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Seguridade Social, luta de classes e a realidade da população trans em SP

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Seguridade Social, luta de classes e a realidade da população trans em SP

 

A distância entre a promessa constitucional de direitos e a realidade vivida por pessoas trans em São Paulo expõe como a desigualdade estrutural limita acesso, existência e dignidade.

 

Foto: Luis Soto/LightRocket via Getty Images

A Constituição Federal de 1988 instituiu a Seguridade Social como um dos pilares do pacto democrático brasileiro, afirmando que saúde, previdência e assistência social são direitos de todos e dever do Estado.

No plano formal, trata-se de uma das conquistas mais avançadas da redemocratização. No entanto, a experiência concreta da população LGBT+, especialmente das pessoas trans, revela a distância entre a promessa constitucional e a materialidade da vida sob o capitalismo periférico brasileiro.

Escrevo a partir da escuta realizada em uma roda de conversa da qual participei a convite da ONG Pela Vidda. Ali, entre relatos marcados por exclusões reiteradas, tornou-se evidente que a negação de direitos não é episódica nem resultado de falhas isoladas do sistema.

Ela é estrutural.

A dificuldade de acesso pleno à saúde, à moradia, à previdência e até ao reconhecimento do nome social expressa a forma como o Estado, inserido na lógica do modo de produção capitalista, administra a vida de maneira desigual.

 

Sob uma perspectiva marxista, é preciso lembrar que a cidadania formal não elimina as desigualdades materiais. O capitalismo organiza a sociedade a partir da exploração da força de trabalho e da extração de mais-valia. Quem não se encaixa nos mecanismos formais de produção e reprodução do capital é empurrado para a marginalidade econômica. A população trans, historicamente excluída da escola, do emprego formal e das redes de proteção social, passa a ocupar o lugar da superexploração ou da informalidade extrema.

Dados sistematizados por organizações como a Antra indicam que a expectativa de vida média de pessoas trans no Brasil gira em torno de 35 anos — número que evidencia a violência estrutural que atravessa esses corpos.

Não se trata apenas de violência física direta, mas de um processo contínuo de negação de direitos que encurta trajetórias e limita horizontes de existência. A exclusão da população trans não é um “desvio” do sistema: ela cumpre uma função. Ao manter corpos dissidentes em situação permanente de vulnerabilidade, o capitalismo reforça a disciplina social e naturaliza hierarquias. A transfobia estrutural opera como mecanismo de fragmentação da classe trabalhadora, impedindo que setores explorados se reconheçam como parte de um mesmo sujeito histórico. Divide-se para governar; precariza-se para controlar.

O primeiro direito frequentemente negado é o mais elementar: o reconhecimento da identidade. A recusa institucional em respeitar o nome social constitui uma violência simbólica que antecede e legitima outras formas de exclusão. Quando o Estado falha em reconhecer a identidade de uma pessoa, comunica que aquele corpo é secundário, descartável, menos digno de proteção social.

Na saúde, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) seja regido pelos princípios da universalidade e da integralidade, o acesso da população trans ao processo transexualizador, à hormonização acompanhada, ao cuidado em saúde mental e ao atendimento humanizado ainda depende, muitas vezes, da disposição individual de profissionais — e não de uma política estruturada e capilarizada.

Assim, a universalidade torna-se condicionada.

 

No campo da moradia e da assistência, a exigência de comprovação de renda formal e vínculos documentais evidencia como as políticas públicas são moldadas para o trabalhador inserido na formalidade. Quem foi expulso de casa na adolescência ou depende da informalidade e da prostituição para sobreviver encontra portas fechadas. O direito à cidade permanece condicionado à capacidade de se enquadrar nos critérios do mercado.

A luta da população trans por reconhecimento e acesso pleno à Seguridade Social não pode ser reduzida a uma pauta identitária isolada. Trata-se de uma expressão concreta da luta de classes em sua dimensão contemporânea. A emancipação humana não se esgota na igualdade jurídica proclamada pelo Estado liberal: exige a transformação das condições materiais que produzem desigualdade e hierarquização dos corpos.

Não basta afirmar que todos são iguais perante a lei quando as condições de existência são radicalmente desiguais. É necessário tensionar o Estado para que cumpra seu papel redistributivo, ampliar políticas afirmativas, garantir acesso efetivo à saúde integral, construir políticas habitacionais que considerem trajetórias marcadas pela exclusão e desenvolver estratégias de inclusão produtiva que rompam o ciclo da precarização.

Enquanto pessoas trans continuarem tendo sua identidade questionada, seu acesso à saúde dificultado e seu direito à moradia negado, a universalidade da Seguridade Social será apenas formal. A luta por dignidade da população LGBT+, especialmente das pessoas trans, revela os limites de um modelo que coloca o lucro acima da vida.

Transformar direitos escritos em direitos vividos exige organização coletiva, radicalização democrática e enfrentamento das estruturas que produzem desigualdade. A Seguridade Social só será verdadeiramente universal quando deixar de administrar a escassez e passar a garantir, de fato, condições dignas de existência para todos os corpos.

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