória direta da mobilização histórica dos povos indígenas do Baixo Tapajós. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira (23) após reunião no Palácio do Planalto com os ministros Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, que reafirmaram o compromisso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a proteção da floresta e o respeito aos povos originários.

Segundo Boulos, a revogação só foi possível porque o governo ouviu de perto as comunidades impactadas. “Os povos indígenas vêm de uma manifestação de mais de 30 dias questionando o decreto, apontando os efeitos que poderiam ter para suas comunidades, também para quilombolas e ribeirinhos”, explicou. “Hoje se firmou a decisão pela revogação do Decreto 12.600.”

Em seguida, o ministro reforçou uma mensagem política central. “Esse é um governo que tem compromisso com a escuta do povo. Esse não é o governo que passa a boiada, esse não é o governo que passa por cima da floresta, que passa por cima dos povos originários”.

 

 

Pressão indígena e vitória política

A revogação foi impulsionada por uma onda de protestos que se espalhou pela Amazônia, Brasília e até São Paulo. Indígenas de 14 etnias permaneceram 33 dias ocupando áreas estratégicas, incluindo o terminal da multinacional Cargill em Santarém, denunciando a dragagem e a privatização da hidrovia como ameaças diretas a seus territórios, modos de vida e espiritualidade.

A ministra Sônia Guajajara destacou que a decisão do governo responde também a uma questão humanitária essencial: “Os indígenas estão aqui pela segunda vez, em 33 dias de ocupação, com mulheres, crianças que conseguem ir lá acampadas, com condições precárias, riscos ali, ameaças. Então, foi muito importante a gente também considerar essa questão humanitária que se encontra o movimento neste momento”.

Guajajara ainda recordou o compromisso assumido na COP 30, quando o governo prometeu consulta prévia aos povos — uma exigência da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Aqui, hoje, a gente vem reafirmar esse nosso compromisso com o respeito à Convenção 169 e o direito de escuta dos povos”.

O que estava em jogo

As hidrovias envolvidas no decreto compõem corredores disputados pelo agronegócio para o escoamento de grãos. Mas para cerca de 7 mil indígenas do Baixo Tapajós, segundo o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), o projeto representava riscos ambientais e sociais graves: erosão, danos à pesca, contaminação do leito, impacto cultural e ruptura do equilíbrio ecológico de uma das áreas mais sensíveis da Amazônia.

As comunidades criticavam a ausência de estudos ambientais robustos e viam na dragagem prevista um passo rumo à privatização do rio — o que poderia reconfigurar o território em favor de grandes exportadoras.

No início de fevereiro, o governo já havia suspendido o edital de dragagem do Tapajós, mas as lideranças mantiveram a mobilização até a vitória final.

Uma sinalização política do governo Lula

A revogação representa mais do que uma decisão administrativa: consolida o compromisso do governo Lula com a pauta socioambiental e com o diálogo direto com povos originários — em oposição à lógica privatista e de atropelo que marcou governos anteriores.

Nas redes sociais, organizações indígenas celebraram o recuo como um marco de resistência e como uma demonstração de que a mobilização coletiva segue sendo decisiva para moldar políticas públicas na Amazônia.

 

Autor