Brasil pode aprender com a China a separar terras raras, defende professor
Brasil pode aprender com a China a separar terras raras, defende professor
O pesquisador Gilberto Sá, 83 anos, diz que seria um erro tratar a exploração desses minerais estratégicos numa possível negociação com EUA
Publicado pelo Portal Vermelho
Bayan Obo, na Mongólia Interior (norte da China), abriga um dos maiores depósitos de terras raras do planeta | Foto: Getty ImagesO professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Gilberto Sá, de 83 anos, diz que o Brasil pode aprender melhor e mais rápido a separar terras raras fazendo parceria com a China, o único país no mundo que detém essa tecnologia.
Considerado um dos principais pesquisadores da área, o acadêmico diz que seria um erro tratar a exploração desses minerais estratégicos, usados na fabricação de imã de carros elétricos, turbinas eólicas e outros produtos tecnológicos, numa possível negociação com os Estados Unidos.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Gilberto defende a parceria com o país asiático. “Porque é com a China que podemos aprender mais, melhor e mais rápido na etapa mais crítica —a separação e a metalurgia fina—, são eles que detêm o maior know-how nisso, industrial e escala. Isso não significa fechar portas a ninguém, nem subordinar a soberania. O interesse nacional vem acima de tudo”, justifica.
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O pesquisador foi um dos fundadores do Departamento de Química Fundamental da UFPE, que criou, em 1973, o laboratório de terras raras BSTR. Ele também foi secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia na gestão de Roberto Amaral durante o primeiro governo do presidente Lula.
Com respaldo de outros acadêmicos como Osvaldo Ferreira (USP) e Oscar Malta (UFPE), o professor afirma que o Brasil “negligenciou as terras raras desde os anos 1960 e deveria, em vez de negociar com os EUA, buscar uma parceria com a China, mais desenvolvida na área e única que domina a tecnologia de separação e refino de terras raras”.
O acadêmico citou como exemplo o caso do polonês naturalizado brasileiro Pawel Krumholz, pioneiro na tecnologia de separação de terras raras na empresa Orquima. “Era um gênio, está esquecido”.
De acordo com ele, o problema é que foi feita a encampação da empresa Orquima pelo Estado, e o [Pawel] Krumholz “evidentemente ficou fulo, não negociou as suas patentes de separação de terras raras, deixou no cofre”.
“Naquele tempo nós tínhamos a coisa mais importante, que era a tecnologia de separação das terras raras, que ninguém tem hoje ainda. Nem o Brasil, nem os Estados Unidos. Quem tem é só a China”, lembra.
O professor diz ainda que “ninguém” leva a sério o problema no Brasil. “A atuação dos governos federais a partir da década de 1960 em relação às terras raras é caracterizada por ineficiência administrativa, descaso institucional e limitada preocupação com a soberania nacional. Além disso, sob a justificativa de atender ao interesse público, promoveu-se o enfraquecimento de uma estratégia essencial ao país, ao mesmo tempo em que se incorreu em práticas de prevaricação, privilegiando posicionamentos individuais em detrimento da proteção e valorização do patrimônio nacional”, argumenta.
