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Israel sabota cessar-fogo com o Irã e acordo entra em crise horas após anúncio

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Israel sabota cessar-fogo com o Irã e acordo entra em crise horas após anúncio

 

Acordo mediado pelo Paquistão derruba cotação do petróleo, mas Netanyahu ignora trégua e bombardeia o Líbano; Teerã ameaça romper trégua

 

Tráfego marítimo no Estreito de Ormuz em 28 de fevereiro, no momento do início das agressões de Trump

O cessar-fogo temporário de duas semanas entre Estados Unidos, Irã e Israel, anunciado na noite de terça-feira (7) e efetivado na madrugada desta quarta (8), já enfrenta forte ameaça de colapso. Poucas horas após o acordo, o Irã emitiu alerta severo de que poderá retirar-se da trégua caso Israel mantenha os ataques contínuos no sul do Líbano. A agência Tasnim, ligada ao Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), citou fonte de segurança iraniana afirmando que Teerã “avalia a possibilidade de sair do acordo” se o “regime sionista” persistir nas violações.

A ameaça iraniana veio em resposta à posição explícita de Israel de que o cessar-fogo não inclui o Líbano. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o porta-voz do Exército israelense, Avichay Adraee, confirmaram que as operações contra o Hezbollah continuam a pleno vapor. Hoje, Israel realizou a maior onda de ataques aéreos e terrestres desde o início da guerra, atingindo mais de 100 alvos no sul do Líbano, Beirute e arredores, com centenas de mortos e feridos registrados pelo Ministério da Saúde libanês.

Apesar da fragilidade crescente, o anúncio inicial do cessar-fogo provocou queda imediata e acentuada nos preços do petróleo. O Brent despencou entre 13% e 16% nas primeiras horas de hoje, oscilando em torno de US$ 92,80 a US$ 95,42 por barril (de picos acima de US$ 110-120 durante o conflito). O WTI caiu em patamar similar. O alívio nos mercados reflete a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz – corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial –, uma das condições centrais do acordo.

Sem vitória, chefe do Estado norte-americano celebra frágil cessar-fogo

Mesmo sem ganhos aparentes, o presidente norte-americano, Donald Trump, celebrou o movimento em sua rede social, classificando a data como um “grande dia para a paz mundial” e afirmou que a proposta de dez pontos apresentada por Teerã é uma “base viável”. “O Irã quer que isso aconteça, eles já aguentaram o suficiente! Os EUA ajudarão a lidar com o tráfego no Estreito de Ormuz. Haverá muitas ações positivas”, afirmou Trump, sinalizando um recuo pragmático diante do estrangulamento energético global.

Soberania e resistência iraniana

Pelo lado iraniano, o tom é de vitória política e reafirmação da soberania sobre suas águas territoriais. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, confirmou que o Estreito será reaberto, mas sob estrito protocolo. “A navegação será feita em coordenação com as forças iranianas”, pontuou Araghchi, destacando que a interrupção das hostilidades é a precondição para a manutenção do fluxo de cerca de 20% do petróleo mundial.

Entretanto, a fragilidade do acordo reside na postura beligerante de Israel. O governo de Benjamin Netanyahu apressou-se em declarar que o compromisso firmado em Washington não se estende ao território libanês. Ignorando o primeiro ponto da minuta — que exige a interrupção das hostilidades em todas as frentes —, as forças israelenses intensificaram bombardeios contra a cidade de Tiro e o sul do Líbano.

Logística e o fim do represamento

Além da queda nos preços, o maior benefício imediato do acordo é o desbloqueio logístico de uma frota bilionária. Dados das plataformas de monitoramento MarineTraffic e Windward indicam que cerca de 1.300 embarcações comerciais estão retidas na região. Destas, aproximadamente 800 navios estão parados dentro do Golfo Pérsico aguardando autorização de saída. O custo desse represamento é crítico: estima-se um impacto entre US$ 50 mil e US$ 150 mil por dia por embarcação em taxas de afretamento e seguros de risco de guerra. A normalização plena, no entanto, deve levar semanas, devido à necessidade de renegociar apólices de seguro e coordenar o fluxo em um canal de apenas 21 milhas náuticas de largura.

Se o Irã não interromper as conversas, por causa dos ataques de Netanyahu, as negociações diretas para a consolidação dos dez pontos do acordo devem começar nesta sexta-feira (10), em Islamabad. O sucesso da diplomacia paquistanesa e o papel da China como garantidora comercial serão testados pela capacidade dos EUA de conter a sanha expansionista de seu principal aliado na região. Relatos do The New York Times e da Associated Press indicam que uma intervenção de última hora de diplomatas chineses foi o que convenceu Teerã a aceitar os termos da trégua em Islamabad.

Analistas ainda debatem os motivos do recuo de Trump: teria sido tático-militar (diante de uma estratégia que não está clara desde o início), para evitar uma escalada regional e global; uma manobra política para responder a pressões internas e externas; uma ação para evitar o choque econômico global e pressões inflacionárias que já se anunciavam? Há quem mencione até sinais de operações financeiras especulativas na contramão do que o mercado esperava.  Relatórios de mercado, como os da Forbes Money e indicadores do S&P 500, apontam que o “grande dia para a paz mundial” celebrado por Trump esconde um cenário de fortes operações financeiras especulativas que já antecipavam a trégua. O que é fato é que o avanço para selar acordo permanece frágil enquanto o Líbano segue sob ataque de Israel.